quarta-feira, 23 de outubro de 2013
A Liberdade da prisão
Deixo a liberdade para todo o mundo, pois tenho espaço bastante em minha prisão.
sábado, 28 de setembro de 2013
A flor do amor
Não é possível, apenas pela força do próprio desejo, fazer desabrochar a flor do amor no coração de uma mulher. Em todo o mundo da natureza, toda e qualquer flor desabrocha tão somente quando é possível, isto é, em seu próprio tempo.
terça-feira, 20 de agosto de 2013
terça-feira, 13 de agosto de 2013
"É muito mais difícil lidar com a saúde do que com a doença". D.W. Winnicott
De fato, este não é apenas um dado clínico, mas um dado existencial.
Frequentemente, fala-se muito hoje em dia sobre a busca de felicidade e evitação do sofrimento como uma propensão natural da vida humana, mas por um paradoxo espantoso, percebo que toleramos muito mais dócil e facilmente a dor e a tristeza do que suportamos o prazer e a alegria (e isso mesmo levando em conta que a nossa tolerância a frustração é geralmente baixíssima).
Talvez, desde o início de nossa constituição, a dor seja nossa principal morada e portanto o terreno mais familiar para se pisar, enquanto a alegria é uma estrangeira esquisita sobre a qual nutrimos uma desconfiança cautelosa. Isso ajuda a explicar porque cotidianamente destruímos fontes legítimas de prazer enquanto nutrimos loucamente mananciais ilimitados de dor psíquica.
Na maior parte do tempo, parece que somos mesmo céticos cínicos em relação à nossa própria realização pessoal.
Nesta perspectiva, desenvolvimento e amadurecimento psico-emocional não devem significar apenas a criação de uma reserva afetiva destinada à tolerância da dor, do sofrimento e da tristeza inerentes ao estar vivo; deve-se pensar na criação concomitante de uma reserva afetiva que torne possível suportar também o prazer, a satisfação e a alegria, o que definitivamente acho que para os seres humanos é uma tarefa bem mais difícil!
Frequentemente, fala-se muito hoje em dia sobre a busca de felicidade e evitação do sofrimento como uma propensão natural da vida humana, mas por um paradoxo espantoso, percebo que toleramos muito mais dócil e facilmente a dor e a tristeza do que suportamos o prazer e a alegria (e isso mesmo levando em conta que a nossa tolerância a frustração é geralmente baixíssima).
Talvez, desde o início de nossa constituição, a dor seja nossa principal morada e portanto o terreno mais familiar para se pisar, enquanto a alegria é uma estrangeira esquisita sobre a qual nutrimos uma desconfiança cautelosa. Isso ajuda a explicar porque cotidianamente destruímos fontes legítimas de prazer enquanto nutrimos loucamente mananciais ilimitados de dor psíquica.
Na maior parte do tempo, parece que somos mesmo céticos cínicos em relação à nossa própria realização pessoal.
Nesta perspectiva, desenvolvimento e amadurecimento psico-emocional não devem significar apenas a criação de uma reserva afetiva destinada à tolerância da dor, do sofrimento e da tristeza inerentes ao estar vivo; deve-se pensar na criação concomitante de uma reserva afetiva que torne possível suportar também o prazer, a satisfação e a alegria, o que definitivamente acho que para os seres humanos é uma tarefa bem mais difícil!
quarta-feira, 31 de julho de 2013
Acho que descobri a árvore genealógica dos afetos
O amor é filho da angústia e do desejo. O medo é filho do amor e do cuidado. A raiva, a inveja e o ciúme são os filhos do medo e da impotência. A culpa, o ressentimento e a amargura são filhos da raiva, da inveja e do ciúme. A depressão (auto-destruição) é filha da culpa e da amargura. A violência (destruição do outro) é a filha da culpa e do ressentimento. A depressão e a violência não tem filhos.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
Amadurecer
Amadurecer enquanto pessoa (entre um milhão de outras coisas) significa ser capaz de criar e oferecer respostas próprias (singulares) para os problemas (de certo modo universais) da existência humana.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Hobbes X Rousseau
É engraçado: quando eu tinha 15 anos simpatizava com Rousseau e aos 17, quando conheci Hobbes, o achava um chato de galocha... Hoje, com 30, as coisas praticamente se inverteram (e estudar Freud foi decisivo com relação a este meu reposicionamento e mudança): apenas agora reconheço e entendo com mais profundidade o "pessimismo" moral de Hobbes, ao passo que estou cada vez mais inclinado a considerar o pensamento de Rousseau como uma expressão clássica do "infantilismo neurótico" no universo da política (atualmente, ler Rousseau, é para mim uma experiência extremamente constrangedora!). Para ser sintético, penso que o maior erro de Rousseau parte de sua concepção de uma humanidade moralmente neutra e, portanto, ele se apressa em localizar o mal, a culpa e o erro sempre no universo externo (no sistema, na sociedade etc); assim, resumidamente, eu diria que Rousseau (tanto quanto Marx e seus descendentes diretos) se defende do mal no mundo projetando esse mal para a o lado de fora; no sentido contrário, o pensamento de Hobbes antes de mais nada olha para si mesmo, para o interior do ser humano, e não gosta nada do que vê! (mas é claro, não é agradável olhar para o abismo de nosso universo interior e reconhecer que lá também existem o caos, a confusão, a desordem, a culpa, o erro e a maldade) É neste sentido que Hobbes é uma espécie de "pessimista" moral. Mas o fato é que deslocar o foco de um problema interno para fora não pode ser considerada uma manobra psíquica muito inteligente, assim como um sistema político qualquer que seja não deve ser confundido com um desinfetante moral. Hobbes ainda acredita que a sociedade como um todo e o convívio humano são libertadores dessa opressora natureza destrutiva que alimenta boa parte do movimento do homem no mundo (e nisso eu tb concordo com ele). No entanto, apesar de a visão hobbesiana me cativar extremamente mais do que a rousseauniana, ainda considero essas duas posições como essencialmente "esquizo-paranóides" (Melanie Klein), pois elas cindem o universo em dois aspectos únicos e indissociáveis. Na primeira, basicamente o homem é bom e a sociedade é má; na segunda, o homem é que é ruim e a sociedade é que é boa. Acho que nem preciso me estender muito no sentido de esclarecer porque considero que Hobbes tinha um posicionamento político mais maduro e menos ingênuo do que o de Rousseau (apesar de ter escrito 1 século antes)... mas parece que este amadurecimento psíquico se apresenta de uma forma extremamente clara e lúcida tão somente na perspectiva e visão política de Tocqueville. Aí sim, poderíamos pensar com Klein, na conquista de uma integração (posição depressiva) entre a noção de bem e mal no plano do pensamento político, pois com ele, torna-se superficial demais dividir o bem e o mal localizando-os ora na pessoa ora no sistema; é claro que no sofisticado pensamento de Tocqueville, o bem e o mal são constituintes elementares tanto da natureza humana quanto da organização social. E neste sentido, a responsabilidade pessoal de cada um está sendo então convocada a ser pensada simultaneamente em termos individuais e coletivos. Esse é o motivo pelo qual o considero até hoje um dos maiores gênios do pensamento político no ocidente!
terça-feira, 11 de junho de 2013
O ódio é que há de banal na existência humana
Na boa, tem que ser muito ingênuo para acreditar que os manifestantes/revoltados estão de fato praticando atos de cunho político e que, além disso, agem comovidos por um genuíno sentimento de justiça social. Um ou outro até pode estar bem intencionado neste sentido, mas ainda acho que este é a exceção!
A grande maioria me parece realmente que quer apenas se juntar ao bando (ou a manada) para, de uma maneira legitimada (travestida de interesse social e preocupação benevolente com os outros), ser capaz de dar livre expressão ao seu ódio, ao seu ressentimento e, por consequência, à sua hostilidade reprimida.
