quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O verdadeiramente Outro

      O (verdadeiramente) Outro nasce apenas quando reconhecemos que Ele não é um segundo Eu mas o primeiro Tu.

domingo, 4 de novembro de 2012

A emancipação feminina

      E algo inesperado se projeta no horizonte sombrio da modernidade: muitas mulheres emancipadas do século XXI não querem mais saber de compromissos conjugais sérios; enquanto um número cada vez maior de homens aspiram, em vão, pelo amor delas. 
      Entre outras conquistas da mulher pós-moderna, poderíamos então pensar em incluir, a ausência de interesse, cuidado e investimento afetivo em vínculos de longo prazo, o que antigamente elas costumavam chamar de "cachorrada masculina" ou mesmo pura cafajestagem por parte deles...   

Vulgaridade

      Poucas coisas são tão vulgares quanto a forçada tentativa de vender uma (falsa ou artificial) imagem de que se vive uma vida feliz.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

A doutrina de Santo Paulo

       De nada, absolutamente, adianta combater o mal ou o passado... 
      A vida requer movimento, impulso constantemente adiante, em direção ao desenvolvimento, a uma meta, um ideal, um valor, a união e ao amor. O resto é banalidade, simplesmente fuga ou mesmo pura perda de tempo!

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Uma vaga impressão

       Dizem que "a primeira impressão é a que fica", mas não sei se posso concordar...
      Talvez, seja mais correto dizer que a primeira impressão é a que marca, e não a que fica; acho que a impressão que realmente fica é sempre a última, pois a última é justamente aquela que nunca mais se repete.

domingo, 30 de setembro de 2012

Inspirado em Ralph Waldo Emerson

       Fala diretamente a linguagem dos deuses e dos anjos aquele que segue a sua voz interior e fala em direção ao coração dos homens.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Detalhe

      Detalhe: em termos de economia e troca afetiva, estar solitário ou "pegar" todo mundo é basicamente a mesma coisa; afinal, em ambos os casos, nunca se pode contar com alguém.

Verdade X Ilusão

       O passo mais próximo em que podemos nos encontrar em relação à verdade sobre a realidade é a ilusão.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Woody Allen

      Como diria Woody Allen referindo-se às paixões eróticas: "Os relacionamentos amorosos são todos loucos, irracionais e absurdos". No entanto, a verdade mais profunda contida neste pensamento (como muito bem sabia, e discretamente revelou mais tarde Allen) é que os mais loucos (irracionais e absurdos) são justamente aqueles indivíduos que escolhem viver uma vida sem paixão.  

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Os idosos

      Mais do que ninguém, acredito realmente que os idosos sabem valorizar e reconhecer a imensa importância que os outros exercem sobre nossas vidas. No limite, por estarem "teoricamente" mais próximos da morte, eles tendem a perceber com extrema facilidade que longe (ou afastados) da companhia de outros seres humanos de carne e osso, nós todos não passamos de criaturas miseráveis e insignificantes do ponto de vista cósmico.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Redes virtuais e isolamento social: o que é causa e o que é consequência?

      Inicialmente, eu defendia o argumento de que as redes sociais virtuais eram a causa básica da desintegração das relações humanas na sociedade pós-moderna.
      Atualmente, eu revisei o meu ponto de vista, pois me parece agora, que as redes virtuais não podem exprimir em absoluto e isoladamente, o o fator causal e geral da epidêmica fragilidade dos vinculos humanos na cultura contemporânea, por um único motivo: elas (as redes sociais virtuais) são o efeito tardio da desintegração desenfreada dos laços e do convívio humano. Em outras palavras: as pessoas não estão mais isoladas e solitárias em função das redes virtuais. É justamente o contrário: elas estão mais presentes nas redes sociais virtuais porque elas se sentem intimamente mais isoladas e solitárias. A diferença é tenue, mas mesmo assim, penso que é importante considera-la.   

