segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Psicanálise e a "moral privada"

A ciência psicanalítica foi desenvolvida em situações privadas para atender necessidades particulares de sujeitos singulares. Portanto, seu valor e eficácia se restringe justamente ao ambiente clínico, protegido, onde a moral opera em um quadro reduzido que evidencia modos peculiares de internalização simbólica dos relacionamentos íntimos. Em outros termos, a psicanálise é um método de investigação e tratamento do que poderíamos chamar de "moral privada" e dos adoecimentos possíveis advindos desta. O que uma análise oferece é justamente a possibilidade de uma reorganização pessoal com menos dividendos psíquicos na administração da tensão entre impulso (desejo) e interdição do impulso.
Qualquer tentativa de extrapolar observações clínicas para o contexto do debate político, onde vigora a "moral pública", está então fadada ao fracasso. A epistemologia de uma é insuficiente para análise da outra, e é por isso que "politizar a análise" é tão inadequado quanto "psicologizar a política".
Cônscios disso, muitos psicanalistas optam pelo "alheamento" em relação a esta última. Outros pretendem agarrá-la com um arsenal de instrumentos cegos ao trabalho (realizando inclusive "casamentos" altamente suspeitos entre Freud e outros teóricos subversivos da cultura, como tem sido visto com relativa frequência).
Segundo a dura crítica do analista cultural Philip Rieff, " a sociologia, por exemplo, seria apenas "psicanálise aplicada", de acordo com Freud. Isso tem sido interpretado por muitos psicanalistas como significando que eles não tem necessidade de dominar a sociologia. Psicanalistas escrevem atualmente sobre religião, arte, literatura e outros campos com uma incompetência comovedora.(...) Mas de longe a expressão mais daninha e sintomática dos psicanalistas encapsulados dentro das limitações de sua própria formação profissional é que os analistas são, por essa mesma educação, encorajados a "apegar-se aos dados e hipóteses derivados da observação clínica" e a fazer a partir daí extrapolações sobre temas sociais, antropológicos ou históricos sem estudo sistemático da sociedade do período nem leitura sistemática da literatura relevante. Por essa ignorância, contudo, Freud é parcialmente responsável, como tem sido demonstrado".
Do outro lado do espectro, encontramos assim aqueles adeptos do silêncio sobre a maioria destas questões. Seguindo mais um pouquinho com Rieff: "As dicotomias entre uma existência definitivamente dotada de sentido e a existência sem sentido pertencem às eras das filosofias públicas, das teologias comunais e das discussões políticas sobre o bem comum. Ecologicamente, essa civilização de transição está se tornando um vasto subúrbio, algo como o Estados Unidos, povoado por comunidades divididas com no máximo dois membros, talvez dois membros infantis apanhados no meio de uma guerra particular e nem sempre civil; em relação a essas comunidades íntimas, de duas pessoas, o mundo público está construído como um vasto desconhecido, que aparece em horas inconvenientes e faz exigências consideradas puramente externas, e portanto, sem o poder de evocar uma resposta moral genuína".
Parece realmente que, para o "homem psicologicus" do final do século XX e início do século XXI, a administração pessoal da moral privada, isto é, a arte de se preservar alheio ao exterior e se expandir somente no interior dos relacionamentos íntimos intersubjetivos suplanta qualquer devoção possível a um ideal de ação comunal; o estranhamento radical sobre si suplanta qualquer possibilidade de clareza e confiança na ação política; parece mesmo que o único ideal que um sujeito destes pode alimentar a respeito de si mesmo na vida é que não se foi ingenuamente enganado e jogado para longe de si mesmo, por nada ou ninguém, nem mesmo por aquela "psicose normal", que hoje em dia se convencionou chamar de amor.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Pt x Psdb

O primeiro ponto importante, é que a tradição política brasileira é essencialmente marcada pelo "positivismo" e, portanto, por uma forte presença do Estado como agente regulador da vida das pessoas - seja pelo viés militarista ou tecnocrata. 

http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=42

Isso indica para nós que temos praticamente uma hegemonia da tradição de esquerda no poder há mais de um século no poder. Por que eu digo esquerda? 

Porque a esquerda, em toda a história, sempre foi representada pela centralização do poder político e econômico através de um Estado forte. Ao contrário, a direita política (de viés liberal no sentido clássico da economia) é aquela que aposta suas fichas na descentralização desse poder político e econômico através do estímulo ao mercado neutro. 

Pois bem, deste modo, não faz o menor sentido falar que a ditadura representou o pensamento de direita no Brasil, como muitos assim o fazem. Até mesmo a ideologia nazista, de acordo com os estudiosos mais profícuos sobre o assunto, se baseava justamente nos pressupostos esquerdistas de um Estado redentor. O erro aqui persiste em função de uma confusão terrível: confunde-se qualquer oposicão ao regime de esquerda no poder (que tem seu arquétipo no socialismo, ou seja, controle total da propriedade pelo Estado) com direita política. 

Em parte é isso o que ocorre agora: o PSDB é um partido social-democrata (isto significa mais ou menos uma esquerda um pouco mais madura que a esquerda radical bolchevique revolucionária antiga, e que assim vem sobrevivendo na evolução cultural, tal como numa espécie de darwinismo social) e é totalmente equivocado identificar a social-democracia psdbista como uma ideologia liberal (direita). Ela apenas reconhece em algum nível que a abertura para o mercado é favorável para um desempenho mais positivo na economia. 