Mas é claro, destruir sempre será mais fácil e conveniente do que construir; do mesmo modo, o ódio é muito mais prático de ser cultivado do que o amor (que por sua vez, dá um trabalho do cão). No drama comum da miséria humana, todos tem todos os motivos pra odiar todo mundo. Ao passo que amar no sentido profundo - isto é, com um sacrifício pessoal radical pela alteridade que se expressa na face enigmática do outro (aí sim, tem que ser qualquer outro, pois no plano do amor "não podem" existir inimigos políticos) - ou amar no sentido primitivo do cristianismo, está e estará sempre completamente fora de moda. Isso sim é um escândalo: o amor, pois o ódio é o que há de mais banal!!!
quinta-feira, 6 de junho de 2013
Culpa e reparação
Mais uma vez, parece que o Dr Winnicott estava certo: o sentimento de culpa torna-se de fato intolerável sempre que ele não pode ser sucedido por alguma espécie de ato (mágico) reparador.
domingo, 2 de junho de 2013
O despertar de uma paixão
Um filme arrebatador! Tragédia, romance e catarse espiritual dignos das mais elogiáveis obras de arte.
O drama ilustra perfeitamente bem a luta da personagem (Kitty) contra a realidade inexorável da "castração" que envolve a humanidade (Freud); o progressivo abandono de seu egoísmo infantil em direção à conquista da capacidade de empatia e alteridade (expressos pela possibilidade emocional concreta de se colocar afetivamente no lugar de outros), que culminaram finalmente na construção - como sempre, árdua - de um vínculo amoroso realmente significativo - pois produzido a partir do vazio, da dor e da alegria que acompanham inevitavelmente o crescimento e o desenvolvimento de toda e qualquer autonomia individual.
Enquanto Fane mantém-se um cavalheiro mesmo no auge do ressentimento e da amargura diante de seu orgulho ferido. Em nenhum momento (ao contrário do que ele tentou expressar), me parece que lhe faltou intensidade em relação aos seus afetos e a sua incomensurável paixão pela esposa.
Uma das mais belas construções psicológicas e estéticas a respeito do difícil e desgastante processo de amadurecimento humano. Além de roteiro, direção, fotografia, música e figurino excepcionais!!!
Sem dúvida, em minha opinião, um filme de e para "gente grande"...
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Ressentimento X Entusiasmo
Se o ressentimento é o produto (negativo) da tensão entre o desejo e a impotência (Scheler), então o entusiasmo é a expressão (positiva) direta da tensão entre o desejo e a potência (tomada enquanto uma possibilidade concreta do vir-a-acontecer).
Neste sentido, o entusiasmo é o correspondente interior do sentimento que externamente manifesta-se sob a forma de alegria. E esse é o exato motivo pelo qual o ressentido é também um infeliz! Sua tristeza deriva justamente do seu sentimento interior de impotência - uma vez que para este, a possibilidade desde o início já se encontra excluída. Ao contrário, a alegria muitas vezes contagiante do entusiasmo é justamente alegria pelo fato de acolher em si mesma o ilimitado e o infinito em termos irrestritos de possibilidade.
Mas esta é finalmente a marca característica e elementar de toda e qualquer fé: a perseverança; e não (jamais) a credulidade cega. A credulidade cega é capaz de acreditar em tudo, especialmente naquilo que nunca foi capaz de ver ou mesmo sentir. Já a perseverança, é aquela confiança básica que é também capaz de acreditar em tudo, apesar de nem sempre ver, mas no entanto nunca deixar de sentir.
Neste sentido, o entusiasmo é o correspondente interior do sentimento que externamente manifesta-se sob a forma de alegria. E esse é o exato motivo pelo qual o ressentido é também um infeliz! Sua tristeza deriva justamente do seu sentimento interior de impotência - uma vez que para este, a possibilidade desde o início já se encontra excluída. Ao contrário, a alegria muitas vezes contagiante do entusiasmo é justamente alegria pelo fato de acolher em si mesma o ilimitado e o infinito em termos irrestritos de possibilidade.
Mas esta é finalmente a marca característica e elementar de toda e qualquer fé: a perseverança; e não (jamais) a credulidade cega. A credulidade cega é capaz de acreditar em tudo, especialmente naquilo que nunca foi capaz de ver ou mesmo sentir. Já a perseverança, é aquela confiança básica que é também capaz de acreditar em tudo, apesar de nem sempre ver, mas no entanto nunca deixar de sentir.
sábado, 11 de maio de 2013
Confissões de um jovem apaixonado (filme)
Na minha avaliação, um dos melhores filmes de 2013 (apesar de na verdade ser um filme de 2011; 2013 foi tão somente o ano de seu lançamento no cinema brasileiro)!
Dois pontos a serem enfaticamente destacados:
Dois pontos a serem enfaticamente destacados:
I. O filme retrata precisamente o sentimento de vazio interior, desespero e angústia característicos do sujeito moderno; reiterando assim a minha hipótese de que o mito cínico do "Nada transcendente" é uma invenção produzida especificamente pela modernidade, e de que todo o sofrimento neurótico típico de nossa época reflete nada menos (mas também nada mais) do que a falta de elementos simbólicos ou de outros mitos criativos para além do amor romântico, que sejam suficientes para aplacar o terror diante de uma das mais temíveis manifestações psicológicas descobertas - ou seriam geradas? - pelo mundo moderno: a sensação de tédio! até onde pesquisei, não encontrei quaisquer correlatos para o significado de termos como "tédio", "vazio existencial", "angústia diante do nada", e nem sequer de uma "filosofia do ateísmo" no mundo pré-moderno; o que indicaria que estamos diante de fenômenos não necessariamente ontológicos (universais) da condição humana, mas sim de manifestações singulares referentes a um determinado período histórico de nossa evolução - que compreende-se consensualmente como a "Era Moderna".
II. Além disso, ele ilustra escandalosamente bem, noções e conceitos fundamentais da teoria Freudiana: em primeiro lugar a noção de trauma psíquico (traição da amante), seguida logo depois da construção aprisionante de uma armadura neurótica enquanto defesa (expressa pela libertinagem); a consequente introversão da libido para o reino interior da fantasia (medo da amada) e finalmente, o resultado mais doloroso em termos de adoecimento psíquico: a perda (parcial ou total) da capacidade de amar (culminando assim no abandono da amada)!
A estética do período e a sensibilidade aguçada e introspectiva do herói (trágico) me remeteram muito ao drama espetacular de Werther! Ou seja, temos ao mesmo tempo um filme nobre e sensível, além de apaixonadamente intenso e profundo.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Um crime não deve ser atenuado em função da idade do criminoso: essa premissa é condição fundante de qualquer sociedade que se considere humana
A partir de meus estudos sobre a obra de Freud, e pensando um pouco sobre este assunto, ao menos uma coisa eu concebo como fato: a introjeção das leis básicas que tornam a civilização possível, isto é, a assimilação dos mandamentos ético-morais elementares do tipo: "não cometerás incesto, parricídio, canibalismo, assassinato, estupro etc", depende de uma sanção coletiva que reprima (de forma inibidora, dura e coercitiva) estes impulsos violentos presentes em nossa animalidade.
Infelizmente (ou felizmente), me parece que a única maneira que uma sociedade realmente dispõe para possibilitar a inserção de seus membros na cultura é através da punição exemplar dos transgressores (pois a transgressão em si mesma não pode ser punida), e isto não pode ocorrer de outra forma que não seja autoritária - tendo em vista o mais pleno e rigoroso cumprimento da lei.
Neste sentido, aonde reina a impunidade, reina também uma confusão perversa entre o que é permitido e o que não é permitido pela lei; e não existindo assim qualquer fundamento comum que oriente os sujeitos a serem capazes de distinguir minimamente entre o certo e o errado (pelo menos sob tais aspectos vitais, como por exemplo, tocar fogo em uma pessoa porque ela não tem ou não quer me dar dinheiro SEMPRE estará errado), tal sociedade estará automaticamente condenada à própria extinção, pois em uma terra onde todos podem tudo, é claro que com o tempo ninguém poderá mais nada!
Em suma, o crime é grotesco e acho que independente da idade, o sujeito tem que se haver com a responsabilidade de tal ato. Penso que isto é o melhor que podemos fazer por ele e por todos os outros (nós inclusive); isso é muito mais nobre e caridoso do que simplesmente inverter a situação tratando o criminoso como uma vítima ou mesmo sua perversão como um ato de justiça social... e justamente não é toa que a nossa sociedade atual seja em grande parte formada por canalhas que reconhecem apenas uma única lei: a lei da covardia!!
quarta-feira, 24 de abril de 2013
A caça (filme)
Como obstinadamente advogava o psicanalista Sándor Ferenczi ao final de sua obra: a criança fala a linguagem da ternura. São os adultos, ora neuróticos (recalcados) ora perversos, que frequentemente introduzem através de suas paixões o erotismo no universo infantil. Filmaço!!! Final um tanto surpreendente, uma vez que nas palavras do poeta, parece que realmente "existe algo de podre no reino da Dinamarca"... rs!
