quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ressentimento X Entusiasmo

      Se o ressentimento é o produto (negativo) da tensão entre o desejo e a impotência (Scheler), então o entusiasmo é a expressão (positiva) direta da tensão entre o desejo e a potência (tomada enquanto uma possibilidade concreta do vir-a-acontecer).
      Neste sentido, o entusiasmo é o correspondente interior do sentimento que externamente manifesta-se sob a forma de alegria. E esse é o exato motivo pelo qual o ressentido é também um infeliz! Sua tristeza deriva justamente do seu sentimento interior de impotência - uma vez que para este, a possibilidade desde o início já se encontra excluída. Ao contrário, a alegria muitas vezes contagiante do entusiasmo é justamente alegria pelo fato de acolher em si mesma o ilimitado e o infinito em termos irrestritos de possibilidade.
     Mas esta é finalmente a marca característica e elementar de toda e qualquer fé: a perseverança; e não (jamais) a credulidade cega. A credulidade cega é capaz de acreditar em tudo, especialmente naquilo que nunca foi capaz de ver ou mesmo sentir. Já a perseverança, é aquela confiança básica que é também capaz de acreditar em tudo, apesar de nem sempre ver, mas no entanto nunca deixar de sentir.                   

sábado, 11 de maio de 2013

Confissões de um jovem apaixonado (filme)

      Na minha avaliação, um dos melhores filmes de 2013 (apesar de na verdade ser um filme de 2011; 2013 foi tão somente o ano de seu lançamento no cinema brasileiro)!
      Dois pontos a serem enfaticamente destacados:
      I. O filme retrata precisamente o sentimento de vazio interior, desespero e angústia característicos do sujeito moderno; reiterando assim a minha hipótese de que o mito cínico do "Nada transcendente" é uma invenção produzida especificamente pela modernidade, e de que todo o sofrimento neurótico típico de nossa época reflete nada menos (mas também nada mais) do que a falta de elementos simbólicos ou de outros mitos criativos para além do amor romântico, que sejam suficientes para aplacar o terror diante de uma das mais temíveis manifestações psicológicas descobertas - ou seriam geradas? - pelo mundo moderno: a sensação de tédio! até onde pesquisei, não encontrei quaisquer correlatos para o significado de termos como "tédio", "vazio existencial", "angústia diante do nada", e nem sequer de uma "filosofia do ateísmo" no mundo pré-moderno; o que indicaria que estamos diante de fenômenos não necessariamente ontológicos (universais) da condição humana, mas sim de manifestações singulares referentes a um determinado período histórico de nossa evolução - que compreende-se consensualmente como a "Era Moderna".  
      II. Além disso, ele ilustra escandalosamente bem, noções e conceitos fundamentais da teoria Freudiana: em primeiro lugar a noção de trauma psíquico (traição da amante), seguida logo depois da construção aprisionante de uma armadura neurótica enquanto defesa (expressa pela libertinagem); a consequente introversão da libido para o reino interior da fantasia (medo da amada) e finalmente, o resultado mais doloroso em termos de adoecimento psíquico: a perda (parcial ou total) da capacidade de amar (culminando assim no abandono da amada)!
      A estética do período e a sensibilidade aguçada e introspectiva do herói (trágico) me remeteram muito ao drama espetacular de Werther! Ou seja, temos ao mesmo tempo um filme nobre e sensível, além de apaixonadamente intenso e profundo.