Chegando ao ponto, me parece que na intenção, tanto direita quanto esquerda possuem o objetivo de combater a miséria e a pobreza (pelo menos em teoria, hein!, rsrs). O que difere é a forma como isso se dá: para a esquerda atual, através da regulação do mercado pelo Estado, recolhimento progressivamente maior de impostos e redistribuição de renda; para a direita, ao contrário, isso deve ser realizado através da facilitação de acesso e estímulo ao mercado (produção e consumo) e isso obviamente só é possível mediante um menor intervencionismo estatal sobre a economia dos empreendedores (micro ou macro).

Logo, como os petistas já estão desesperados com o perigo da derrota da presidente Dilma para o Aécio, eles começão a apelar histericamente para esses esteriótipos malucos do tipo "retrocesso político", "governo para os pobres", "governo para os ricos"; tudo bobagem! Simplesmente não dá para defender ao mesmo tempo uma política de interesse e proteção dos pobres e protagonizar os maiores escândalos de corrupção da história da nossa república. A corrupção (sequestro e roubo do dinheiro publico) é o maior atentado que se pode fazer contra a vida do miserável, assim como o manter refém de um assistencialismo que estabelece a dependência como padrão de vida é desacreditar completamente na capacidade criativa desse indivíduo pobre de cuidar de si mesmo. 

Por fim, a ficção a que eu me referi lá no começo é o pressuposto marxista de que existiria em curso uma "luta de classes sociais". A noção de classes, não se sustenta em uma sociedade regida pela constituição democrática como a nossa, que pensa e defende sempre aos interesses do indivíduo (lembrando que o indivíduo é sempre a menor das minorias). Faz sentido falar em classes estanques em um sistema de castas como o da Índia, ou no feudalismo antigo... e só! rs

Perdão, mas dado meu envolvimento com tema, não consegui escrever menos... Bjo

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Esquerda X Direita

Não considero a cisão direita/esquerda tão esquizo assim. Na verdade, considero ela apenas uma síntese didática de uma divisão política bem complexa, de fato: de um lado, os que priorizam o espectro da "liberdade", e do outro, o da "igualdade" entre os agentes. Assim, trata-se de uma divisão pedagógica banal para delimitar os diferentes direcionamentos políticos. Não há necessidade alguma de criar uma rivalidade do tipo "fla-flu", mas deve-se convir que os partidos se mobilizam partindo desta ambivalência - pendendo mais para um ou outro lado; não há como incrementar fragmentações aí. 

Você tem razão: a esquerda também comporta divergências em seu interior. Eu simplifiquei demais a questão. Fiz isso, pois tenho comigo que essas tensões internas apenas são relevantes enquanto o projeto político de ascensão ao poder e controle social dos indivíduos (que se dá tanto pela via das regulamentações burocráticas quanto pela expropriação das riquezas materiais) pelo Estado não se concretiza. Na minha leitura, o objetivo do socialismo é justamente esse, eliminar a tensão da diferença. O totalitarismo não é um efeito colateral de um estado forte, e sim sua própria finalidade. 

Historicamente, a liberdade política sempre andou acompanhada da liberdade econômica (mais precisamente: a segunda é condição para a primeira). Todos os sistemas que procuraram reduzir as desigualdades econômicas reduziram concomitantemente as liberdades políticas. Tocqueville escreveu sobre isso antes mesmo do advento século XX. 

Neste sentido, fundir Estado e sociedade civil, tal como preconiza a agenda progressista, corresponde ao assassinato do indivíduo. Qualquer direita que se preste reconhece que o indivíduo é a "menor minoria" existente, e por isso luta pela sua preservação.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Freud: o enigma do conservadorismo revolucionário

Com relação a antipatia que Freud nutria em relação aos EUA, isso não impediu que a cultura americana incorporasse as suas premissas de maneira mais radical do que qualquer outro país da Europa. O individualismo e o ascetismo protestante ofereceram um ambiente altamente fértil para as "boas novas" freudianas - que por mais uma dessas ironias do destino, ele as equiparava a "peste".

Philip Rieff nos dá uma indicação curiosa sobre esse casamento tão "bem sucedido" - apesar de os neofreudianos recusarem seu filho, "o movimento da auto-ajuda", como se fosse um bastardo.

"Com Freud, o individualismo deu um grande passo, talvez o último: um passo na direção daquele sentimento maduro e calmo que provém de nada ter a esconder. O indivíduo não precisa mais manter uma distância segura da massa de seus camaradas. Na análise, desenvolvida como um processo social, ele será treinado de forma a minimizar a sua vulnerabilidade. O homem ocidental aprendeu com Freud a complexidade da técnica da externalização de sua internalidade, e foi finalmente capaz de fazer sair aquela multidão de sombras que insistia em que ele se voltasse para dentro, de modo a viver na luz brilhante e sóbria do presente onde, idealmente, o momento é sempre meio-dia. Isso não é isolamento, pois não mais restringe. Não é também mística da participação, pois a ação participativa nada tem de abnegada. Ao invés disso, a terapia social (da análise) e transforma todos os antigos objetos de compromisso em instrumentos a disposição do próprio processo terapêutico. [...} A ética de tolerância com as imperfeições (próprias e as dos outros) é a mais segura e apropriada para o uso na era do homem psicológico. No entanto, Freud sempre desconfiou dos estilos missionários, pois reconhecia que sua medicina não era salvadora; ele próprio jamais tentou vender sua doutrina, como fizeram muitos de seus sucessores, com ganho indubitável, com aquelas panacéias conhecidas como "auto-realização pessoal" ou "realização das próprias esperanças". Mas afinal, o que se adequaria melhor ao ideal analítico que a prevalecente devoção americana para com o Eu? Esse eu melhorado, é a preocupação última da cultura moderna".