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Filme: Amor, de Michael Haneke; uma paulada!
Finalmente, depois de meses de adiamento, eu acumulei a coragem necessária para enfrentar o desafio pessoal de assistir ao filme "Amor", de Michael Haneke. Foi preciso paciência, afinal, mesmo apesar de alguns anos de análise, ainda me considero um daqueles radicais trágicos que concebe o envelhecimento e a morte como uma espécie de "maldição" aparentemente sem qualquer propósito ou sentido minimamente justificável - possivelmente, minha sensibilidade trágica seja de fato uma questão inanalisável... não sei...
De qualquer modo, não me proponho aqui a fazer uma análise do filme; não me sinto nem um pouco à vontade para fazer isso, pois trata-se de um tema muito forte e que me pega do início ao fim...
No entanto, aproveitarei o espaço para compartilhar alguns dos pensamentos que indicam a maneira pela qual eu fui afetado pela estória. Assim, desde o início, a grande questão pela qual este filme me pegava e ainda me pega é: será o amor suficientemente forte para suportar as misérias básicas de uma existência tipicamente humana?
De qualquer modo, não me proponho aqui a fazer uma análise do filme; não me sinto nem um pouco à vontade para fazer isso, pois trata-se de um tema muito forte e que me pega do início ao fim...
No entanto, aproveitarei o espaço para compartilhar alguns dos pensamentos que indicam a maneira pela qual eu fui afetado pela estória. Assim, desde o início, a grande questão pela qual este filme me pegava e ainda me pega é: será o amor suficientemente forte para suportar as misérias básicas de uma existência tipicamente humana?
Segundo a franqueza brutal do existencialismo tragicômico (pessimista) de Woody Allen, tal como retratado no final dos anos 70, em seu magnífico "Annie Hall" (sem dúvida, um de meus filmes prediletos): a vida seria basicamente dividida em duas categorias: horrível e miserável. Horrível seriam todas aquelas manifestações associadas com doenças terminais e crônico-degenerativas, ou com a perda irrevogável dos sentidos e da capacidade motora de deslocamento, em suma: tudo aquilo que assegura uma precoce invalidez total - sendo o mais espantoso e inacreditável que, depois de um ser humano ser acometido por qualquer uma destas vicissitudes fortuitas, que tal indivíduo fosse ainda capaz de continuar vivendo!
Por sua vez, a parte miserável compreenderia todo o resto, ou seja, tudo que não entra na conta do horrível. Logo, sua conclusão um tanto "cínica", não poderia ser muito diferente: quando passar pela vida, se puder, agradeça por ser tão somente um miserável!!! Eu diria sem pesar que, assim como muitos de meus "modelos de autoridade identitária", eu já frequentei por certos (e longos) períodos a "escola" Kierkegaardiana da angústia e do desespero, e é neste sentido que compreendo com as vísceras a suposta veracidade da constatação Alleniana.
Por sua vez, a parte miserável compreenderia todo o resto, ou seja, tudo que não entra na conta do horrível. Logo, sua conclusão um tanto "cínica", não poderia ser muito diferente: quando passar pela vida, se puder, agradeça por ser tão somente um miserável!!! Eu diria sem pesar que, assim como muitos de meus "modelos de autoridade identitária", eu já frequentei por certos (e longos) períodos a "escola" Kierkegaardiana da angústia e do desespero, e é neste sentido que compreendo com as vísceras a suposta veracidade da constatação Alleniana.
Em grande parte, me parece que é essa convicção de Woody Allen (pelo menos de seu personagem no filme) que é testada até o seu limite extremo na dinâmica radical do filme "Amor"; porém, com a introdução justamente de um elemento adicional diferencial, que se manifesta e se expressa através de um forte vinculo amoroso entre um casal de idosos. Retomo então a questão: seria esse amor suficientemente forte para lidar com a iminente desgraça do casal produzida pela desintegração crescente do corpo biológico das personagens - em especial, do acentuado e acelerado declínio das funções autônomas da esposa?
Não sei, mas na forma como é retratada a estória, me parece que ao mesmo tempo sim e não... Após assistir ao filme, apenas uma única coisa ficou relativamente clara: o porquê que a brilhante atuação de Emmanuelle Riva perdeu o óscar de melhor atriz para Jennifer Lawrence. Eu arrisco dois palpites simples e um tanto óbvios: (I) a juventude e sua inestimável beleza física vendem absurdamente melhor e mais facilmente do que os aspectos tristes e degenerativos da perda de autonomia individual decorrentes do envelhecer (ter que se esforçar medonhamente para tomar água de canudinho ultrapassa, para muitos - inclusive para mim - o limite do tolerável em termos de dignidade humana); (II) no mundo contemporâneo, a tragédia também não é tão rentável quanto o melodrama romântico, uma vez que a maior parte da indústria do entretenimento moderno está voltada justamente para negação dos elementos trágicos da vida, assim como também para o esquecimento das verdadeiras obscuridades enigmáticas que assolam a condição humana.
Não sei, mas na forma como é retratada a estória, me parece que ao mesmo tempo sim e não... Após assistir ao filme, apenas uma única coisa ficou relativamente clara: o porquê que a brilhante atuação de Emmanuelle Riva perdeu o óscar de melhor atriz para Jennifer Lawrence. Eu arrisco dois palpites simples e um tanto óbvios: (I) a juventude e sua inestimável beleza física vendem absurdamente melhor e mais facilmente do que os aspectos tristes e degenerativos da perda de autonomia individual decorrentes do envelhecer (ter que se esforçar medonhamente para tomar água de canudinho ultrapassa, para muitos - inclusive para mim - o limite do tolerável em termos de dignidade humana); (II) no mundo contemporâneo, a tragédia também não é tão rentável quanto o melodrama romântico, uma vez que a maior parte da indústria do entretenimento moderno está voltada justamente para negação dos elementos trágicos da vida, assim como também para o esquecimento das verdadeiras obscuridades enigmáticas que assolam a condição humana.
Durante as duas horas do filme, é basicamente com isso que o telespectador é confrontado: com a dureza da velhice; com os limites da incompreensão humana sobre a finitude; e com a ausência/perda gradativa do sentido da vida que é acarretada pela morte das pessoas queridas e que, ao ir embora, levam junto também partes de nosso mundo interno.
No entanto, considero que falar de amor e não falar sobre a mensagem elementar do cristianismo é deixar de falar sobre o essencial do amor. Nas belas palavras de Erich Fromm (que diga-se de passagem não era um propriamente um cristão, e sim um amoroso humanista místico): "o amor é a única resposta sadia e satisfatória para os problemas da existência humana". Essa simples afirmação, já forma por si só, um contraponto justo em relação à caricatural visão da desgraça (referente à perda total da esperança e da fé em um significado metafísico positivo para a existência humana - que diga-se de passagem, é realmente potencialmente aniquiladora) tão cara a muitos contemporâneos. E vale lembrar que o mundo grego (e qualquer outro mundo na época) não conhecia tal categoria de amor: o amor caridoso e incondicional à figura do próximo (enquanto manobra psíquica de combate ao egoísmo tão natural e indissociável da experiência humana) e é por isso que o pagão se escandalizava totalmente diante do cristão - assim como o sujeito moderno se escandaliza até hoje! Ao passo que o mundo moderno, parece que também já se esqueceu ou abandonou quase por completo tal ensinamento. Ele praticamente só reconhece como manifestação de amor a exaltação do amor apaixonado tal como representado pela histeria romântica dos poetas.
De ante-mão, assumo aqui então, sem pudor, que aposto todas as minhas singelas fichas na possibilidade de que a máxima de Fromm esteja correta, e que, portanto: ao final, o amor consiga sim dar conta do recado frente não apenas à questão terrificante da morte - pois é claro que a morte, em determinadas situações, pode muito bem ser enfrentada com enorme dose de dignidade heroica; e o homem grego já sabia muito bem disso -, mas também a essas outras duas grandes questões impostas pelo envelhecimento: (I) o inexorável definhamento de nosso corpo biológico e (II) a degeneração de nossa atividade anímica espiritual.
