terça-feira, 27 de março de 2012

A Masculinidade no século XXI

      É muito fácil observar que os homens comumente apresentam uma dificuldade adicional (em relação às mulheres) em estabelecer vinculos de intimidade com outrem. Não, necessariamente, isso se deve aos seus (reais) temores de exposição ao risco de represálias externas; geralmente, esta dificuldade está muito mais interligada com o seu medo de virar-se para dentro e não ver mais que um vazio interior.
      De fato, há muito pouco tempo a cultura incentiva a apropriação do universo da subjetividade interior por parte dos homens, mas, por outro lado, existe um fator complicador coadjuvante e relevante: muitas mulheres ainda morrem de medo de homens que se aprofundam nos abismos interiores da alma humana. Essas preferem homens dóceis e de caráter mais objetivo no que se refere ao duro cotidiano da vida. Elas podem até tolerar homens com crise existencial, mas desde que sejam seus amigos, primos, familiares, colegas de trabalho ou pacientes; jamais o seu marido e menos ainda o seu amante. Estes não podem falhar e muito menos falir: eles precisam estar presentes nos momentos menos abstratos, como na hora de assinar o talão de cheques, levar ou buscar para o trabalho, comprar presentes ou bujigangas para a casa, participar da educação dos filhos e praticar a tão desejada relação sexual...
      Se os homens do século XIX e XX, de certa maneira, se nagavam à compartilhar a esfera subjetiva da vida interior relegando-a a um papel feminino, a mulher do final do século XX e início do XXI ainda se encontra ameaçada pela perda desse território - em que ela sempre transitou com maior flexibilidade, elegância e confiança. 
      No entanto, transformações culturais deste tipo são de fato extremamente lentas no contexto histórico e é vâ ilusão imaginar que os homens estão batalhando para conquistar o seu espaço no mundo dos afetos; a maioria deles ainda prefere se degladiar em estádios de futebol; se enterrar no trabalho mecânico com o intuito de garantir a rentabilidade da empresa; ou ainda, afogar as mágoas promiscuamente com mulheres fáceis de consumir, quando não pelo abuso dos mais variados tipos de drogas e mecanismos eficazes de autoalienação. Tudo isso, tendo em mente um objetivo muito simples, que seja: para se esquecer a qualquer custo de sua própria singularidade enquanto criatura (criadora), assim como para evadir-se da busca de significados mais honestos e profundos que podem ainda, de alguma forma, estar comprometidos com o desenvolvimento de um partícipe da universalidade humana!         

segunda-feira, 19 de março de 2012

O coração de uma mulher é inviolável

Não adianta lamentar: por mais que se empenhe, o homem jamais será capaz de se aproximar e tocar o coração de uma mulher... a menos que Ela assim o queira (permita).
Isso tende a ser um duro golpe na psicologia masculina, que em sua fantasia, comumente pensa que detém o poder de escolha sobre as mulheres. Doce ilusão... é óbvio que quem faz a escolha definitiva é sempre a mulher e o coração de uma mulher que já fez a sua escolha é inviolável ! Eu acho que no geral, os homens deveriam abandonar as suas fantasias infantis de onipotência e se preocupar menos em ter que escolher e mais em prestar atenção quando se é o escolhido. Afinal, já tenho dito isso faz um certo tempo: é muito mais divertido ser escolhido do que ser obrigado a ter que escolher!

domingo, 18 de março de 2012

Paixão II

Vamos combinar: não é possível viver uma paixão em doses homeopáticas, pois não existe uma paixão do tipo "light"; paixão que é PAIXÃO é sempre radical: é tudo ou nada!!
E, por favor, não me venham com churumelas... se não for na base da intensidade total, não é paixão; na melhor das hipóteses, estamos tratando de um passatempo mais ou menos barato. 

domingo, 11 de março de 2012

Uma verdade neurótica

      Tudo bem, eu concordo que afirmar que a maioria das pessoas são simplesmente idiotas é uma redução neurótica - porque isso é uma inverdade em gênero, número e grau.
      Mas o fato (igualmente triste), do qual eu não consigo mais escapar em função de minhas constatações empíricas é que um número muito pequeno de pessoas é realmente digno de interesse mais profundo...