Chegamos assim ao grande paradoxo, Freud, talvez o mais moderno entre os modernos, era um tradicionalista conservador; a psicanálise, no entanto, em termos de ação social prática, operou a verdadeira revolução do ocidente: aquela que separa e afrouxa definitivamente a relação do sujeito com o super-ego cultural, tornando-o livre das restrições pessoais que sustentavam a ética do mundo antigo.  

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Nazismo e Socialismo: irmãos gêmeos

Se, admitirmos com Philip Rieff, que "psicanaliticamente compreendido, o socialismo é o filho do capitalismo, rebelando-se - através de seu culto [idolólatra] da personalidade emancipada - contra um pai ao qual ele teme/deseja se assemelhar bastante", estaremos a apenas um passo de reconhecer que o nazismo é nada menos que o irmão mais próximo e bem sucedido do socialismo. Ambos perseguiam em plenitude noções abstratas como justiça social, liberdade e igualdade, prometendo assim prosperidade a toda humanidade (ao contrário do capitalismo, que apenas "promete" prosperidade aos que a desejam); porém, enquanto o nazismo, em nome da "pureza da raça", borrifava inseticida para baixo; o socialismo, em nome da "miséria de classe" borrifa até hoje para cima. Ambos tem em comum o desejo fascista de um ideal coletivo plenamente harmônico, que elimine a tensão das diferenças no interior da comunidade dos homens. É um erro considera-los como sistemas fracassados em seus interesses políticos: o horror não decorre mais propriamente de suas "falhas" do que de seus "acertos". Ambos levaram o ideal de um governo "democrático" ao extremo de sua idealidade, e isto significa: um governo dirigido totalmente em função dos interesses de uma massa homogênea e unificada. Uma democracia assim tão plena, em que todas as decisões passam pelo crivo da maioria, não é de forma alguma desejável, pois representa a aniquilação constante do singular e do individual. Ao contrário do que muitos ainda pensam, o socialismo e o nazismo foram experiências terríveis e deprimentes não porque tenham sido mal sucedidas em seus projetos, e sim por ter suas expectativas satisfatoriamente realizadas.

sábado, 16 de agosto de 2014

Amor e Narcisismo em Freud e Fromm



Você está parcialmente correto: mais precisamente, Fromm não supõe que existe outro tipo de amor além do neurótico, pois ele nem sequer considera o "amor neurótico" como uma forma de amor (no sentido lato do termo). Antes de mais nada, Fromm é acentuadamente influenciado pelas ideias de Spinosa e, a partir deste, concebe que o amor é sempre uma forma de "afeto ativo", isto é, basicamente uma ação (com finalidade em si mesma) que define a mais alta expressão da "potência do ser", ao contrário dos "afetos passivos", como inveja, ciúmes, irá, ou medo, que são sempre reativos a alguma frustração/decepção/desilusão. Para Spinosa, a grosso modo, amor, liberdade, ação espontânea, e alegria são praticamente sinônimos, pois somente quando amamos agimos a partir do centro ativo mais íntimo de nossa personalidade, expandindo-a (ou seja, aumentando a expressão da nossa potência); por outro lado, os afetos passivos são reações que diminuem a potência do ser, tornando-o reativo, defensivo e impotente, em suma, um escravo de emoções não controladas. Daí se segue que para Fromm, o amor é uma realização ou conquista da maturidade, que somente pode ser alcançada através da superação da orientação narcisista de mundo (aquela que reduz o vasto espectro das experiências à experiência única e singular do próprio eu, utilizando-se invariavelmente dessa solitária referência como "termômetro" ou "balança" para medir, regular, avaliar, julgar todos os aspectos e componentes da realidade externa - o que termina obviamente por distorcê-los). Deste modo a maturidade pressupõe como condição a noção de alteridade, e o amor, concebido enquanto a "única resposta sadia e satisfatória ao problema da existência humana", se desenvolve basicamente pela integração e incorporação dos princípios de cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do, com, sobre e pelo(s) outro(s).

A rigor, não considero nada disso incompatível com a visão de Freud, que em realidade é apenas muito mais modesta e humilde (e sofre também menor influência do humanismo renascentista) que a de Fromm. Todos sabemos que a teoria de Freud não comporta propriamente um ideal ou noção descritiva de saúde psíquica (o que a meu ver é um problema grave!). Na melhor das hipóteses, eu consigo pensar que a "ambição terapêutica" de Freud ou o funcionamento "mais desejável" (se me permitem dizer assim) é o menos rígido e compulsivo, ou seja, aquele comportamento que não é sobredeterminado por elementos inconscientes (sejam eles desejos ou mecanismos intrapsiquicos de interdições). É isso que qualifica a conduta como neurótica, em detrimento de outras posturas mais livres ou menos condicionadas. Neste sentido a "saúde possível" e a maturidade caminham e crescem juntamente com a descoberta e a integração, sempre intermediadas pelo incremento da consciência/razão analítica, destes elementos inconscientes. Isso tudo sob uma perspectiva de "resolução" de demandas a rigor inconciliáveis (em absoluto) provindas do id, do superego cultural e da realidade exterior tomada enquanto natureza selvagem e hostil. Em poucas palavras, flexibilidade/elasticidade mental é a melhor resposta que Freud oferece aos problemas da existência e o que de melhor poderíamos esperar de um ego maduro é que ele seja um bom negociador/conciliador de demandas.