Mas seria necessário esclarecer então de qual que categoria de amor que se fala. Me parece que apenas o amor compreendido em seu sentido mais amplo, isto é: na conjunção completa do amor ao absoluto em-si-mesmo (que nada mais é do que o amor ao amor ou o amor a Deus), somado ainda ao amor parental aos criadores encarnados, ao amor erótico/sexual dirigido ao parceiro, ao amor constitutivo da personalidade do ser na qualidade de amor a-si-mesmo e finalmente, ao amor fraternal aos imperfeitos e degenerados, porém semelhantes) é capaz de suportar o drama exasperante imposto pelo destino humano; e é por isso que Spinosa (o grande místico neo-estoico do século XVII) defende o amor como o único afeto ativo, pois o amor é ação, ao contrário do medo, do ódio, da inveja, da cobiça e do ciúmes (afetos passivos) que são apenas reações que impelem o homem para longe da expansão de sua potência - isto é, para longe de seu próprio crescimento e desenvolvimento interior .
Na mais simples expressão da filosofia cristã, seria justamente através do relacionamento amoroso com o amor em-si-mesmo (compreendido também em toda a sua humildade enquanto Amor-necessidade de Deus e Amor-doação aos seres humanos tal como expresso na doutrina da Caridade de Paulo), que não haveria mais o que temer, pois seria somente este amor mais elevado que basicamente sustentaria a esperança e a fé de que a eternidade é em si mesma uma possibilidade aberta, e sendo justamente esse amor, a via de acesso para o eterno, pois no sentido ulterior das coisas que transcendem à temporalidade mundana, nas palavras de Kierkegaard, "o amor é linguagem universal do eterno e assim, ele permanece"!
De ante-mão, assumo aqui então, sem pudor, que aposto todas as minhas singelas fichas na possibilidade de que a máxima de Fromm esteja correta, e que, portanto: ao final, o amor consiga sim dar conta do recado frente não apenas à questão terrificante da morte - pois é claro que a morte, em determinadas situações, pode muito bem ser enfrentada com enorme dose de dignidade heroica; e o homem grego já sabia muito bem disso -, mas também a essas outras duas grandes questões impostas pelo envelhecimento: (I) o inexorável definhamento de nosso corpo biológico e (II) a degeneração de nossa atividade anímica espiritual.
Mas seria necessário esclarecer então de qual que categoria de amor que se fala. Me parece que apenas o amor compreendido em seu sentido mais amplo, isto é: na conjunção completa do amor ao absoluto em-si-mesmo (que nada mais é do que o amor ao amor ou o amor a Deus), somado ainda ao amor parental aos criadores encarnados, ao amor erótico/sexual dirigido ao parceiro, ao amor constitutivo da personalidade do ser na qualidade de amor a-si-mesmo e finalmente, ao amor fraternal aos imperfeitos e degenerados, porém semelhantes) é capaz de suportar o drama exasperante imposto pelo destino humano; e é por isso que Spinosa (o grande místico neo-estoico do século XVII) defende o amor como o único afeto ativo, pois o amor é ação, ao contrário do medo, do ódio, da inveja, da cobiça e do ciúmes (afetos passivos) que são apenas reações que impelem o homem para longe da expansão de sua potência - isto é, para longe de seu próprio crescimento e desenvolvimento interior .
Na mais simples expressão da filosofia cristã, seria justamente através do relacionamento amoroso com o amor em-si-mesmo (compreendido também em toda a sua humildade enquanto Amor-necessidade de Deus e Amor-doação aos seres humanos tal como expresso na doutrina da Caridade de Paulo), que não haveria mais o que temer, pois seria somente este amor mais elevado que basicamente sustentaria a esperança e a fé de que a eternidade é em si mesma uma possibilidade aberta, e sendo justamente esse amor, a via de acesso para o eterno, pois no sentido ulterior das coisas que transcendem à temporalidade mundana, nas palavras de Kierkegaard, "o amor é linguagem universal do eterno e assim, ele permanece"!
Expresso aqui alguns fragmentos do pensamento cristão não na qualidade propriamente de um cristão convertido (coisa que eu não sou), mas porque considero que elas são pertinentes e falam muito bem sobre questões que o mundo moderno se constrange em ter que responder - na verdade o cerne do pensamento moderno julga ansiosamente que elas não podem/necessitam ser respondidas.
No entanto, uma lição muito importante que eu acredito ter aprendido com a psicanálise é que tudo aquilo que não é ou não pode ser falado (tal como um trauma) nos determina não apenas em ação, mas ainda nos reduz em termos de possibilidade criadora e expansiva. E, de certo modo, penso que é isso que é dramaticamente demonstrado no final do filme, com o desfecho ensejado pelo marido, que através de seu ato de "eutanásia estoica" (que pode muito bem ser compreendido enquanto um corajoso e nobre ato de amor), é capaz de dar um fim ao crescente sofrimento vivido pelo casal. Porém, na concepção cristã de mundo, tal como eu a entendo, essa atitude dificilmente poderia ser estimulada, assim como tampouco o suicídio pode ser estimulado... pois trata-se de um ato radical de ruptura com a continuidade do devir, que carrega em si a possibilidade ilimitada, infinita e eterna de continuidade do (e através do) amor. Como bem afirmou o teólogo Paul Tillich em seu ensaio ontológico sobre a coragem: "as ansiedades naturais relativas à culpa e a condenação (expressas pelo sentimento de auto-rejeição do ser) são qualitativamente infinitas, e por terem então um peso ilimitado, não podem ser removidas ou eliminadas por um ato finito de auto-negação ôntica" (espiritual). É isso que torna o desespero algo tão desesperador: dele (do desespero) não se pode mais fugir, pois ele é a consequência final da fuga; nem mesmo através da auto-aniquilação seríamos capazes de nos livrar da culpa ontológica sentida por aquilo que não fomos ou não pudemos fazer! Kierkegaard, por sua vez, defendia que se a alma for realmente imortal, não existe existe qualquer possibilidade de um assassinato espiritual, mas apenas a derrocada do espirito na perda de si mesmo em sua luta e confronto mais difícil: o confronto com o nosso mundo interior.
Destacando que na base da filosofia cristã que segue a tradição de São João, Deus é amor, e assim, Ele é entendido enquanto o único e verdadeiro intermediário das relações de amor (naquele sentido amplo) entre os seres humanos. Nesta perspectiva, antes de amar uma pessoa ou qualquer outra coisa, é necessário entrar em uma relação mais profunda com o amor sobre-natural em-si-mesmo, o amor absoluto ou a Caridade - evitando assim, a tentação promovida pela representação moderna do amor puramente humanista ou mesmo romântico, que no limite e mesmo com a melhor das intenções, infelizmente ainda é uma forma camuflada de egoísmo; e não é necessário ser um gênio da psicologia para observar/constatar que frequentemente o(a) apaixonado(a) relaciona-se mais com a imagem sob a qual ele(a) projeta sua expectativa de idealização sobre a figura do outro, e menos com própria a singularidade do outro em sua alteridade radical. Portanto, sem essa relação intermediária (o terceiro do triângulo, que é o Amor), o amor natural e puramente dualista sucumbe na temporalidade, isto é, não resiste a pressão do tempo; não permanece e não ganha jamais a dimensão da eternidade.
No entanto, uma lição muito importante que eu acredito ter aprendido com a psicanálise é que tudo aquilo que não é ou não pode ser falado (tal como um trauma) nos determina não apenas em ação, mas ainda nos reduz em termos de possibilidade criadora e expansiva. E, de certo modo, penso que é isso que é dramaticamente demonstrado no final do filme, com o desfecho ensejado pelo marido, que através de seu ato de "eutanásia estoica" (que pode muito bem ser compreendido enquanto um corajoso e nobre ato de amor), é capaz de dar um fim ao crescente sofrimento vivido pelo casal. Porém, na concepção cristã de mundo, tal como eu a entendo, essa atitude dificilmente poderia ser estimulada, assim como tampouco o suicídio pode ser estimulado... pois trata-se de um ato radical de ruptura com a continuidade do devir, que carrega em si a possibilidade ilimitada, infinita e eterna de continuidade do (e através do) amor. Como bem afirmou o teólogo Paul Tillich em seu ensaio ontológico sobre a coragem: "as ansiedades naturais relativas à culpa e a condenação (expressas pelo sentimento de auto-rejeição do ser) são qualitativamente infinitas, e por terem então um peso ilimitado, não podem ser removidas ou eliminadas por um ato finito de auto-negação ôntica" (espiritual). É isso que torna o desespero algo tão desesperador: dele (do desespero) não se pode mais fugir, pois ele é a consequência final da fuga; nem mesmo através da auto-aniquilação seríamos capazes de nos livrar da culpa ontológica sentida por aquilo que não fomos ou não pudemos fazer! Kierkegaard, por sua vez, defendia que se a alma for realmente imortal, não existe existe qualquer possibilidade de um assassinato espiritual, mas apenas a derrocada do espirito na perda de si mesmo em sua luta e confronto mais difícil: o confronto com o nosso mundo interior.