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A psicologia básica do heroísmo

      O herói, ao contrário do homem bruto (ou seja, aquele que não pensa em nada antes de agir) não se pode dar ao luxo de exceder em um pensamento, pois se ele assim o fizer, ele não agirá; ele jamais fará o que deve ser feito.
      Por outro lado, ele se opõe também ao tipo de homem puramente intelectual (aquele que pensa demais e em função de seu exagero, torna-se um inapto que basicamente é incapaz até mesmo de amarrar o cadarço dos sapatos).
      Dessa forma, se me apresenta claro e penso que é aparentemente consensual entre muitos teóricos (geralmente os adeptos das correntes mais pragmáticas) ou literários clássicos que, "pensar em excesso é o mais potente inibidor do agir". De fato, é notável (e ao mesmo tempo espantoso): exagerar no pensamento é um dos mecanismos mais eficazes quando, no íntimo, o que se deseja é evitar uma ação.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Rabbi Nachman

      "Tanto o sujeito fanático quanto o devoto, não possuem o menor poder sobre si próprios, e eles sabem disso; ambos desejam ardentemente o que não lhes pode ser útil, e eles também sabem disso; mas em verdade, o que estes homens exibem em comum é um extremado receio de si mesmos e desse modo, paradoxalmente (tal como insistia Freud), o que eles temem mais vigorosamente é justamente aquilo que eles mais desejam". 

domingo, 24 de junho de 2012

A questão vital para a criança e para o adulto

     Me parece, que a questão vital para uma criança é relativamente simples: "como e o que devo fazer para ser amado??"
     Enquanto no centro da experiência afetiva do adulto (que  é de natureza muito semelhante), penso que encontramos um  reflexo pouco alterado ou um desdobramento da mesma pergunta com o seguinte acréscimo: "como e o que devo fazer para sustentar a posição de ser amado (contando é claro, que ele já chegou lá) e ainda ser capaz de amar outrem??"
     Realmente trata-se de um problema esmagador e não é de se espantar que tantos adultos adoeçam ou sofram de sérias dificuldades por não saber a exata resposta para esta pergunta fundamental do psiquismo e do coração humano.
     Até porque, me arrisco a dizer que este tipo de resposta não existe pronta; ela tem que ser árdua e, de certa forma, penosamente construída por cada um através de sua própria experiência de vida. Trata-se de uma tarefa inalienável!!

A tragédia de Narciso

      A capacidade de um sujeito de se colocar (abstrata e empaticamente) no lugar de outro ser humano é um dos mais importantes indicadores de amadurecimento (saúde psíquica) no desenvolvimento emocional da pessoa humana. 
      Neste ponto, revela-se o fracasso e a patologia dos casos de narcisismo exacerbado: a personalidade "narcísica" é basicamente incapaz de alteridade e até mesmo de qualquer exercício que envolva a compaixão como modalidade de afeto. Em sua imaginação fantástica ela (a personalidade narcísica) realmente acredita que - assim como um espelho reflete sua própria imagem -, todas as outras pessoas deveriam também pensar, agir e sentir do mesmo modo que ela pensa age e sente.
      E é justamente por não tolerar diferenças, que geralmente essa personalidade apresenta dificuldades em estabelecer vinculos e se relacionar com os outros. Quando a régua pela qual se avalia o valor dos outros é o próprio Eu da pessoa, é natural que todo o mundo se revele imperfeito e inadequado; e é por isso que a sabedoria mítica revelou que a tragédia de Narciso ocorreu simplemente pelo fato  de o mesmo "bastar-se a si" mesmo.      

Comunicação

      É impressionante, mas na comunicação humana o desencontro é a norma, enquanto o entendimento mútuo é uma rara excessão.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Shakespeare sabia disso

      A felicidade possui claramente um começo, um meio e um fim. O sofrimento, não. Enquanto a primeira atinge o seu apogeu, o segundo é ilimitado; sempre existe a possibilidade de sofrer mais um pouquinho... e Shakespeare sabia disso...

sábado, 16 de junho de 2012

O pensamento é imortal

      Nem mesmo um punhal ou uma bala de canhão é capaz de matar um pensamento. Se a eternidade existe, apenas eles (nossos pensamentos) a conhecem.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

É triste (revisado)

      É triste, mas em determinados casos, a observação clínica atesta que algo sucede a um sujeito (possivelmente da ordem de um trauma), que o panorama "lógico" e saudável de sua corrente de afetos se inverte: a partir daí, o mesmo, estranha e compulsivamente, passa a temer mais ser rejeitado do que desejar ser amado.