P.s: é notória e significativa a meu ver as similaridades entre o esquema filosófico de Spinosa e a teoria clínica de Winnicott.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Psicanálise e Moral

 Laerte de Paula, sua questão é riquíssima e igualmente a considero fundamental em termos de prática clínica. Demorei a responder pois acho que ela exige muita cautela para ser pensada e apreciada! Não tenho a intenção de respondê-las, mas sim de contribuir de alguma maneira para o exercício da resposta...

No sentido mais clássico de se pensar a questão, acho que a Instituição psicanalítica não pode ser considerada como possuidora de uma doutrina moral. Neste sentido, entendo a moral como uma doutrina que pressupõe invariavelmente uma hierarquia (específica e própria) de valores que orientam as ações de um sujeito no mundo. Em outras palavras, uma Moral afirma que inevitavelmente algumas coisas devem ser consideradas melhores do que outras, e assim toda e qualquer doutrina moral se ocupará de responder que comportamentos e ações podem de fato ser considerados bons em si mesmos, ou maus (ruins) em si mesmos. Estas ações e comportamentos devem ser absolutamente transcendentes, isto é, não podem sofrer desgaste e enferrujar em função da passagem do tempo. Uma ação moral deve então necessariamente ser válida para eu ou você independentemente de estarmos hoje aqui em São Paulo, há dois mil anos na Grécia Antiga ou na Alemanha do século XXV. Por isto, que todos os princípios morais Antigos se apoiavam e adquiriam sua dignidade de alguma ordem ou concepção metafísica. E por isto, o mais correto é pensar não em uma Moral única e absoluta, e sim em amplos sistemas de códigos, constituindo assim uma moral cristã, outra islâmica, hare-krishna, espírita, epicurista, platônica, estóica, iluminista, marxista, enfim, uma multidão infindável de concepções e princípios éticos e morais. (É claro que nem todas se dedicam igualmente em termos de esforço para elaborar sua doutrina, e parece que, como exemplo, só a o moral cristã demorou XVIII séculos para ser "finalizada" e finalmente apresentada em um concílio; imagine quantas vidas e reflexões não passaram por ali...) 

No entanto, "nós modernos" (essa é a característica específica da revolução científica moderna) mandamos a metafísica pra casa do carai...! Não nos apoiamos ou acreditamos nela e o mais frequentemente possível a rejeitamos. É neste contexto que devemos pensar no projeto Freudiano Iluminista de substituir a metafísica pela metapsicologia. Só isso já nos dá muito pano pra manga, mas acho que também nos oferece uma indicação do porque não acredito que a psicanálise ruma em direção a uma doutrinação moral única. 

Talvez, aqui caiba pensar quais são as alternativas à noção de moralidade. Acho que é simples: basicamente nós humanos podemos ser morais (e vivermos acreditando que existe valores absolutos que devem ser perseguidos por si mesmos, tais como a generosidade, justiça, beleza, verdade, liberdade etc), imorais (e vivermos transgredindo e reagindo aos vigentes valores considerados como "bons") ou amorais (e vivermos acreditando que nada pode ser considerado como bom em si mesmo, pois ao afinal, "tanto faz", sendo que o que se opõe à atribuição de valores em termos de sentimento é a indiferença e a descrença em relação a qualquer aposta segura). 

Este terceiro, que é o que nos interessa aqui, penso que constitui o núcleo da postura cética ou cínica (gregas) em relação à moral, e basicamente todo pensamento cientifico moderno (tal como o de Freud) se calca nesta indiferença, pois a neutralidade da pesquisa para um moderno pressupõe que "não se deve atribuir valores para fatos fatos empiricamente comprováveis, uma vez que fatos são os que são, e não devem ser jamais avaliados como louváveis, admiráveis e desejáveis ou condenáveis, repulsivos e evitáveis em si mesmos. 

E o que era a psicanálise instituída inicialmente por Freud se não um método científico de investigação e tratamento dos distúrbios neuróticos? 

É lógico que muita gente aí dissentiu de Freud e fundou sua própria escola (Adler, Jung, Reich, Férenzi, Klein, Winnicott, Lacan etc), mas como tomo aqui como referência a psicanálise Freudiana clássica, acredito que a moral a partir de Freud deve ser pensada nunca (ou menos) como "unidade qualitativa meritória do comportamento" - (a não ser entre os analistas é claro, pois aí sim incidem uma série de "mandamentos" sobre o que é bom ou ruim em termos de interpretação ou manejo clínico: por exemplo, ficar em silêncio, não responder pessoalmente as questões etc) - e sempre (ou mais) como "uma pluralidade fragmentária visando o maior nível de adequação possível diante da tirania da realidade externa". Se o mundo é injusto, caótico e desorganizado em si mesmo, não se deve esperar uma organização moral muito sólida do homem, que é pouco ou nada mais do que um animal transitório e insignificante do ponto de vista cósmico. Daí se segue que compreendo que a avaliação moral da instituição psicanalítica Freudiana seria algo do tipo: "nossa moral é não defender nenhuma moral absoluta, pois todas são relativas e o nosso desafio (o MELHOR a fazer) é conviver pacificamente com a maior infinidade possível de padrões morais reconhecendo que nenhum deles pode ser atestado como verdadeiro ou aceitar mesmo a indiferença radical que recai sobre a questão moral já que nada faz mesmo a menor diferença". Acho que, do ponto de vista epistemológico, a "moral psicanalítica" (não de Freud, que era um Judeu moralista) constitui uma revolução ética sem precedentes na história da nossa civilização ocidental.