Destacando que na base da filosofia cristã que segue a tradição de São João, Deus é amor, e assim, Ele é entendido enquanto o único e verdadeiro intermediário das relações de amor (naquele sentido amplo) entre os seres humanos. Nesta perspectiva, antes de amar uma pessoa ou qualquer outra coisa, é necessário entrar em uma relação mais profunda com o amor sobre-natural em-si-mesmo, o amor absoluto ou a Caridade - evitando assim, a tentação promovida pela representação moderna do amor puramente humanista ou mesmo romântico, que no limite e mesmo com a melhor das intenções, infelizmente ainda é uma forma camuflada de egoísmo; e não é necessário ser um gênio da psicologia para observar/constatar que frequentemente o(a) apaixonado(a) relaciona-se mais com a imagem sob a qual ele(a) projeta sua expectativa de idealização sobre a figura do outro, e menos com própria a singularidade do outro em sua alteridade radical. Portanto, sem essa relação intermediária (o terceiro do triângulo, que é o Amor), o amor natural e puramente dualista sucumbe na temporalidade, isto é, não resiste a pressão do tempo; não permanece e não ganha jamais a dimensão da eternidade.
Parece que essa é uma inversão perversa realizada pela modernidade, na qual o Amor é que virou um Deus, e quando isso acontece, nas palavras precisas de C.S. Lewis, "ele se comporta de forma semelhante a um demônio": ou extinguido-se ou revertendo-se em seu oposto: o ódio. Parece que no filme, a solução estoica (estoico no sentido de que: se não existe mais escolha e possibilidade de controle sobre a vida, é possível ainda exercer a escolha e a possibilidade de controle sobre a morte) encontrada fora justamente a auto-aniquilação do casal, tratando-se assim, de uma representação digna de ser exaltada pela poesia moderna, uma vez que, naquele momento de sofrimento incomensurável, o amor entre eles comportava e esgotava todo o sentido possível de suas vidas. Sem ele, não existia mais motivo para permanecer no perecer da dor, do sofrimento, da angústia e da ausência.
E é justamente neste sentido também que as palavras de Santo Agostinho podem ser fielmente compreendidas: a vida jamais será capaz de carregar o seu significado próprio em si mesma, pois a vida é limitada e finita; assim como também o significado ulterior de um livro não pode estar nem em seu início ou em seu meio (nem tampouco em sua breve duração de leitura), mas apenas em seu final: a vida humana também só poderia encontrar o seu sentido/significado último no além, isto é, no pós-morte, no plano da eternidade imutável das essências infinitas - aquelas das quais tanto falava Platão. Quem quiser procurar o sentido/significado transcendente de sua vida na imanência de sua efêmera existência, assim pode fazer o quanto quiser, mas é inevitável que não se encontre nada, pois existe aí uma incongruência lógica; pois do mesmo modo que é uma incongruência lógica querer buscar o sentido de uma estória antes do final da estória, é também uma incongruência lógica querer desvendar o sentido da vida antes do final da vida! Parece realmente que Santo Agostinho já havia se antecipado a este problema no século V e de um modo bem inteligível, já havia também nos alertado sobre o perigo da perda/ausência de sentido para a vida quando se busca o seu significado na duração e na transitoriedade.
Em resumo, apesar de sua aspereza do início ao fim, o filme é um espetáculo! É absolutamente notável a sua capacidade de retratar com maestria e genialidade, as condições gerais de um drama universal que é definitivamente contornado e delimitado pelas circunstâncias culturais contemporâneas.
E é justamente neste sentido também que as palavras de Santo Agostinho podem ser fielmente compreendidas: a vida jamais será capaz de carregar o seu significado próprio em si mesma, pois a vida é limitada e finita; assim como também o significado ulterior de um livro não pode estar nem em seu início ou em seu meio (nem tampouco em sua breve duração de leitura), mas apenas em seu final: a vida humana também só poderia encontrar o seu sentido/significado último no além, isto é, no pós-morte, no plano da eternidade imutável das essências infinitas - aquelas das quais tanto falava Platão. Quem quiser procurar o sentido/significado transcendente de sua vida na imanência de sua efêmera existência, assim pode fazer o quanto quiser, mas é inevitável que não se encontre nada, pois existe aí uma incongruência lógica; pois do mesmo modo que é uma incongruência lógica querer buscar o sentido de uma estória antes do final da estória, é também uma incongruência lógica querer desvendar o sentido da vida antes do final da vida! Parece realmente que Santo Agostinho já havia se antecipado a este problema no século V e de um modo bem inteligível, já havia também nos alertado sobre o perigo da perda/ausência de sentido para a vida quando se busca o seu significado na duração e na transitoriedade.
Em resumo, apesar de sua aspereza do início ao fim, o filme é um espetáculo! É absolutamente notável a sua capacidade de retratar com maestria e genialidade, as condições gerais de um drama universal que é definitivamente contornado e delimitado pelas circunstâncias culturais contemporâneas.
Seriam as pessoas independentes mais solitárias?
Não saberia responder, ao certo, mas me parece que as pessoas mais independentes são aquelas que toleram melhor (menos mal ou talvez com menor sofrimento) a solidão, pois estas valorizam os momentos em que estão sozinhas e não sentem-se incessantemente ameaçadas pelo medo do isolamento. Neste sentido, é meio paradoxal, pois ficar/estar sozinho não significa necessariamente ser solitário.
Por outro lado, as pessoas mais dependentes emocionalmente possuem uma dificuldade terrificante de se encontrar sozinhas e por isso, me parece, que são elas as que verdadeiramente sentem-se (ou são) mais solitárias (isto é: são estas que sentem-se mais carentes e necessitadas de uma atenção constante). Vale destacar que a pessoa dita "independente', apenas assim o é, em função da introjeção em seu interior das figuras modelos pelas quais esta amou e foi amada, de modo que ela se encontra então, justamente, sempre muito bem acompanhada.
Desse modo, penso que quanto maior o sofrimento emocional em função da solidão, mais DEPENDENTE (e não independente) se encontra essa pessoa. Vale lembrar que só existe um único tipo de pessoa absolutamente independente: o louco! Este sim não precisa de mais ninguém, mas eu acho que nem mesmo ele sente-se solitário, pois ele também já não é mais capaz de reconhecer a importância que os outros exercem em sua vida...
terça-feira, 16 de abril de 2013
Coração duro = miolo mole
Existem pessoas que aparentam ser extremamente inteligentes - o que a primeira vista, é de fato algo muito louvável!
Porém, submetendo tais mentes brilhantes a um exame um pouco mais acurado de observação, não raramente, é possível perceber que tal "hipertrofia da inteligência" não é a consequência de um cérebro avantajado e hiperdinâmico em seu processamento complexo de informações (comparado à simplicidade do pensamento de um homem banal); definitivamente não! geralmente, a aparente acuidade espantosa de tal intelecto remete mais diretamente à atrofia do coração - que já se tornou demasiado pequeno para acolher um terno afeto ou um voraz sentimento em sua intensa e delicada forma de expressão.
Neste sentido, como afirmou com muita sabedoria C.S Lewis, de nada adianta se armar com as mais sofisticadas defesas extraídas da racionalidade bruta, pois "quando o coração se torna duro, em questão de tempo o miolo se torna mole".
sábado, 30 de março de 2013
Deus da carnificina (filme)
Deus da carnificina!! O nome não poderia ser mais convincente...
Em minha impressão, o filme é uma crítica feroz e muito contundente da mais atual praga que contamina a sociedade moderna: o discurso politicamente correto.