É triste

      É triste, mas exageradas vezes, parece que o nosso coraçãozinho (o meu em especial) teme mais ser rejeitado do que deseja ser amado.
      Fazer o quê??
      Ter paciência...

terça-feira, 12 de junho de 2012

Quando os meios justificam os fins?

      Os meios jamais podem justificar os fins, por um simples motivo: sempre e em qualquer lugar, a única coisa que torna possível a justificação de um fim - tanto quanto de um meio - é um princípio. Portanto, todo aquele que equivocadamente julga que seus meios podem justificar seus fins, está completamente perdido. Certamente, ele não está em condição alguma de estabelecer qualquer direção para sua vida, pois ele não é capaz nem ao menos sequer, de saber aonde está.

domingo, 10 de junho de 2012

Pergunta do dia

      Como é possível demonstrar ou transmitir aos outros segurança e autoconfiança quando, no íntimo, nos sentimos inseguros e não confiantes?

domingo, 3 de junho de 2012

Zygmunt Bauman e o diagnóstico da pós-modernidade


      Eis o diagnóstico (à primeira vista trágico) emitido pelo sociólogo Zygmunt Bauman com relação ao mal-estar atualmente vivido pelos homens e mulheres do século XXI: "nós não encontramos ainda um equilíbrio entre as duas formas básicas de ser e estar no mundo: a liberdade e a segurança".
      Isso significa que, geralmente, quando estamos livres nos sentimos inseguros; e, ao inverso, quando estamos seguros nos sentimos prisioneiros.
Daí decorrem duas conclusões básicas:
1- Parece que uma solução para o desequilíbrio psicológico entre os sentimentos de liberdade e segurança é algo da ordem do impossível;
2- Como não possuímos qualquer certeza absoluta com relação a este problema, não podemos (e nem devemos) desistir de procurar alguma solução.
       Agora eu pergunto: esse "senhorzinho" é ou não é o máximo?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Escravos

      Hoje eu cheguei a uma constatação muito dura. Eu simplesmente percebi que, no fundo, nós somos todos escravos miseráveis daquilo que os nossos limitados olhos são capazes de enxergar, assim como daquilo que os nossos precários ouvidos são capazes de ouvir e que os nossos parcos sentidos são capazes de perceber e sentir.
      Finalmente, reconheço (com resignação) que somos todos e cada um de nós escravos também daquilo que apenas a nossa boca e mais nenhuma boca é capaz de falar.    

domingo, 27 de maio de 2012

A delicadeza do amor (filme)

      Este filme é realmente maravilhoso!! Uma autêntica comédia romântica... poderia talvez, paradoxalmente, ser bem resumido também como um belo exemplo de "tragédia otimista".  

O sentido da experiência

      É notável que a experiência se chama experiência justamente pelo fato de que ela não pode simplesmente ser transmitida sob a forma de um conhecimento abstrato. Não! A experiência inevitavelmente tem que ser experienciada para ganhar o seu devido sentido. Mais cedo ou mais tarde ela tem ou terá que ser vivida e, é por isso que, no limite, fugir da experiência equivale a fugir da vida.

domingo, 20 de maio de 2012

Pergunta simples

      Se fosse possível, de fato, encontrar um grande amor a cada esquina, qual é o valor que ele teria?

Agressão X Reparação

      Tão importante quanto reconhecer a nossa própria capacidade inata de agressão (e, portanto, de destruição) é importante também reconhecer a nossa própria capacidade "apreendida" de (cuidado e) reparação.

terça-feira, 8 de maio de 2012

O paradoxo existencialista

      De fato, os filósofos e analistas Kierkegaardianos estavam (e ainda estão) cobertos de razão: a liberdade para se fazer tudo, em essência, significa angústia, isto é, uma possibilidade real e exasperante de se fazer nada. Como muito bem afirmou Otto Rank: "nós criamos com a liberdade a nossa prisão", pois é inevitável: a liberdade radical aniquila a menifestação efetiva do ser livre; a liberdade, uma vez conseguida se autoaniquila logo em seguida. E isso dói. Dói demais!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

O que é psicanálise?