É claro que muita água rolou após um século de psicanálise, e me parece que salvaguardo um núcleo inconsciente que atua como um eco do pensamento Freudiano, muitos analistas tem se preocupado com o tema da moral oferecendo-a um tratamento diferenciado, que passa pela criação de uma ética mais geral para o cuidado psicoterápico. Cada vez mais me parece que essa questão caminha mesmo em direção as filiações teóricas mais pessoais de cada analista, de modo que, quando estes pensam na psicanálise como uma "prática moral", eles pensam não no sentido moralizante e pedagógico da coisa, e sim num sentido existencial bem preciso: que é o reconhecimento da importância do(s) outro(s) para a vida do Eu; do impacto das ações deste Eu no mundo e sobre a dinâmica psico afetiva destes outros, agregando e incorporando assim progressivamente noções de alteridade, empatia, cuidado etc. É mais ou menos por aí que compreendo curiosa e interessante afirmação de Symington. 

Bom, prometo que parei... ;)))

domingo, 20 de julho de 2014

O silêncio

Penetrar no silêncio que habita outra pessoa é o que há de mais íntimo em termos de relações humanas: o silêncio é mais profundo do que uma vagina.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O sentido e a perda de sentido na psicose

Fazer "todo sentido" é tão psicótico quanto não fazer "nenhum sentido".
Pretendo não repetir o que já disse anteriormente aqui mesmo neste post, e portanto, seguirei pensando com os seus comentários utilizando-me e estendendo-me sobre os meus pontos de vista:

Sergio Solis Checa, sim ,concordo contigo em seu primeiro ponto, mas com a seguinte ressalva: os recursos diferentes e as desigualdades em relação ao ponto de partida são evidências históricas datadas de milênios - isto é, muito antes da existência de um sistema propriamente capitalista. Este é o núcleo central da mensagem que eu gostaria de comunicar com este post: a mobilidade social é uma conquista da democracia política, já a mobilidade econômica uma conquista (até hoje) exclusiva do sistema capiltalista de produção. Nem o sistema feudal (anterior) ou o sistema socialista (posterior) possibilitaram esta façanha - até por que ambos possuem mais semelhança entre si do que de fato aparentam.

Sobre isso recomendo a leitura (ao menos da introdução) de "A democracia na América", de Alexis de Tocqueville. Segundo minha linha de raciocínio, essas duas conquistam caminham juntas, lado a lado, pois Tocqueville percebeu (antes de Marx) que a liberdade politica acompanha radicalmente a liberdade econômica, ou melhor, a liberdade política é fruto da liberdade econômica, pois a ascensão econômica das sociedades invariavelmente tem se demonstrada associada a maior independência entre os poderes no seio dessa mesma sociedade. As pessoas, o povo ou a população em geral, ascendeu socialmente sobre o antigo regime feudal a partir do momento em que elas obtiveram maior acesso ao "dinheiro" ou aos bens materiais por consequência de trocas - obviamente não absolutamente - "livres" entre "iguais" (mas sim relativamente mais livres e iguais quando comparadas ao rígido e antigo estatuto de nobreza ou plebe, sendo que havia "razões culturais tidas como naturais" muito peculiares que garantiam uma pacifica coexistência entre essas, aí sim, classes radicalmente antagônicas).

Neste ponto Marx pode ter acertado: a economia não apenas interfere quanto mais propriamente define os rumos da política, porém, se ele detectou no capitalismo uma doença (diagnóstico errado, pois como defendi anteriormente, me parece que marx fala sobre capitalismo pensando em feudalismo), receitou um remédio que produziu efeitos colaterais piores que a doença, isto é, a ditadura do proletariado, ou "socialização forçada dos meios de produção mediada pelo Estado", o que dá no mesmo. (não considero que seja o caso aqui de aprofundar nos aspectos da psicologia do indivíduo, mas vale ressaltar que a princípio, o substrato psicológico dos "meios de produção" nunca é uma "ferramenta" e sim uma "ideia" - mais precisamente uma imaginação).

Quanto a taxação maior para os mais ricos, considero uma medida inoportuna, pois ela deve ser maior apenas em termos proporcionais ao seu ganho maior, caso contrário, puniríamos as pessoas simplesmente porque elas obtiveram melhores resultados comparadas as outras, o que é uma loucura!

Agora emendo com as questões do Tiago Montanher, e sigo aqui com uma convicção de base: estamos ambos em consenso em relação à ideia de que a meritocracia funciona melhor partindo de um menor grau de desigualdade de base, apenas discordamos, talvez, do modo como possamos alcançar isso, que eu chamo de "equidade" (pois pensar em "igualdade" aqui é maluquice!). 

