quinta-feira, 26 de abril de 2012

O que é psicanálise?

      Eu não sei, mas arrisco aqui um palpite que resume a minha mais recente e breve impressão particular sobre esse dispositivo ao mesmo tempo analítico e de certo modo também terapêutico:
       "A psicanálise é uma forma específica de relação dual que pretende liberar um sujeito de suas restritivas compulsões neuróticas (que em um primeiro momento, ofereceram uma espécie de proteção, alívio e defesa contra os males e dores do mundo, mas subsequentemente converteram-se em uma espécie de armadilha corrosiva à própria estrutura de seu caráter, restringindo suas possibilidades de ser e estar no mundo - com suas alegrias e tristezas inerentes - a uma organização psíquica e existencial demasiado rigída) que como consequência geral, conduz o indivíduo a uma atrofia da personalidade criativa (aquela que reside ao menos potencialmente no interior de cada ser humano singular) e que é, portanto, comum à espécie humana".

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A problemática "de um ponto de vista"

      Nunca é muito difícil demonstrar quando um ponto de vista é ou está errado. A dificuldade real reside sempre quando se procura apresentar um ponto de vista que seja ou esteja correto.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Vênus Negra

      Acabo de assistir Vênus Negra. O filme possui duas características essenciais que merecem ser marcadas:
1- Trata-se de uma espécie minuciosa de arquitetura do sadismo e das perversões humanas. A dissecação da dor, do sofrimento, da humilhação e da miséria atingem praticamente o ápice - se é que é possível falar em limite máximo sobre estas questões elementares da existência - na apresentação da estória dessa pobre criatura retirada da África para entreter a decadente nobreza Européia do século XIX.
2- Apresenta ainda de forma didática o caráter essencialmente amoral que fundamenta basicamente toda a espistemologia da ciência moderna. Afinal, já faz tempo que não existem mais limites éticos claramente delimitados sobre o que se pode e o que não se deve fazer em nome do progresso científico.
      Resumindo: O filme é uma verdadeira paulada na cabeça daqueles que ainda alimentam grandes ilusões (positivas) sobre o significado da palavra humanidade.

A classe média é terrível!

      O pensamento típico (quase hegemônico) da classe média é terrível: eles criticam e desvalorizam grosseiramente o trabalho a polícia, mas ao mesmo tempo, não abrem mão de um pingo da mordomia adquirida pela manutenção (mesmo que sempre vulnerável) da ordem estabelecida pela lei. Como dizia Moisés: "Sem lei não há liberdade!" E é óbvio demais que sem instituições como a polícia para sancionar a perversão e o sadismo dos indivíduos não há possibilidade de usufruto de nenhum dos ganhos adquiridos pela vida civilizada e coletiva. 
      No fundo, acho mesmo que trata-se de um bando de hipócritas covardes que pensam que o único valor a ser defendido na vida é o direito privado de alienar-se nas futilidades proporcionadas pelo estilo de vida moderno, como por exemplo: fazer compras de forma frenética, navegar o dia inteiro na internet, assistir palestras "éticas" sobre desenvolvimento sustentável ou documentários "cult" sobre a importância da diversidade cultural, a história da arte, a luta de classes ou as novidades da física quântica. Pior ainda (e essa é simplesmente de matar) é apenas esperar para "encher a cara" de cerveja e churrasco nos dias de futebol... sem falar naqueles que apenas defendem o seu direito inalienável de fumar maconha... 
      Incrível! Até parece que a único tipo de "lei" que se admira e respeita atualmente é a da vulgaridade!
      Mas a concepção de que a polícia então é execrável e necessariamente corrupta é totalmente falsa, pois é justamente a presença da polícia que possibilita a diversão e as festinhas nos finais de semana...
      De qualquer jeito: o fato é que todo mundo diz que adora e aspira a paz. Mas a verdade psicológica profunda que se oculta por detrás deste fato, é que apenas um número diminuto de pessoas possui a dose de coragem necessária para enfrentar as guerras que são necessárias - leia-se indispensáveis - para a conquista e o desfrute relativo da paz - entendendo a palavra paz aqui em seu duplo sentido: (I) interior (isto é, a paz consigo mesmo) e (II) exterior (que significa paz nas tempestuosas relações com os outros seres humanos).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Uma importante lição do Sr Freud

      Hoje aprendi uma importantíssima lição do Sr Freud: Com extrema frequência, os neuróticos se encontram de tal maneira encapsulados e aprisionados em seu próprio mundo mental (isto é, em suas mais íntimas fantasias e pensamentos) que, basicamente, já se tornaram incapazes de reconhecer a importância dos outros seres humanos em sua vida.
      Em suma, são eles no ápice de sua patologia emocional estupidamente ineptos e impotentes na arte de amar.     