      Eu não sei, mas arrisco aqui um palpite que resume a minha mais recente e breve impressão particular sobre esse dispositivo ao mesmo tempo analítico e de certo modo também terapêutico:
       "A psicanálise é uma forma específica de relação dual que pretende liberar um sujeito de suas restritivas compulsões neuróticas (que em um primeiro momento, ofereceram uma espécie de proteção, alívio e defesa contra os males e dores do mundo, mas subsequentemente converteram-se em uma espécie de armadilha corrosiva à própria estrutura de seu caráter, restringindo suas possibilidades de ser e estar no mundo - com suas alegrias e tristezas inerentes - a uma organização psíquica e existencial demasiado rigída) que como consequência geral, conduz o indivíduo a uma atrofia da personalidade criativa (aquela que reside ao menos potencialmente no interior de cada ser humano singular) e que é, portanto, comum à espécie humana".

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A problemática "de um ponto de vista"

      Nunca é muito difícil demonstrar quando um ponto de vista é ou está errado. A dificuldade real reside sempre quando se procura apresentar um ponto de vista que seja ou esteja correto.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Vênus Negra

      Acabo de assistir Vênus Negra. O filme possui duas características essenciais que merecem ser marcadas:
1- Trata-se de uma espécie minuciosa de arquitetura do sadismo e das perversões humanas. A dissecação da dor, do sofrimento, da humilhação e da miséria atingem praticamente o ápice - se é que é possível falar em limite máximo sobre estas questões elementares da existência - na apresentação da estória dessa pobre criatura retirada da África para entreter a decadente nobreza Européia do século XIX.
2- Apresenta ainda de forma didática o caráter essencialmente amoral que fundamenta basicamente toda a espistemologia da ciência moderna. Afinal, já faz tempo que não existem mais limites éticos claramente delimitados sobre o que se pode e o que não se deve fazer em nome do progresso científico.
      Resumindo: O filme é uma verdadeira paulada na cabeça daqueles que ainda alimentam grandes ilusões (positivas) sobre o significado da palavra humanidade.

A classe média é terrível!

      O pensamento típico (quase hegemônico) da classe média é terrível: eles criticam e desvalorizam grosseiramente o trabalho a polícia, mas ao mesmo tempo, não abrem mão de um pingo da mordomia adquirida pela manutenção (mesmo que sempre vulnerável) da ordem estabelecida pela lei. Como dizia Moisés: "Sem lei não há liberdade!" E é óbvio demais que sem instituições como a polícia para sancionar a perversão e o sadismo dos indivíduos não há possibilidade de usufruto de nenhum dos ganhos adquiridos pela vida civilizada e coletiva. 
      No fundo, acho mesmo que trata-se de um bando de hipócritas covardes que pensam que o único valor a ser defendido na vida é o direito privado de alienar-se nas futilidades proporcionadas pelo estilo de vida moderno, como por exemplo: fazer compras de forma frenética, navegar o dia inteiro na internet, assistir palestras "éticas" sobre desenvolvimento sustentável ou documentários "cult" sobre a importância da diversidade cultural, a história da arte, a luta de classes ou as novidades da física quântica. Pior ainda (e essa é simplesmente de matar) é apenas esperar para "encher a cara" de cerveja e churrasco nos dias de futebol... sem falar naqueles que apenas defendem o seu direito inalienável de fumar maconha... 
      Incrível! Até parece que a único tipo de "lei" que se admira e respeita atualmente é a da vulgaridade!
      Mas a concepção de que a polícia então é execrável e necessariamente corrupta é totalmente falsa, pois é justamente a presença da polícia que possibilita a diversão e as festinhas nos finais de semana...
      De qualquer jeito: o fato é que todo mundo diz que adora e aspira a paz. Mas a verdade psicológica profunda que se oculta por detrás deste fato, é que apenas um número diminuto de pessoas possui a dose de coragem necessária para enfrentar as guerras que são necessárias - leia-se indispensáveis - para a conquista e o desfrute relativo da paz - entendendo a palavra paz aqui em seu duplo sentido: (I) interior (isto é, a paz consigo mesmo) e (II) exterior (que significa paz nas tempestuosas relações com os outros seres humanos).

