O trabalho de um analista é basicamente o de observar atenta e cuidadosamente o psiquismo humano - partindo sempre de si próprio como base da experiência. E neste sentido, observar o psiquismo humano, então nada mais é do que dar vida e um valor adequado para os pequenos detalhes - que geralmente passam despercebidos - em nosso universo afetivo. Simples assim - ou não!!!
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
O amante da rainha (filme)
Mais um filme charmoso e formidável!
Ele apresenta de uma forma clara e honeste a falência total da espiritualidade moderna a partir do século XVIII em diante.
De um lado, observamos a uma religiosidade completamente caduca, que profere palavras ocas/vazias, sem vigor ou qualquer significado visceral e articulam o nome de Deus em vão, ou melhor, de acordo com suas próprias vaidades, luxúrias e interesses mundanos - leia-se mesquinhos.
De um lado, observamos a uma religiosidade completamente caduca, que profere palavras ocas/vazias, sem vigor ou qualquer significado visceral e articulam o nome de Deus em vão, ou melhor, de acordo com suas próprias vaidades, luxúrias e interesses mundanos - leia-se mesquinhos.
Do outro lado, encontramos o inocente e ingênuo culto Iluminista ao Deus da Razão, além de uma devoção idólatra à ideais absurdamente infantilizados como o anseio à liberdade, igualdade e fraternidade plena entre os seres humanos; acho que quase nada poderia ser mais contrário que isso aos desejos primordiais arraigados no psiquismo do homem... a exaltação entusiasmada da racionalidade pelos Iluministas apenas evidencia que eles compreendiam extremamente mal não apenas a Filosofia Antiga ou a Teologia Clássica, mas também não sabiam nada sobre Psicologia humana.
Mas que a justiça seja feita: é necessário reconhecer no movimento Iluminista, em detrimento de seus problemas e falhas conceituais e práticas, que ele surgiu como uma necessidade imperiosa da época para solucionar conflitos graves perpetuados pela pseudo-religiosidade e a má fé de homens que administravam deformadamente o culto ao sagrado com vistas exclusivas ao domínio do reino material do mundo; eles nem sequer imaginavam que o reino espiritual, morada oficial de Deus (compreendido aqui não apenas como força potencialmente criadora mas também como a representação conceitual mais sofisticada passível de ser concebida - veja bem, eu disse concebida e não produzida e portanto, não meramente ilusória como queria e advogava Freud - pela articulação entre intuição e capacidade de abstração humana), não se localiza no plano do visível no sentido corporal da sensibilidade humana, mas sim no plano invisível do eterno e das essências infinitas, que apenas fraca e remotamente pode ser vislumbradas pelo intelecto ou apreendidas pelo coração da pessoa humana - quando este, é claro, não foi demasiadamente marcado e fragilizado (diríamos talvez, traumatizado) pela dor e a amargura da existência diante de suas mais variadas possibilidades de sofrimento e desamparo.
Tudo isso e mais um pouco, confere ao filme uma grande qualidade de drama que consegue ser fiel às vicissitudes históricas da experiência humana para o bem e para o mal, após o advento polêmico e de certa forma inevitável da modernidade.
Tudo isso e mais um pouco, confere ao filme uma grande qualidade de drama que consegue ser fiel às vicissitudes históricas da experiência humana para o bem e para o mal, após o advento polêmico e de certa forma inevitável da modernidade.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
A delicadeza do amor (filme)
É um filme definitivamente marcante; uma tragicomédia romântica do mais alto nível!!
Trata com maestria as sutilezas da experiência poética (e intraduzível em palavras) de se estar vinculado pelo amor. O triunfo da trama, a meu ver, se deve pela simplicidade estimulante com que retrata o amor (ou as obras e frutos do amor); talvez, esta seja efetivamente a única maneira de se aproximar de uma boa descrição do amor: utilizar-se ou deixar-se dominar pelos mistérios fantásticos da simplicidade; pois o amor em si mesmo, é o simples. Amar nunca é complicado; complicado é estar sempre fora (ou retirar-se) do amor.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Donruanismo: o "sucesso" e o fracasso de um ideal de masculidade
Tenho a impressão de que identifiquei dois desejos da fantasia masculina que são, em essência, mutuamente exclusivos e de um modo geral, eu diria quase que absolutamente inconciliáveis: o primeiro é o desejo (basicamente comum a todo o gênero humano) de perseguir a verdade; o segundo (tipicamente masculino) é o de conquistar as mulheres; quando mais desenvolvido, este último se manifesta no desejo por uma única e específica mulher.
Porém, o conflito reside na baixíssima tolerância feminina em compreender os recônditos sombrios da perfídia masculina. Sempre que possível, elas preferem assim envolver os homens em um véu de ilusão que torna tudo belo, mesmo que o custo disso seja o relacionar-se mais intima e profundamente com as qualidades idealmente projetadas na figura do parceiro do que com aquela própria pessoa humana constituída de pele, carne e osso.