Desapaixonar-se

      Ocasionalmente, apaixonar-se pode ser uma experiência terrível, pois com frequência, pode-se não ser correspondido; mas geralmente, ocorre que, desapaixonar-se, ou perder-se do encanto e da atração fantástica que nos impele em direção aquele outro ser humano em específico (não adianta ser outro, tem que ser aquele) é uma experiência de proporção esmagadoramente mais avassaladora - muito similar, inclusive, à experiência "secular religiosa" de cair em desgraça com relação ao divino.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Destino X Livre-arbítrio

      Não acredito na predominância absoluta nem do destino nem do livre-arbítrio. Eu penso, mais precisamente, que em nossas vidas existe uma tensão insolúvel entre o determinismo do destino e o livre-arbítrio individual.
      Talvez parte da confusão observada nos debates sobre este tema, derive da acepção adotada para a palavra destino, pois o mesmo pode se encarado ao menos sob duas perspectivas diferentes.
      Uma seria a mais comum, aquela que concebe o destino como uma necessidade básica resultante de uma inequívoca determinação causal. Ou seja, tudo deriva de um projeto prévio, com um sentido único e irrevogável e o que nos restaria então seria somente a resignação diante do inevitável plano criador. Esta representação pode ser banalmente utilizada para eximir-se da responsabilidade pessoal pela vida (mas ao contrário, tb pode exigir uma alta dose de coragem para aceita-la), projetando no cosmos toda a significação da existência.
      A outra, (que eu considero também interessante e que não obrigatoriamente exclui a primeira), define o destino simplesmente como a lei superior da contigência e do acidente. Neste caso, o que nos atormenta efetivamente não é impossibilidade de mudanças, mas sim a falta de racionalidade e de uma necessidade básica fundamental que oriente os desatinos do destino e da vida. Isto significa que geralmente damos o nome de destino para tudo aquilo que nos antecede e sucede, mas que não controlamos ou desconhecemos.
      Neste sentido, podemos considerar como uma obra do destino (em qualquer uma das duas acepções da palavra) eu ter simplesmente nascido aqui e não na China maoísta (ufa, graças a Deus!! rs). E isso me determina tanto ou mais quanto as escolhas que hoje faço aqui. Eu, por exemplo, se dependesse exclusivamente de meu livre-arbítrio, escolheria viver na Grécia Antiga ou até mesmo na Era Medieval; a desilusão moderna para com a vida me perturba profundamente... Mas aceito a fatalidade inexorável da falta de controle sobre o momento e lugar exato do meu nascimento!
      Conviver com a ansiedade diante das vicissitudes do destino é tão díficil quanto conviver com a ansiedade de ter que tomar decisões e efetuar escolhas, afinal estamos o tempo todo diante do abismo da escuridão, da morte, da insignificação da experiência e da culpa pela nossa imperfeição enquanto criatura. Acho que (seguindo a proposta ontológica de Tillich) só nos resta mesmo a coragem para enfrentar ambos estes fantasmas e seguir adiante de acordo com as nossas mais profundas convicções, crenças e apostas sobre o valor superior que uma vida humana pode efetivamente encarnar e realizar.        

segunda-feira, 5 de março de 2012

Certezas X Incertezas

Acho que sim: no plano espiritual (isto é, simbólico e fundamentalmente teológico) é muito melhor conviver interiormente com uma "certeza incerta" do que com uma "incerteza certa". No limite, uma certeza incerta significa esperança; enquanto uma incerteza certa, invariavelmente, nos conduz ao desespero.