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Uma importante lição do Sr Freud

      Hoje aprendi uma importantíssima lição do Sr Freud: Com extrema frequência, os neuróticos se encontram de tal maneira encapsulados e aprisionados em seu próprio mundo mental (isto é, em suas mais íntimas fantasias e pensamentos) que, basicamente, já se tornaram incapazes de reconhecer a importância dos outros seres humanos em sua vida.
      Em suma, são eles no ápice de sua patologia emocional estupidamente ineptos e impotentes na arte de amar.     

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A aposta de Pascal

      Para aqueles que não tiveram a oportunidade de conhecer a famosa argumentação da aposta de Pascal, terei aqui o prazer de reconstrui-la livremente em sua essência.
      Porém, antes de mais nada, vale a pena comentar que Blaise Pascal nasceu e viveu na França em meados do século XVII e foi, entre muitas outras coisas, um matemático brilhante; ao mesmo tempo, consagrou-se como um dos maiores filósofos apologéticos do cristianismo primitivo. Além disso, foi o autor da célebre passagem incessantemente revisitada na literatura mundial: "O coração tem suas próprias razões que, no entanto, nossa própria razão desconhece".
      A bem da brevidade, Pascal levantou a seguinte hipótese: Digamos que entre Deus e você está havendo um jogo. As possibilidades de sucesso (salvação) e fracasso (danação) neste jogo estão igualmente distribuídas entre 4 diferentes alternativas de aposta, sendo que podemos supôr e apresenta-las da seguinte maneira:
1Voce aposta que Deus existe, mas Ele não existe.
      Neste caso, voce entrega a sua vida em devoção a Deus e de certa maneira a perde, pois se ele não existe também não existirá recompensa pela sua entrega. Contudo, Pascal alega que a vida humana não deve ser alvo de excessiva estima (pois não é algo tão valioso quanto parece); de fato, em uma perspectiva cosmológica, uma vida humana vale tão pouco quanto a de uma formiga ou de uma lagartixa. Mais do que isso: em grande parte do tempo elas são um misto de dor, sofrimento, angústia e desespero ilimitados, dada a nossa brutal insegurança e ignorância diante dos mistérios da existência e pela condição de miséria e fragilidade diante da certeza inexorável e absoluta de nossa própria morte.
2- Voce pode assim apostar que Deus não existe e Ele realmente não existe.
      Agora sim, a primeira vista (de uma análise superficial), parece existir algum tipo de ganho real, afinal, você também não perdeu nada de extraordinário, e se você for ainda uma pessoa potencialmente otimista e feliz, isso significa que você ganhou alguns anos ou décadas de diversão, prazer e distração. Por outro lado, em grande parte, em função de sua vaidade (que te faz julgar a si mesmo como uma pessoa muito interessante e importante) é possível que não tenha conseguido construir nada que seja mais profundo, isto é, nada que vá além de acumular um número enorme de passatempos baratos e diversões passageiras... O fato é que é praticamente impossível contruir algo absolutamente sublime sobre uma base tão efêmera e imediata quanto uma vida humana (esse é um privilégio de uma minoria, isto é, dos gênios), pois digamos que você tenha vivido 40, 50, 80 ou até mesmo 90 anos: bela porcaria! Qual poderia ser o significado e a relevância disso no plano da eternidade? Nenhuma (ou uma ínfima mixaria)! "Tão rápido quanto tu vistes do pó, ao pó tu voltarás", já dizia o antigo testamento.