Em sua essência, tal discurso apenas traveste uma perversa forma de tirania sob a mascara de uma benevolente preocupação social com o bem estar do mundo; fala sério: poucas coisas poderiam ser mais bregas do que a crença na salvação da humanidade através da transformação do mundo!
E é com maestria e delicados lampejos de sensibilidade trágica, que a estória desvela a fina e frágil (eu diria ainda invisível) camada que separa civilização e barbárie... e o quanto a necessidade compulsiva de negar o impulso vital que reside e alimenta o universo interior do homem (para o bem ou para o mal), está no fundamento da "neurose coletiva obsessiva" que é a modernidade.
Roteiro, direção e elenco fortíssimos!!!
quarta-feira, 20 de março de 2013
O tormento de Pascal e uma questão da clínica psicanalítica
Como muito bem observou Pascal com sua peculiar sobriedade analítica: "a maior causa da infelicidade do homem é que ele não sabe como ficar quieto em seu quarto", pois é realmente notório que "ficar se movimento" (perambulando) frenética e ansiosamente "de um lado para o outro, nada mais é do que uma forma de desligarmos a mente de nós mesmos". Admitindo assim (por um pessoal voto pessoal de confiança), que tal assertiva possua algum mérito ao descrever um processo vigente - no entanto, não consciente - no interior do psiquismo humano, considero importante tentar esclarecer aqui o que considero como um "frequente mal-entendido" em relação a essa conhecida meditação pascaliana, uma vez que estou convencido de que Pascal emitiu tal parecer reflexivo dentro de um contexto espiritual filosófico bem específico; sendo sua reflexão, a meu ver, mais uma espécie de convite à introspecção analítico-existencial do que uma apologia do estado de reclusão voluntária (conceito que pretendo analisar mais adiante com o apoio de um texto de D. H. Winnicott) ou mesmo uma legitimação racionalizada de sua melancolia oculta e não tratada - como tive a impressão que Maria Rita Kehl deixou sub-entendido em seu instigante ensaio sobre a depressão na contemporaneidade .
A título dessa contextualização, vale indicar que - de uma forma um tanto estereotipada, eu reconheço - Blaise Pascal foi um pensador cristão-trágico do século XVII - para alguns, inclusive, considerado o precursor do existencialismo cristão (uma vez que ele pensou e escreveu dois séculos ainda antes de Kierkegaard) - que percebeu com aguda clareza que, se um sujeito "se mantém 24 horas" do dia antenado e atento apenas ao que se passar ao seu redor, ele torna-se basicamente incapaz de se voltar para dentro e de descobrir seu Eu interior. Em outras palavras: em seu anseio de captura, reconhecimento e busca da compreensão do mundo externo, ele perde completamente o contato com aquilo que se passa em seu universo interno. Em termos de analogia, tal "resposta neurótica" para os conflitos da existência, se passa como uma operação inversa à solução psicótica, que para evitar a tensão exercida pelo embate contínuo entre realidade externa e realidade interna, rompe com o polo da realidade exterior perdendo-se na dimensão alucinante de seu próprio delírio. A engenhosidade da solução neurótica para tal conflito (se é que se pode dizer assim) consistiria então no corte radical com a realidade interna, sendo o retorno do recalcado acolhido apenas com uma hesitante inquietação que não pode ser assimilada enquanto uma realidade própria (ao passo que não é também radicalmente projetada para o mundo externo e recebida assim como uma impressão totalmente vinda de fora, como ocorrem nas defesas características da paranoia), pois a introspecção e a auto-observação necessárias (indispensáveis) para o trabalho analítico está ausente, impossibilitando o sujeito de se apropriar de seu si-mesmo e sobretudo, o mantendo refém das mais variadas e caprichosas formas de alienação e distração que a cultura lhe é capaz de oferecer quando o seu desejo mais proeminente é o de se esquecer de si. Mas o fato irrevogável que se encontra então no cerne da questão que atormentava Pascal, é que esse entrar em contato com o nosso mundo interno nada a mais é do que descobrir-se um problema... pois esse olhar para dentro tende, inexoravelmente, ao reconhecimento de nossa finitude e de nossa brutal fragilidade enquanto criaturas criadas a partir do nada (afinal, para Pascal, o melhor dos homens ainda não passa de um "caniço pensante", que, contudo, possui a misteriosa capacidade espiritual de abstração e de objetivação da morte enquanto destino comum inexorável).
Dito isto, me pergunto: no que concerne a clínica psicanalítica, qual seria a armadilha sutil que comporta uma das alternativas de interpretação - absolutamente coerente e plausível, diga-se de passagem - dessa genial reflexão Pascaliana (que eu considero mais propriamente uma espécie de análise estendida ao extremo das possibilidades existenciais do homem) quando esta, porém, é realizada fora de seu contexto próprio?
A resposta é relativamente simples: a de que tal reflexão poderia cumprir, em determinados psiquismos, uma função psicopatológica defensiva muito próxima da que Winnicott entendia como sendo um estado interior de reclusão, isto é, um mecanismo tipico de funcionamento mental que basicamente se define por uma busca voluntária (inconsciente) de isolamento e que denota toda uma organização defensiva com expectativas ora paranóides ora neuróticas de persecução (conotação muito semelhante com a percepção emitida por Kehl e que, portanto, neste presente ensaio irei abordá-las conjuntamente).
Podemos aqui, ao partir de tais distinções detalhadamente demarcadas, perceber que estamos diante de dois mecanismos ou formas de funcionamento mental bem diferentes, mas que, no entanto, a um primeiro olhar e uma primeira escuta podem perfeitamente ser confundidos, uma vez que a linha fronteiriça entre ambos é extremamente delicada: de um lado, uma tendência inquisidora existencial analítica com propriedades e funções integradoras da personalidade total; do outro, uma tendência regressiva que visa o rebaixamento/evitamento da tensão promovida pelo encontro humano (que tendo a considerar como o mais verdadeiro e profundo alimento espiritual do homem). Assim, de acordo também com a esplêndida distinção Espinoziana, de um lado é possível ver/escutar um impulso agregador e integrativo livre (pois mantém-se em seu próprio comando), fundamentado no afeto ativo primordial, que é o amor; e finalmente, do outro, observa-se um impulso alienado e escravo de uma compulsão, que é orientado essencialmente pelo medo - o afeto passivo por excelência.
Bem delicada se encontra então a posição do analista diante da ambiguidade de um discurso que pode significar tanto uma coisa quanto outra (ou ainda as duas juntas)... mas quem de fato é seguro o suficiente para afirmar que não é justamente das primeiras faíscas que se produzem as grandes explosões? Ou que não seria das primeiras reticências e dúvidas do espírito que surgem as mais belas e criativas produções sublimatórias concebidas pelo espírito humano?
O que me parece mesmo, é que a resposta para essas perguntas não pode ser adequadamente realizada no decorrer dos processos vitais (uma vez que ela não pertence propriamente nem ao presente nem ao passado) que incidem sobre o desenvolvimento humano, pois ela está vinculada essencialmente ao universo indomável das possibilidades futuras. Como muito bem salientou Kierkegaard, "relacionar-se na expectativa para com a possibilidade do bem, é esperar" (mas o fundamento espiritual que reside na base da esperança é justamente o amor); "enquanto relacionar-se na expectativa para com o mal é temer", e é aqui que as possibilidades vindouras se vinculam mais estritamente com duas macro tendências mutuamente excludentes e seus respectivos sub-desdobramentos no interior do psiquismo humano: (I) a esperança amorosa do acerto, do sentimento de bem-aventurança e do estado de graça e glória acompanhando uma confiança básica no pressuposto de que experimentar a vida "vale à pena"; ou (II) o temor fatalista e desesperado do erro, fundamentado na exacerbação unívoca do vazio e do sentimento de falta gerados pelo fantasma inextirpável (constatador) de que o nosso desamparo primordial e estrutural é a condição sine qua nom e inviolável do destino humano.