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A aposta de Pascal

      Para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer a famosa argumentação da aposta de Pascal, terei aqui o prazer de reconstrui-la livremente em sua essência.
      Porém, antes de mais nada, vale a pena comentar que Blaise Pascal nasceu e viveu na França em meados do século XVII e foi, entre muitas outras coisas, um matemático brilhante; ao mesmo tempo, consagrou-se como um dos maiores filósofos apologéticos do cristianismo primitivo. Além disso, foi o autor da célebre passagem incessantemente revisitada na literatura mundial: "O coração tem suas próprias razões que, no entanto, nossa própria razão desconhece".
      A bem da brevidade, Pascal levantou a seguinte hipótese: Digamos que entre Deus e você está havendo um jogo. As possibilidades de sucesso (salvação) e fracasso (danação) neste jogo estão igualmente distribuídas entre 4 diferentes alternativas de aposta, sendo que podemos supôr e apresenta-las da seguinte maneira:
1Voce aposta que Deus existe, mas Ele não existe.
      Neste caso, voce entrega a sua vida em devoção a Deus e de certa maneira a perde, pois se ele não existe também não existirá recompensa pela sua entrega. Contudo, Pascal alega que a vida humana não deve ser alvo de excessiva estima (pois não é algo tão valioso quanto parece); de fato, em uma perspectiva cosmológica, uma vida humana vale tão pouco quanto a de uma formiga ou de uma lagartixa. Mais do que isso: em grande parte do tempo elas são um misto de dor, sofrimento, angústia e desespero ilimitados, dada a nossa brutal insegurança e ignorância diante dos mistérios da existência e pela condição de miséria e fragilidade diante da certeza inexorável e absoluta de nossa própria morte.
2- Voce pode assim apostar que Deus não existe e Ele realmente não existe.
      Agora sim, a primeira vista (de uma análise superficial), parece existir algum tipo de ganho real, afinal, você também não perdeu nada de extraordinário, e se você for ainda uma pessoa potencialmente otimista e feliz, isso significa que você ganhou alguns anos ou décadas de diversão, prazer e distração. Por outro lado, em grande parte, em função de sua vaidade (que te faz julgar a si mesmo como uma pessoa muito interessante e importante) é possível que não tenha conseguido construir nada que seja mais profundo, isto é, nada que vá além de acumular um número enorme de passatempos baratos e diversões passageiras... O fato é que é praticamente impossível contruir algo absolutamente sublime sobre uma base tão efêmera e imediata quanto uma vida humana (esse é um privilégio de uma minoria, isto é, dos gênios), pois digamos que você tenha vivido 40, 50, 80 ou até mesmo 90 anos: bela porcaria! Qual poderia ser o significado e a relevância disso no plano da eternidade? Nenhuma (ou uma ínfima mixaria)! "Tão rápido quanto tu vistes do pó, ao pó tu voltarás", já dizia o antigo testamento.
3- Voce pode então apostar que Deus existe e Ele realmente existe.
      Agora sim, somadas todas as possibilidades envolvidas, o seu ganho é incomensurável - assim como a perda humana ao momento de seu nascimento também foi uma perda incomensurável (pois no mito cristão não se deve esquecer por nenhum momento que se foi um dia expulso de um paraíso). Voce pode até se lamentar pelo fato de ter se divertido menos (ou pouco) e que em muitos momentos a renúncia e a reclusão diante do desejo e da tentação, pareceram um custo demasiado alto. Mas para um mortal, nenhum preço é demasiado alto diante da beatude eterna, isto é, da graça de ter sido a ti reservada o privilégio de conhecer a vida e a benção de retornar ao reino dos céus - ao lado do seu criador e possivelmente,  de muitas pessoas queridas. O descompasso estrutural da ambivalência entre finitude e infinitude, morte e imortalidade, efêmero e eterno simplesmente desapereceu e, partir deste momento, apenas resta o conforto do descanso e a serenidade contínua da paz!
4- Por último, voce pode ainda apostar que Deus não existe, mas Ele existe.
      Aí você se deu extremamente mal meu colega! Infelizmente, você também irá conhecer a eternidade, mas com o desprazer de queimar para todo o sempre no fogo do inferno; sem possibilidades de reclusão, pois agora, não existe mais qualquer tribunal humano - e menos ainda advogados - para que você possa apelar para a revogação da sua sentença. Apenas lhe resta ser definitivamente consumido pelo pavor diante da escolha errada!
      Bom, segue-se daí, com certa clareza, as duas conclusões elementares de Pascal:
1- O atéismo não compensa em hipótese alguma. Trata-se basicamente de uma escolha demente, pois é preciso estar mentalmente prejudicado para apostar todas as próprias fichas na inexistência do criador (já que no limite, reconhecemos que somos todos criaturas, ou seja, em dado momento fomos criados, mas jamais podemos nos conceber como nossos próprios criadores).
2- Avaliando a relação "custo-benefício", então apenas vale a pena apostar na possibilidade da existência de Deus, pois o custo pago (a nossa frágil vida material) é muito baixo quando comparado com a possibilidade de ganho (a salvação e a beatude eterna da alma individual).
      Daí decorre a profundidade da análise psicológica de Pascal sobre os limites, a grandeza e a miséria da condição humana. É claro que uma relação religiosa qualquer entre um sujeito e a fé apenas pode ser assim reduzida (a um calculo tão instrumental) de uma forma um tanto cômica e através de um tom de brincadeira e descontração. Penso, sinceramente, que nenhuma pessoa séria seria capaz de alterar o rumo de sua vida (no sentido de suas apostas) apenas baseada em um argumento deste tipo, pois acho que isso soaria aos olhos do próprio Deus como um investimento demasiado egoísta, mesquinho e interesseiro (talvez, somente por este motivo, tal comportamento já deveria ser considerado indigno do merecimento de tal bem, prêmio ou recompensa concedida pela divindade).
     De qualquer maneira, considero o raciocínio justo e vale como um exercício interessante para qualquer reflexão filosófica ou psicológica sobre os infindáveis e constantes problemas colocados à subjetividade humana pela questões mais profundas de ordem metafísica.         