Localiza-se aqui então, um dos mais significativos fatores que contribuem para o "sucesso" do Donruanismo (se é que se pode chamar tal consequência de um comportamento compulsivo de sucesso): nunca contrariar a opinião da "presa" (que neste contexto específico, vale definir que é qualquer mulher que apenas temporariamente será utilizada como objeto para saciar uma necessidade orgânica e interna do corpo masculino); no limite, reconhecemos que o Don Juan não pode obter um verdadeiro sucesso com as mulheres, pois ele nem sequer se relaciona com uma mulher, mas apenas consigo mesmo; no entanto, sua atividade predatória vale-se de uma grande sabedoria: contrariar o pensamento, opinião ou a vaidade feminina é um erro fatal, que produz uma ferida narcísica incomensurável e por este motivo intolerável para o seu psiquismo. Neste ponto, temos de ser justos e honestos: a vaidade masculina existe e também dispõe igualmente de pouca tolerância à frustração; mas no entanto, tenho sérias duvidas se ela (a vaidade masculina) pode efetivamente ser equiparada em termos de proporção e peso com a vaidade feminina.
De fato, raras pessoas estão dispostas a percorrer o tenebroso e recôndito pântano da verdade ou das verdades (em seu sentido mais amplo) sobre a experiência humana e dentre estas, mais raras ainda são as mulheres que estão dispostas e descobrir elementos comuns e verdadeiros da experiência exclusivamente masculina.
E é neste sentido que me parece que na vida de um homem, em um momento ou outro, uma escolha deve ser feita e ela nunca é fácil: ou ele deve-se comprometer com a busca da verdade de sua interioridade e com todos os desdobramentos desta jornada e assim fracassar na arte da "conquista pela conquista" ou ele deve investir seu tempo e energia na tentativa de conquistar as mulheres agradando-as como for possível, nem que para isso tenha de realizar a prostituição de sua interioridade, ideias, e pensamentos abandonando a busca de sua própria verdade; tentar conciliar ambas essas demandas equivale a realizar o impossível!! Como bem disse (mas em outro contexto) Kierkegaard: "Ou isto ou aquilo..."
Concluindo o raciocínio, é claro que um homem é capaz de perseverar no caminho de sua verdade singular articulando-a com os elementos comum da experiência humana e ao mesmo tempo, compartilhar sua experiência e tempo com uma ou mais mulheres com interesses e desejos semelhantes ou recíprocos. Isso é o que eu chamo de um autêntico sucesso masculino, mas ele depende de muitos outros fatores (alguns passionais e outros fortuitos) que agora não vem ao caso refletir; mas uma coisa é certa, no arte da conquista Donruânica ele será um fracasso completo, pois se colocará totalmente fora de tal ideal de masculinidade.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013
O medo é o sentimento mais democrático da humanidade
De todos os dogmas que eu admito, um dos que (se não o que) eu mais acredito é: o homem é um animal escandalosamente medroso.
E como vivemos em uma época em que todos (ou pelo menos a maioria das pessoas) enchem o peito para falar de Democracia, sejamos justos e honestos: essa máxima universal é perfeitamente válida para as mulheres também! E de forma alguma julgo necessário ser um magistral observador da natureza para dar-se conta de um fato psicológico tão óbvio.
No que se refere à covardia humana, podemos todos ficar tranquilos, pois existe espaço para todo mundo.
No que se refere à covardia humana, podemos todos ficar tranquilos, pois existe espaço para todo mundo.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Além das montanhas (filme)
No dramático e trágico palco da existência humana, somos todos atores. No entanto, ao contrário do teatro artístico, não podemos contar com qualquer orientação de um diretor que, de fora, comande nossas ações. Assumimos nossas escolhas (e não escolhas) por própria conta e risco.
Como diria Pascal: "Os homens são tão necessariamente loucos que não ser louco apenas poderia resultar em outro tipo de loucura". Reconhecendo com Pascal, portanto, justamente a Loucura como o componente elementar da condição humana, espero não cometer um sacrilégio, mas por uma questão de justiça (em minha humilde concepção), acredito que nem mesmo os Deuses, no além, deveriam julgar os homens... dada a precariedade de nossa situação; neste sentido, até mesmo um juízo final seria uma espécie de fraude, dada a falta de empatia e compaixão pelos sofrimentos, incertezas e infortúnios característicos de uma alma que se possa chamar de humana.
Este filme, a meu ver, nada mais é do que uma bela amostra do embate entre a concepção temporal (materialista) e a eterna (espiritual) como tentativas sempre inacabadas e ao mesmo tempo renovadas de dar conta de um conflito intransponível com relação aos problemas de vida e morte.
Vale muito a pena conferir!
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