Pois bem, defendo simplesmente que devemos aumentar o acesso das pessoas ao dinheiro, de preferência através do trabalho escolhido o mais livremente possível. Como fazer isso? Ronald Reagan nos dá uma preciosa dica: "Acredito que o melhor programa social é o emprego", e é claro!, "bolsas X" podem ser de fato muito bem-vindas para pessoas miseráveis, mas elas não irão leva-las muito adiante em relação a terrificante linha da miséria; já um emprego pode fazer isso. Além do que, a qualidade de qualquer serviço assistencialista prestado pelo Estado deveria ser medida pela quantidade de pessoas que o abandonam e não pelo maior número dentre eles que se torna progressivamente dependente... exatamente como se mede por aqui, quando se diz que o programa é um "sucesso". Assim, as mais variadas "bolsas" que o governo oferece, na verdade, não são mais que serviços que o Estado cobra caro e, em contrapartida, oferece pouco. Afinal, esta é uma das incumbências do Estado: servir a população com serviços custeados pelo recolhimento de impostos. Ele não dá nada, ele apenas cobra quanto quer e depois devolve quanto e como quer. 

Ao final, ele assume então uma função que qualquer empresa poderia oferecer, mas não se preocupa minimamente com a qualidade do que é oferecido. Em suma, o Estado no Brasil é uma empresa ruim e o funcionalismo público como um todo é uma tragédia! e para quem depois poderemos reclamar, se não somente ao Estado? quanto a uma empresa ainda poderíamos acionar o código de defesa do consumidor...

Defendo portanto uma política econômica mais liberal não no sentido de um anarco-capitalismo, mas no sentido da menor intervenção e controle Estatal possível sobre a economia, assim como uma redução significativa na carga tributária das empresas de médio e pequeno porte, de modo a incentivar uma maior proliferação da iniciativa privada autônoma, que em nossa sociedade é enormemente sufocada pelas concessões e trocas de privilégios entre governos e grandes empresas que juntas constituem os mais diversos monopólios. Destaco ainda que uma sociedade liberal opera necessariamente na base do tripé: Constituição Democrática, Estado e Mercado, sendo que o Mercado deve (assim como o Estado) estar submetido a uma ordem constitucional maior, e jamais o contrário, como acontece no socialismo, onde Estado, Mercado e Constituição se fundem (e se confundem) em uma coisa só. O exemplo da Zara deve ser inclusive investigado, pois qualquer forma de trabalho escravo já foi abolida no Brasil desde 1888. Nesse sentido, como é de praxe nas inversões peculiares da cultura brasileira: um liberal (do ponto de vista econômico) está mais para um revolucionário (liberal em pleno sentido) do que para um conservador, pois aqui no Brasil a tradição verdadeiramente conservadora é a tradição do pensamento Estadista ou do Estado "salvador da pátria" - seja pela via dos militares, seja pelas vias tecnocratas de esquerda. 
Ao fim, separei aqui três links interessantes que apreciei recentemente, pois acho que eles refletem e ilustram bem os meus pontos de vista aqui apresentados:

quarta-feira, 2 de julho de 2014

É oito ou oitenta!

Algumas pessoas dizem que não devemos falar sobre política... outras acham que devemos falar somente sobre política... alguns só querem assistir futebol, outros jamais entendem o futebol... alguns não consideram estimulante pensar sobre filosofia , teologia ou religião, sociologia, antropologia ou psicologia e psicanálise... outros se entusiasmam exclusivamente pelas criações artísticas... mas se todos aderirmos radicalmente a qualquer um desses pressupostos (seduz-me dizer restritivos!), correremos um sério risco: o de incorrer no silêncio sepulcral de uma prisão que não comunica mais nada. Pois falar, pensar ou calar sobre a política (gerenciamento das questões públicas que compõe o espaço comum) equivale a pensar, falar ou calar sobre futebol  (atividade que consiste em um conjunto de regras em torno de uma bola) filosofia (que comporta a premissa ou a negação de uma ascese em direção à verdade através de operações do pensamento), teologia ou religião (que reporta sempre a origem primordial que fundamenta e orienta todas as coisas), sociologia (resultante da observação do comportamento individual nas dinâmicas coletivas), antropologia (que oferece uma noção sobre o que é característico e universal no humano), psicologia (que remete a uma percepção do desenvolvimento e organização afetiva e sexual singular entre esses humanos) ou psicanálise (acrescentando à última definição a hipótese de algumas determinações e elementos inconscientes) e artes (um conjunto ilimitado e riquíssimo de retratos externos que moldam um universo interno em erupção). Todas essas coisas estão visceralmente impregnadas umas nas outras e versam umas sobre as outras, de tal maneira que, se abandonarmos uma, abandonaremos todas as outras... assim, ou falamos abertamente e tentamos entender um pouco sobre todas elas, que em conjunto formam o cerne da experiência humana - essa amálgama insolúvel de mistérios que compõe a vida - ou nos calaremos e não falaremos mais sobre nada! É claro que no momento que se fala, se fala em separado de cada uma delas; no entanto, isso de forma alguma significa que as outras não estão todas onipresentes ali... nesse ponto é oito ou oitenta: ou se aceita falar sobre como se enxerga a totalidade da vida ou nos calemos cegos sobre ela.


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Teocracia ou Estado Laico?

Concordo que a separação entre Estado e Religião é e foi vital para o início do mundo moderno. Particularmente, não sou a favor de nenhuma teocracia. Acho que o Estado tem que ser laico mesmo, porém, me incomoda muito a ideia (ou percepção) de que se utilizam muito dessa prerrogativa para se produzir de maneira um tanto velada uma "cataquese" ou militância em prol do ateísmo (ou mais indiretamente do materialismo dialético marxista); sendo este ou aquele tomado então como a "religião oficial" mas não declarada do homem moderno. 