Enfim, parece que tal "análise crítica" (apesar da expressão paradoxal) nos remete, em seu final, tão somente ao ponto inicial de nossa discussão: aos processos microscópicos de subjetivação e de construção/modulação permanente de nossa realidade interna, que na espécie humana, uma vez iniciados na primeira infância, mantém-se desafiadoramente seu vigor até o ponto culminante do crescimento e do desenvolvimento psicofísico, isto é, até a morte daquele que é, ou já foi um dia vivo.
domingo, 17 de março de 2013
A perspicácia de William James
O impulso criativo não é um produto da consciência. Ele irrompe na consciência já pronto e os grandes gênios, filósofos e poetas da humanidade sempre "souberam" disso - ao menos ao nível de seus respectivos inconscientes.
Por outro lado, é absolutamente necessário que exista uma consciência atenta (um ego forte - e por quê não dizer também corajoso) para acolher tal impulso, caso contrário, esse impulso se perderá - tal como como ocorre com as inúmeras possibilidades interessantes que se perdem nos desencontros básicos do acaso que permeiam e infestam o nosso cotidiano.
É desse modo que podemos compreender a fragilidade de todo processo criador, assim como também torna-se mais clara a situação aparentemente paradoxal em que observamos que um impulso criativo "nasce morto" (por assim dizer), pois este impulso não acolhido pelo Eu consiste em nada mais do que outra possibilidade perdida.
É justamente aqui que a inteligentíssima observação de William James recebe um profundo significado e vigor, pois é certo que todo "aquele que se recusa a abraçar uma oportunidade única perde o prêmio tão certamente quanto se tivesse tentado e falhado".
sexta-feira, 8 de março de 2013
Um alerta à comunidade "psi"
Calma lá: um objeto só é efetivamente contingente (isto é, contingente de forma plena ou absoluta) no caso do bebê - que não tem escolha, é um todo de carências e se relaciona tão somente com objetos subjetivamente percebidos.
Quando, somando-se a esta primeira noção, observamos que o desenvolvimento psíquico e afetivo envolve um processo de maturação e a criança passa a adquirir então a capacidade de discernir entre o que é realidade interna e o que é realidade externa, além de discernir no âmbito da realidade externa quais são os objetos específicos que são capazes de gerar concretamente algum nível de satisfação - em outras palavras, ela vai aprendendo a se relacionar agora com objetos objetivamente percebidos, uma vez que o ego sintetizador já é uma entidade concreta ao psiquismo -, a contingência vai gradativamente se tornando relativa, assim como também ocorre em relação à sua dependência total no início da vida. É só fazer o teste: de nada adianta dar para uma criança relativamente madura uma chupeta quando o que ela quer é uma mamadeira. Ou mesmo oferecer a mamadeira quando o que ela quer na verdade é um carrinho para brincar.
Neste momento, a mentalidade sagaz (e geralmente muito orgulhosa de suas desilusões) deverá levantar o seguinte questionamento: mas ainda assim o objeto é contingente, pois se ele quer uma chupeta, vale qualquer chupeta ou se ele quer um carrinho, vale qualquer carrinho. Mas veja bem, quem afirma isso é justamente a mente sagaz que se apraz com a ilusão (cínica) de que sabe o que efetivamente satisfaz o desejo peculiar da criança; mas no entanto, tal criança a que a mente sagaz se refere, não é ainda um objeto concreto objetivamente percebido, e sim um objeto subjetivamente percebido fruto de sua imaginação desenfreada - tal como aqueles objetos subjetivos que o bebê se relaciona antes de adquirir sua capacidade de discernimento e reconhecimento sobre uma realidade externa e alheia a si mesmo.
Finalmente, quando observa-se muito crescimento emocional e o desenvolvimento da capacidade de estar só já é de fato uma conquista, os objetos do mundo exterior passam a ser constante e continuamente avaliados no sentido da demanda, do desejo e da vontade (observa-se que aí não podemos mais falar apropriadamente de necessidades da criança), e apenas aí, adentramos no terreno vasto das possibilidades e poderemos então começar a pensar em termos de liberdade ou escolha - e assim, apenas a partir deste momento, é também que a questão do conflito entre os aspectos inconscientes do desejo e a vontade consciente tende a ganhar corpo e veracidade.
Afinal, por mais encantador que seja um bebê, não devemos nos iludir esquecendo-nos que a sua realidade única é a mesma de um escravo (!) - pois a precocidade de seu psiquismo não assimila ainda qualquer divisão entre mundo interno e externo. Como bem sabemos, o bebê não é senhor de si, pois não é capaz de manter-se de pé sozinho sem ajuda de um cuidador, e com o auxílio da psicologia teológica profunda de Kierkegaard, podemos ainda reconhecer que a distância que vai do bebê absurdamente dependente (aquele-que-ainda-não-é) ao ser maduro (relativamente independente, nos termos apropriados de Winnicott) que assume a gerência radical de sua própria singularidade existencial é infinita e que é, finalmente, apenas com a ajuda e a contribuição amorosa de outros seres amorosos que essa jornada de desenvolvimento poderá ser ao longo de uma vida humana satisfatoriamente percorrida.
domingo, 3 de março de 2013
Para viver tem que ter culhão!!!
Não vem que não tem: para bancar um desejo (autêntico), sustentar um sonho ou perseguir um ideal - em suma, para viver - temos que ter aquilo que coloquialmente chamamos de culhão!!! O fato é que desejos, sonhos e ideais não sobrevivem em "banho-maria"; mesmo com todo o zelo no cuidado da água e no controle da temperatura, a ação do tempo tende a ser fatal e muito provavelmente eles todos perecerão!!!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
O trabalho elementar de uma análise
O trabalho de um analista é basicamente o de observar atenta e cuidadosamente o psiquismo humano - partindo sempre de si próprio como base da experiência. E neste sentido, observar o psiquismo humano, então nada mais é do que dar vida e um valor adequado para os pequenos detalhes - que geralmente passam despercebidos - em nosso universo afetivo. Simples assim - ou não!!!
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
O amante da rainha (filme)
Mais um filme charmoso e formidável!
Ele apresenta de uma forma clara e honeste a falência total da espiritualidade moderna a partir do século XVIII em diante.
De um lado, observamos a uma religiosidade completamente caduca, que profere palavras ocas/vazias, sem vigor ou qualquer significado visceral e articulam o nome de Deus em vão, ou melhor, de acordo com suas próprias vaidades, luxúrias e interesses mundanos - leia-se mesquinhos.
De um lado, observamos a uma religiosidade completamente caduca, que profere palavras ocas/vazias, sem vigor ou qualquer significado visceral e articulam o nome de Deus em vão, ou melhor, de acordo com suas próprias vaidades, luxúrias e interesses mundanos - leia-se mesquinhos.
Do outro lado, encontramos o inocente e ingênuo culto Iluminista ao Deus da Razão, além de uma devoção idólatra à ideais absurdamente infantilizados como o anseio à liberdade, igualdade e fraternidade plena entre os seres humanos; acho que quase nada poderia ser mais contrário que isso aos desejos primordiais arraigados no psiquismo do homem... a exaltação entusiasmada da racionalidade pelos Iluministas apenas evidencia que eles compreendiam extremamente mal não apenas a Filosofia Antiga ou a Teologia Clássica, mas também não sabiam nada sobre Psicologia humana.
Mas que a justiça seja feita: é necessário reconhecer no movimento Iluminista, em detrimento de seus problemas e falhas conceituais e práticas, que ele surgiu como uma necessidade imperiosa da época para solucionar conflitos graves perpetuados pela pseudo-religiosidade e a má fé de homens que administravam deformadamente o culto ao sagrado com vistas exclusivas ao domínio do reino material do mundo; eles nem sequer imaginavam que o reino espiritual, morada oficial de Deus (compreendido aqui não apenas como força potencialmente criadora mas também como a representação conceitual mais sofisticada passível de ser concebida - veja bem, eu disse concebida e não produzida e portanto, não meramente ilusória como queria e advogava Freud - pela articulação entre intuição e capacidade de abstração humana), não se localiza no plano do visível no sentido corporal da sensibilidade humana, mas sim no plano invisível do eterno e das essências infinitas, que apenas fraca e remotamente pode ser vislumbradas pelo intelecto ou apreendidas pelo coração da pessoa humana - quando este, é claro, não foi demasiadamente marcado e fragilizado (diríamos talvez, traumatizado) pela dor e a amargura da existência diante de suas mais variadas possibilidades de sofrimento e desamparo.
Tudo isso e mais um pouco, confere ao filme uma grande qualidade de drama que consegue ser fiel às vicissitudes históricas da experiência humana para o bem e para o mal, após o advento polêmico e de certa forma inevitável da modernidade.