3- Voce pode então apostar que Deus existe e Ele realmente existe.
      Agora sim, somadas todas as possibilidades envolvidas, o seu ganho é incomensurável - assim como a perda humana ao momento de seu nascimento também foi uma perda incomensurável (pois no mito cristão não se deve esquecer por nenhum momento que se foi um dia expulso de um paraíso). Voce pode até se lamentar pelo fato de ter se divertido menos (ou pouco) e que em muitos momentos a renúncia e a reclusão diante do desejo e da tentação, pareceram um custo demasiado alto. Mas para um mortal, nenhum preço é demasiado alto diante da beatude eterna, isto é, da graça de ter sido a ti reservada o privilégio de conhecer a vida e a benção de retornar ao reino dos céus - ao lado do seu criador e possivelmente,  de muitas pessoas queridas. O descompasso estrutural da ambivalência entre finitude e infinitude, morte e imortalidade, efêmero e eterno simplesmente desapereceu e, partir deste momento, apenas resta o conforto do descanso e a serenidade contínua da paz!
4- Por último, voce pode ainda apostar que Deus não existe, mas Ele existe.
      Aí você se deu extremamente mal meu colega! Infelizmente, você também irá conhecer a eternidade, mas com o desprazer de queimar para todo o sempre no fogo do inferno; sem possibilidades de reclusão, pois agora, não existe mais qualquer tribunal humano - e menos ainda advogados - para que você possa apelar para a revogação da sua sentença. Apenas lhe resta ser definitivamente consumido pelo pavor diante da escolha errada!
      Bom, segue-se daí, com certa clareza, as duas conclusões elementares de Pascal:
1- O atéismo não compensa em hipótese alguma. Trata-se basicamente de uma escolha demente, pois é preciso estar mentalmente prejudicado para apostar todas as próprias fichas na inexistência do criador (já que no limite, reconhecemos que somos todos criaturas, ou seja, em dado momento fomos criados, mas jamais podemos nos conceber como nossos próprios criadores).
2- Avaliando a relação "custo-benefício", então apenas vale a pena apostar na possibilidade da existência de Deus, pois o custo pago (a nossa frágil vida material) é muito baixo quando comparado com a possibilidade de ganho (a salvação e a beatude eterna da alma individual).
      Daí decorre a profundidade da análise psicológica de Pascal sobre os limites, a grandeza e a miséria da condição humana. É claro que uma relação religiosa qualquer entre um sujeito e a fé apenas pode ser assim reduzida (a um calculo tão instrumental) de uma forma um tanto cômica e através de um tom de brincadeira e descontração. Penso, sinceramente, que nenhuma pessoa séria seria capaz de alterar o rumo de sua vida (no sentido de suas apostas) apenas baseada em um argumento deste tipo, pois acho que isso soaria aos olhos do próprio Deus como um investimento demasiado egoísta, mesquinho e interesseiro (talvez, somente por este motivo, tal comportamento já deveria ser considerado indigno do merecimento de tal bem, prêmio ou recompensa concedida pela divindade).
     De qualquer maneira, considero o raciocínio justo e vale como um exercício interessante para qualquer reflexão filosófica ou psicológica sobre os infindáveis e constantes problemas colocados à subjetividade humana pela questões mais profundas de ordem metafísica.         