Daí se segue que o apoio da filosofia para se pensar as questões do Estado deve provir de um embate/debate sério entre as diferentes e mais expressivas filosofias sobre o homem e o mundo. Não adianta nada trocar uma ideia antiga por uma filosofia nova somente porque ela se define enquanto filosofia: teremos que ainda ver se essa filosofia é melhor... e a filosofia marxista, por exemplo, não apresenta sequer um só grama de compreensão ou informação que possa ser agregada a noção de família, já que comentávamos sobre isso agora pouco. Pelo contrário, ela repudia a família enquanto instituição - o que eu considero no minimo um retrocesso civilizatório... Além disso, desde Santo agostinho, que ofereceu as bases para a compreensão filosófica do mistério cristão até São Tomas de Aquino, os escolásticos e muitos outros, existem mais de 1500 anos de produção filosófica que deve ser considerada. O negócio não é uma simples imposição dogmática de um milagre ou revelação divina... 

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Porque rejeito a lei da palmada?

1. A família é uma instituição sagrada pela sua própria constituição, dado que o pai e a mãe são duas autoridades naturais para a criança. Já o estado, deve ser considerado como um modelo de autoridade secundário e artificial, dado que, na melhor das hipóteses, é ele um substituto deslocado dessas figuras primárias responsáveis pela apresentação da criança ao mundo. 

2. O lar, é por excelência, o espaço mais favorável para o desenvolvimento criativo e individual da criança. Imagino que está seja uma constatação facilmente observável, uma vez que acredito piamente que tanto eu como você ou qualquer um, sentimo-nos sempre mais livres e à vontade para sermos nós mesmos em casa do que em qualquer outro espaço público. 

É claro que parto aqui de uma definição ideal de lar e de família, mas essa definição não é de forma alguma minha: ela é milenar e seu maior representante na historia foi a Igreja Católica (que diga-se de passagem: é uma instituição que também conta com mais de 1500 anos de assistencialismo aos mais pobres). Alguns círculos psicanaliticos também estão em pleno consenso quanto a importância do lar e da família para o crescimento e desenvolvimento saudável da criança enquanto ser individual. 

Teremos de excluir de nosso ideal, no entanto, o simples conjunto de pessoas que dormem sobre o mesmo teto, mas que estão vinculadas majoritariamente por laços de ódio, culpa, ressentimento, mágoa ou marcados pela perversão destrutiva (sadismo e masoquismo), isto é, marcados pela ausência radical de amor em seu sentido espiritual mais pleno.

O ponto central, portanto, dessa discussão sobre a lei da palmada é o seguinte: estamos vivendo praticamente no auge de um processo de desconstrução do ideal de família enquanto núcleo autônomo, e desviando a autoridade natural dos pais para figuras de especialistas e técnicos a serviço do Estado. Esse processo poderíamos aqui chama-lo a grosso modo de "modernismo". Estamos assim, em relação a educação das crianças, caminhando para uma concentração cada vez maior de poder nas mãos do Estado (que opera através de seus técnicos-fiscais) e substituindo um laço natural por um artificial; em outras palavras, estamos nos afastando cada vez mais de um modelo de autoridade e nos aproximando de um modelo de tirania, dada a onisciência e o pensamento coletivista de massa característico e essencial a formação do estado.

Marx e os delírios da mãe Diná

 Anteriormente, me referi já aos delírios do PT e da esquerda marxista como um todo (isso na medida em que o PT se identifica ou se identificava com a teoria de Marx, mas a impressão honesta que eu tenho agora é que esses esquerdistas ditos mais radicais não suportaram a política de negociações, barganhas e coalisões do PT quando este se infiltrou no poder e para perpetuar a eterna ânsia de revolta, abandonaram o partido e se associaram com alas mais retrógradas do pensamento político moderno. Repetiram assim em ampla e coletiva escala a tragédia de dom quixote, que não aceitava as mudanças de seu tempo, e se refugiaram numa idéia filosófica política delirante do século XIX). Agora acho justo precisar a dimensão deste delírio: trata-se da pressuposição filosófica materialista de que existiria um movimento dialético - leia-se progressivo - da história expresso por uma "luta de classes" em torno de uma suposta expropriação originária do capital. Expropriação esta possibilitada pelo domínio e controle dos meios e instrumentos de produção material da riqueza por parte dos capitalistas e a consequente alienação dos trabalhadores envolvidos no processo de trabalho, (transformação material da natureza). Não obstante, mesmo sem conseguir oferecer nem sequer uma prova material deste processo (dado que ele não é de forma alguma auto evidente e muitas questões geradas por essa tese não conseguiram ser devidamente elucidadas), Marx foi além dessas especulações históricas e se aventurou ainda no terreno das projeções futuras - tal como a mãe Diná: ele predisse que o capitalismo era apenas uma etapa, mas uma etapa necessária desta dialética, e que este deveria ser substituído por um período de socialização dos meios de produção (período chamado de socialismo, ou de DITADURA do proletariado) para depois ainda ser superado finalmente pelo comunismo, ou seja, a mais perfeita e eqüitativa distribuição não só dos meios de produção quanto também das riquezas materiais geradas pelo trabalho humano.