Tudo isso e mais um pouco, confere ao filme uma grande qualidade de drama que consegue ser fiel às vicissitudes históricas da experiência humana para o bem e para o mal, após o advento polêmico e de certa forma inevitável da modernidade.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
A delicadeza do amor (filme)
É um filme definitivamente marcante; uma tragicomédia romântica do mais alto nível!!
Trata com maestria as sutilezas da experiência poética (e intraduzível em palavras) de se estar vinculado pelo amor. O triunfo da trama, a meu ver, se deve pela simplicidade estimulante com que retrata o amor (ou as obras e frutos do amor); talvez, esta seja efetivamente a única maneira de se aproximar de uma boa descrição do amor: utilizar-se ou deixar-se dominar pelos mistérios fantásticos da simplicidade; pois o amor em si mesmo, é o simples. Amar nunca é complicado; complicado é estar sempre fora (ou retirar-se) do amor.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Donruanismo: o "sucesso" e o fracasso de um ideal de masculidade
Tenho a impressão de que identifiquei dois desejos da fantasia masculina que são, em essência, mutuamente exclusivos e de um modo geral, eu diria quase que absolutamente inconciliáveis: o primeiro é o desejo (basicamente comum a todo o gênero humano) de perseguir a verdade; o segundo (tipicamente masculino) é o de conquistar as mulheres; quando mais desenvolvido, este último se manifesta no desejo por uma única e específica mulher.
Porém, o conflito reside na baixíssima tolerância feminina em compreender os recônditos sombrios da perfídia masculina. Sempre que possível, elas preferem assim envolver os homens em um véu de ilusão que torna tudo belo, mesmo que o custo disso seja o relacionar-se mais intima e profundamente com as qualidades idealmente projetadas na figura do parceiro do que com aquela própria pessoa humana constituída de pele, carne e osso.
Localiza-se aqui então, um dos mais significativos fatores que contribuem para o "sucesso" do Donruanismo (se é que se pode chamar tal consequência de um comportamento compulsivo de sucesso): nunca contrariar a opinião da "presa" (que neste contexto específico, vale definir que é qualquer mulher que apenas temporariamente será utilizada como objeto para saciar uma necessidade orgânica e interna do corpo masculino); no limite, reconhecemos que o Don Juan não pode obter um verdadeiro sucesso com as mulheres, pois ele nem sequer se relaciona com uma mulher, mas apenas consigo mesmo; no entanto, sua atividade predatória vale-se de uma grande sabedoria: contrariar o pensamento, opinião ou a vaidade feminina é um erro fatal, que produz uma ferida narcísica incomensurável e por este motivo intolerável para o seu psiquismo. Neste ponto, temos de ser justos e honestos: a vaidade masculina existe e também dispõe igualmente de pouca tolerância à frustração; mas no entanto, tenho sérias duvidas se ela (a vaidade masculina) pode efetivamente ser equiparada em termos de proporção e peso com a vaidade feminina.
De fato, raras pessoas estão dispostas a percorrer o tenebroso e recôndito pântano da verdade ou das verdades (em seu sentido mais amplo) sobre a experiência humana e dentre estas, mais raras ainda são as mulheres que estão dispostas e descobrir elementos comuns e verdadeiros da experiência exclusivamente masculina.
E é neste sentido que me parece que na vida de um homem, em um momento ou outro, uma escolha deve ser feita e ela nunca é fácil: ou ele deve-se comprometer com a busca da verdade de sua interioridade e com todos os desdobramentos desta jornada e assim fracassar na arte da "conquista pela conquista" ou ele deve investir seu tempo e energia na tentativa de conquistar as mulheres agradando-as como for possível, nem que para isso tenha de realizar a prostituição de sua interioridade, ideias, e pensamentos abandonando a busca de sua própria verdade; tentar conciliar ambas essas demandas equivale a realizar o impossível!! Como bem disse (mas em outro contexto) Kierkegaard: "Ou isto ou aquilo..."
Concluindo o raciocínio, é claro que um homem é capaz de perseverar no caminho de sua verdade singular articulando-a com os elementos comum da experiência humana e ao mesmo tempo, compartilhar sua experiência e tempo com uma ou mais mulheres com interesses e desejos semelhantes ou recíprocos. Isso é o que eu chamo de um autêntico sucesso masculino, mas ele depende de muitos outros fatores (alguns passionais e outros fortuitos) que agora não vem ao caso refletir; mas uma coisa é certa, no arte da conquista Donruânica ele será um fracasso completo, pois se colocará totalmente fora de tal ideal de masculinidade.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O medo é o sentimento mais democrático da humanidade
De todos os dogmas que eu admito, um dos que (se não o que) eu mais acredito é: o homem é um animal escandalosamente medroso.
E como vivemos em uma época em que todos (ou pelo menos a maioria das pessoas) enchem o peito para falar de Democracia, sejamos justos e honestos: essa máxima universal é perfeitamente válida para as mulheres também! E de forma alguma julgo necessário ser um magistral observador da natureza para dar-se conta de um fato psicológico tão óbvio.
No que se refere à covardia humana, podemos todos ficar tranquilos, pois existe espaço para todo mundo.
No que se refere à covardia humana, podemos todos ficar tranquilos, pois existe espaço para todo mundo.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Além das montanhas (filme)
No dramático e trágico palco da existência humana, somos todos atores. No entanto, ao contrário do teatro artístico, não podemos contar com qualquer orientação de um diretor que, de fora, comande nossas ações. Assumimos nossas escolhas (e não escolhas) por própria conta e risco.
Como diria Pascal: "Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco apenas poderia resultar em outro tipo de loucura". Reconhecendo com Pascal, portanto, justamente a Loucura como o componente elementar da condição humana, espero não cometer um sacrilégio, mas por uma questão de justiça (em minha humilde concepção), acredito que nem mesmo os Deuses, no além, deveriam julgar os homens... dada a precariedade de nossa situação; neste sentido, até mesmo um juízo final seria uma espécie de fraude, dada a falta de empatia e compaixão pelos sofrimentos, incertezas e infortúnios característicos de uma alma que se possa chamar de humana.
Este filme, a meu ver, nada mais é do que uma bela amostra do embate entre a concepção temporal (materialista) e a eterna (espiritual) como tentativas sempre inacabadas e ao mesmo tempo renovadas de dar conta de um conflito intransponível com relação aos problemas de vida e morte.
Vale muito a pena conferir!
quarta-feira, 30 de janeiro de 2013
O problema com o mundo
Honestamente, tenho a impressão de que quando nós olhamos para o mundo e, no entanto, jamais conseguimos ver nele algo de bom ou de belo, talvez, seja mais interessante cessarmos a nossa crítica em relação a ele, e voltarmos o olhar questionando a qualidade de nossa própria visão; decerto, o mais sensato é perceber que, nestes casos, a "falha" (se é que se pode dizer assim) ou a falta de Graça e beleza não tendem a residir no mundo externo, e sim na nossa pobre, frágil e limitada capacidade interior para enxergá-lo.
Não apenas em paralelo, mas sustentando à miséria do mundo externo, apenas pode residir uma miséria mais profunda e mais misteriosa, que é justamente a miséria que - como um fantasma no meio da madrugada - espreita em nosso interior.
Não apenas em paralelo, mas sustentando à miséria do mundo externo, apenas pode residir uma miséria mais profunda e mais misteriosa, que é justamente a miséria que - como um fantasma no meio da madrugada - espreita em nosso interior.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2013
Liberdade ou Escravidão: a tirania do "novo" na paranóia moderna
A novidade é, atualmente, a droga que mais consome e, ao mesmo tempo, é consumida pela cultura pós-moderna. A ansiedade constante que impele ao movimento e o imperativo categórico mercadológico (ambos face da mesma moeda) que indica que deve-se a todo momento viver algo novo não está mais no âmbito das escolhas humanas, pois eles são em verdade, uma de nossas mais secretas compulsões.
Em outras palavras, estamos mais próximos de escravos que precisam utilizar-se do novo como um narcótico para evadir-se das dores da existência, do que homens livres capazes de autonomamente discernir entre os caminhos que levam ao bem ou ao mal - isto é, entre aquilo que conduz no sentido do amadurecimento psíquico ou do infantilismo neurótico.
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