sábado, 3 de março de 2012

Eudaimonia

      Há poucos dias conheci uma pessoa maravilhosa, que me fez lembrar muito do livro do professor Clóvis de Barros Filho, em especial, de seu brilhante capítulo sobre Aristóteles.
      O fato é que ainda existem algumas poucas pessoas, ou alguns poucos encontros humanos, que funcionam como um verdadeiro bálsamo restaurador para a alma - principalmente quando esta se encontra em momentos de tormenta!
      Nestes casos, como diria Emerson, a "fusão das almas" parece nos elevar a um plano superior da existência, bem pertinho do céu, dos Deuses, para o universo suprasensível do amor e subitamente, o abismo desesperador que as vezes nos separam das outras belas almas desaperece de cena; a existência se torna um esplendor de realização e a miséria natural da condição humana se revela pífia diante da beleza da criação, do sorriso e do olhar humano!
      Mas um detalhe é crucial nesta aventura: o olhar humano, capaz verdadeiramente de revitalizar a alma, é fortuito; ele brota do "encontro desinteressado" - ou do "desencontro interessado", se é que assim se pode dizer - entre dois seres humanos distintos, mas que por um relâmpago de tempo, parecem um só. Erich Fromm, dizia que apenas "o amor honesto propicia o paradoxo em que duas pessoas separadas se tornam uma, mas continuam a manter suas distinções e individualidades intocadas".
      Retomando o cerne do pensamento, a ideia muito simples que hoje me veio a mente como um trovão, é que são apenas estes os momentos que fazem uma vida valer a pena!
      Aristóteles defendia como eudaimônica, uma vida que vale a pena ser vivida por ela mesma; não uma vida que simplesmente busca a felicidade como um prêmio e sim uma vida que a detém (na forma de alegria) e assim a experimenta em sua própria plenitude existencial. Todas aquelas atividades que geralmente nos desligam do mundo, que nos absorvem por completo e que não possuem o seu significado no futuro nem no passado, mas sim no presente, naquele momento único que não pode (e nem deve) ser repetido, são atividades que nos conduzem ao estado de eudaimonia, ou seja, de uma sensação de completude que jamais necessita de justificativa, uma vez que ela é um fim em si mesma; jamais um meio para outras conquistas...
      Para Aristóteles, a contemplação seria a atividade eudaimônica por excelência. Para mim, que sou muito menos inteligente que ele, e confio mais no meu coração do que na minha cabeça, uma boa conversa e a simples troca de olhares com um distinto ser humano já são suficientes para tornar a vida uma dádiva digna de mérito por sua própria Graça (para usar um termo caro ao gigante Santo Agostinho)!     
      É cada vez mais raro momentos como este, em especial em uma cultura decadente, empobrecida e mecanizada como a nossa, que robotiza o comportamento das pessoas ao mesmo tempo que esvazia a sensibilidade do espirito para os mais simples, pequenos e importantes momentos da vida - como as trocas humanas, neste caso. Não obstante, enquanto fazemos algo (só com o corpo e não com a alma em integração) e nos afastamos desta própria atividade pensando (ou seria propriamente fugindo?) no passado ou no futuro, estamos literalmente matando o que nos é mais valioso: o tempo finito que nos é concedido para experimentar esse - (geralmente) amargo, mas em contrapartida (muitas vezes) gratificante e magnífico - mundo que nos foi oferecido (e por que não também imposto) para viver.
     Ainda bem que existem pessoas belas e magnânimas, com suas nobres qualidades que apaziguam as dores do viver, pois sem elas, literalmente, eu sinto que estaria desesperadamente perdido na mais angustiante solidão... mas sejamos honestos, as virtudes cardiais do ser humano são aristocráticas, isto é, poucos as entendem e um número ainda menor é capaz de praticá-las; não adianta forçar a barra: coragem, honradez, compaixão, sabedoria, bondade, beleza, respeito, responsabilidade, fé, esperança, amor, cuidado, temperança, justeza e gentileza não podem ser banalmente democratizados (isto é, enfiados goela abaixo em cada indivíduo). Jamais a totalidade das criaturas humanas, condenados como estão às insanidades e o terror da condição humana, poderão ascender a esses mais elevados bens espirituais. Esse é o peso mais brutal da nossa tragédia: a maior parte do sangue derramado apenas serve de adubo para a imensa vala de corpos que é o planeta terra!