domingo, 8 de abril de 2012

A essência do espírito capitalista

      A essência do espírito que alimenta a indústria e o mercado capitalista não é a riqueza, e sim, a pobreza!
      Afinal, o que mais pode impelir a ambição de uma pessoa a querer acumular cada vez mais um número maior de exemplares de algo (como dinheiro, bens, propriedade, negócios, ações etc) senão o sentimento íntimo e mesquinho que indica que nunca se possui o bastante (ou o suficiente)?
      É por isso que tantos sujeitos supostamente ricos podem ser perfeitamente colocados na conta dos espiritualmente miseráveis... e é também, neste sentido, que as palavras do professor Gretz devem ser corretamente interpretadas, quando o mesmo disse que: "Rico não é o que mais tem, mas aquele que menos precisa".     

terça-feira, 3 de abril de 2012

Matrimônio: resultado do Amor ou do Autosacrifício?

     Enganam-se redondamente, aqueles que pensam que a base do matrimônio (isto é, aquilo que sustenta qualquer tipo de relacionamento conjugal monogâmico do tipo casamento ou até mesmo um namoro sério) é o amor, porque não é! Na raiz profunda da expressão do amor, o que encontramos invariavelmente é uma porção de abnegação do ser, sendo, portanto, que aquilo que oferece real solidez a qualquer relacionamento deste tipo é, e sempre será o sacrifício (ou mais precisamente o autosacríficio).
     Como pode ser incansavelmente observado e atestado no cotidiano, um relacionamento é capaz de sobreviver e se arrastar por anos a fio sem sequer contar com “uma só gota de amor”, mas não pode ele, igualmente, suportar nem sequer um dia sem uma dose considerável e generosa de autosacríficio (pois aqui, o sacrifício é anterior e até certo ponto, uma pré-condição para a manifestação tardia do amor).
     Esse é o motivo pelo qual (considerando dogmaticamente a psicologia feminina), uma mulher quase nunca valoriza o que um homem faz por ela mais do que ela valoriza o que ele deixou de fazer para fazer o que ele fez por ela. Em suma, conta muito mais o autosacríficio pessoal do que a benevolente generosidade da vontade...
     De fato, e isso muitas pessoas sabem, o que mais valoriza a relação amorosa é a renúncia. Renúncia, que por sua vez é ambígua e pode envolver por um lado, a esfera do pulsional (desejos) e por outro, a esfera do ideal (sonhos). É neste sentido profundo que a expressão da personagem de Woody Allen deve ser compreendida, quando afirma que "o casamento é a morte da esperança".
     Até aí tudo simples e fácil e de entender. O problema é que cada renúncia tem um peso e traz consigo uma marca, que inúmeras vezes é paga na dolorosa moeda da neurose, da insegurança patológica, do ciúmes e da traição (que por sua vez, também é ambígua, pois pode envolver tanto o autoengano quanto o engano do parceiro).
      Se pudessemos resgatar, esta seria então a base pragmática mais elementar do racíocinio infantil: "Se ele não deixou de fazer algo importante para ficar (ou fazer algo) comigo (para mim), ele não me ama". Freud já havia alertado que "a demanda do amor infantil é absoluta, pois uma criança, geralmente não se contenta com menos do que tudo". Mas uma hora é preciso amadurecer e aprender que o amor é algo maior do que toda essa mesquinharia insensata e nesse ponto, não apenas as mulheres como também um grande número de homens precisa compreender que o autosacríficio até pode ser considerado uma forma de expressão do amor, mas que de modo algum, é a única.