Em suma, o paraíso perdido que o mito cristão oferecia apenas para os homens bons e mesmo assim no pós-morte, a fantástica mitologia marxista (travestida de sociologia da história) prometia para todos (todos os fiéis ao partido, é claro) e logo aqui na terra - olha só que maravilha! 
Marx era tão delirante, mas tão insano, que ele acreditava alá Hegel em uma espécie de soberania determinista da história, e que a materialização de sua profecia era apenas uma questão de tempo e espera; ele alucinou que isso aconteceria com ele ainda vivo e tal como um bebê indefeso ficou esperando até morrer seco e sujo na miséria... 

Daí, para entender essa grande bobagem que beira a perversão e se expressa em termos como "ódio da/a classe média", "elite branca", "sentimentos de raiva contra os pobres que não deveriam progredir materialmente em suas existências" (e todo esse discurso cruel e impiedoso PROJETADO para as políticas que simplesmente não concordam com a base filosófica da esquerda) é só um pulinho: a raiva é um afeto absolutamente natural, e Marx da um foco para ela quando elege o capital (e consequentemente, os capitalistas) como os representantes da injustiça social do mundo (coisa que obviamente o mundo já é por sua própria natureza). O sujeito até então não sabia o que lhe incomodava, mas depois ler Marx ou participar de algumas aulas na universidade ele descobre com a dona Marilena chauí, que a culpa é da "classe média"... A essa altura a vaca já foi pro brejo! Mas se acreditarmos em marx, teremos que acreditar também que nascemos todos com uma dívida, e pior, a dívida é ancestral: algo do tipo, "seu avô colonizou, escravizou e explorou o meu avô, e você me deve o que então era para ser meu... Sendo nada mais do que a uma questão de 'justiça histórica' o meu direito vingativo de retaliação..." 
O raciocínio é típico de primeira série de escola; eis um queixume aí capaz de se estender infinitamente para o passado, com a expectativa de um acerto de contas vingativo no futuro; essa loucura não tem fim! Se acreditarmos em Marx, seremos ou crianças eternamente culpadas pelo mal que produzimos aos trabalhadores, de um lado, ou crianças eternamente vitimizadas e injustiçadas sedentas de vingança, pelo outro... O sistema é todo ele paranóide!

Precisou vir o século o XX, e as ditaduras sangrentas do leste europeu para descobrir que as previsões de Marx estariam absolutamente equivocadas e que o socialismo, ao contrário do que se pressupunha, não se revelou como um modelo econômico auto-suficiente, pois ao contrário do capitalismo (que nada mais é do que um modo de produção em larga escala), o socialismo se mostrou - e se mostra ainda como podemos observar em certos países da América latina - como um modo altamente ineficiente de produção de riquezas para a sociedade. Ele é sim um modelo político, isto é, de domínio de poder sobre os meios de coerção e gerenciamento das riquezas, mas riquezas produzidas invariavelmente as custas da atividade e dos rendimentos capitalistas. Se a cartilha portanto, consiste somente em modos de conquistar e ampliar as medidas de poder, então não existem princípios morais e éticos a serem obedecidos e quando se está lá, não há outra coisa a fazer se não aparelhar cada mais o estado de funções controladoras ou normativas. Neste sentido, os petistas e esquerdistas (e lula é um excelente exemplo dessa vida descuidada) aprenderam bem a lição maquiavélica: os fins justificam os meios e pela causa revolucionária, que segundo essa filosofia encarna o bem absoluto, pode se fazer toda e qualquer coisa para permanecer no poder, que é, afinal, o seu único e limitado objetivo.

"Acredito que o melhor programa social é um emprego". Ronald Reagan

Alguém no âmbito da política, deve sim, pensar, se preocupar, investir e apostar no potencial individual e criativo do seres humanos - assim como o faz de modo radical e acertadamente, a meu ver, a psicanálise. 
Considero que podemos então, como também agentes políticos que somos, ultrapassar essa ideologia coletivista (e por essência, esmagadora de singularidades) dominante na política brasileira atual (especialmente no âmbito federal). Devemos assim, eu acredito, superarmo-nos em relação aos discursos de massa tão redutores das possibilidades individuais e finalmente desmistificar a falsa noção de que "emprego", "mercado", "livre iniciativa" e "propriedade privada" são palavrões ou mesmo novos pecados capitais...

Mas sigo com uma dúvida: essa tendência muito bem apontada por você, sobre uma possível e forçosa regressão coletiva (neurótica) ao estado de dependência dos sujeitos em relação ao Estado patrono, seria expressão de um desejo nostálgico de retorno á dependência tirânica do pai sádico (como nos exemplos de totalitarismo fascista e socialista do século XX), ou da "mãe jacaroa" (para usar a feliz expressão de Lacan sobre as mães devoradoras da subjetividade de seus filhos)???
Honestamente, estou mais inclinado a pensar na segunda hipótese para compreender a hegemonia do pensamento da esquerda totalizante na América Latina...

P.s: não sou de forma alguma absolutamente contra políticas de cunho mais assistencial, pois acho sim que o Estado deve atuar para oferecer condições mínimas ao desenvolvimento de pessoas absolutamente desamparadas. Porém, tenho a péssima impressão de que muitos de nossos governantes estão se apropriando e conduzindo essas políticas de maneira completamente perversa: isto é, com vistas a manutenção eterna da relação de dependência.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

O medo do amor

É equivocado e prematuro achar que as pessoas procuram o amor.
Minha experiência me diz que a maioria delas mais precisamente foge do amor com a mesma voracidade com que um pobre diabo foge da cruz... O amor para estas é algo mais que insuportável! É o risco máximo, é angústia, é a possibilidade do desespero completo pois a sua perda eqüivale a um terror sem fim.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014