domingo, 8 de abril de 2012

A essência do espírito capitalista

      A essência do espírito que alimenta a indústria e o mercado capitalista não é a riqueza, e sim, a pobreza!
      Afinal, o que mais pode impelir a ambição de uma pessoa a querer acumular cada vez mais um número maior de exemplares de algo (como dinheiro, bens, propriedade, negócios, ações etc) senão o sentimento íntimo e mesquinho que indica que nunca se possui o bastante (ou o suficiente)?
      É por isso que tantos sujeitos supostamente ricos podem ser perfeitamente colocados na conta dos espiritualmente miseráveis... e é também, neste sentido, que as palavras do professor Gretz devem ser corretamente interpretadas, quando o mesmo disse que: "Rico não é o que mais tem, mas aquele que menos precisa".     

terça-feira, 3 de abril de 2012

Matrimônio: resultado do Amor ou do Autosacrifício?

     Enganam-se redondamente, aqueles que pensam que a base do matrimônio (isto é, aquilo que sustenta qualquer tipo de relacionamento conjugal monogâmico do tipo casamento ou até mesmo um namoro sério) é o amor, porque não é! Na raiz profunda da expressão do amor, o que encontramos invariavelmente é uma porção de abnegação do ser, sendo, portanto, que aquilo que oferece real solidez a qualquer relacionamento deste tipo é, e sempre será o sacrifício (ou mais precisamente o autosacríficio).
     Como pode ser incansavelmente observado e atestado no cotidiano, um relacionamento é capaz de sobreviver e se arrastar por anos a fio sem sequer contar com “uma só gota de amor”, mas não pode ele, igualmente, suportar nem sequer um dia sem uma dose considerável e generosa de autosacríficio (pois aqui, o sacrifício é anterior e até certo ponto, uma pré-condição para a manifestação tardia do amor).
     Esse é o motivo pelo qual (considerando dogmaticamente a psicologia feminina), uma mulher quase nunca valoriza o que um homem faz por ela mais do que ela valoriza o que ele deixou de fazer para fazer o que ele fez por ela. Em suma, conta muito mais o autosacríficio pessoal do que a benevolente generosidade da vontade...
     De fato, e isso muitas pessoas sabem, o que mais valoriza a relação amorosa é a renúncia. Renúncia, que por sua vez é ambígua e pode envolver por um lado, a esfera do pulsional (desejos) e por outro, a esfera do ideal (sonhos). É neste sentido profundo que a expressão da personagem de Woody Allen deve ser compreendida, quando afirma que "o casamento é a morte da esperança".
     Até aí tudo simples e fácil e de entender. O problema é que cada renúncia tem um peso e traz consigo uma marca, que inúmeras vezes é paga na dolorosa moeda da neurose, da insegurança patológica, do ciúmes e da traição (que por sua vez, também é ambígua, pois pode envolver tanto o autoengano quanto o engano do parceiro).
      Se pudessemos resgatar, esta seria então a base pragmática mais elementar do racíocinio infantil: "Se ele não deixou de fazer algo importante para ficar (ou fazer algo) comigo (para mim), ele não me ama". Freud já havia alertado que "a demanda do amor infantil é absoluta, pois uma criança, geralmente não se contenta com menos do que tudo". Mas uma hora é preciso amadurecer e aprender que o amor é algo maior do que toda essa mesquinharia insensata e nesse ponto, não apenas as mulheres como também um grande número de homens precisa compreender que o autosacríficio até pode ser considerado uma forma de expressão do amor, mas que de modo algum, é a única.    

terça-feira, 27 de março de 2012

A Masculinidade no século XXI

      É muito fácil observar que os homens comumente apresentam uma dificuldade adicional (em relação às mulheres) em estabelecer vinculos de intimidade com outrem. Não, necessariamente, isso se deve aos seus (reais) temores de exposição ao risco de represálias externas; geralmente, esta dificuldade está muito mais interligada com o seu medo de virar-se para dentro e não ver mais que um vazio interior.
      De fato, há muito pouco tempo a cultura incentiva a apropriação do universo da subjetividade interior por parte dos homens, mas, por outro lado, existe um fator complicador coadjuvante e relevante: muitas mulheres ainda morrem de medo de homens que se aprofundam nos abismos interiores da alma humana. Essas preferem homens dóceis e de caráter mais objetivo no que se refere ao duro cotidiano da vida. Elas podem até tolerar homens com crise existencial, mas desde que sejam seus amigos, primos, familiares, colegas de trabalho ou pacientes; jamais o seu marido e menos ainda o seu amante. Estes não podem falhar e muito menos falir: eles precisam estar presentes nos momentos menos abstratos, como na hora de assinar o talão de cheques, levar ou buscar para o trabalho, comprar presentes ou bujigangas para a casa, participar da educação dos filhos e praticar a tão desejada relação sexual...
      Se os homens do século XIX e XX, de certa maneira, se nagavam à compartilhar a esfera subjetiva da vida interior relegando-a a um papel feminino, a mulher do final do século XX e início do XXI ainda se encontra ameaçada pela perda desse território - em que ela sempre transitou com maior flexibilidade, elegância e confiança. 
      No entanto, transformações culturais deste tipo são de fato extremamente lentas no contexto histórico e é vâ ilusão imaginar que os homens estão batalhando para conquistar o seu espaço no mundo dos afetos; a maioria deles ainda prefere se degladiar em estádios de futebol; se enterrar no trabalho mecânico com o intuito de garantir a rentabilidade da empresa; ou ainda, afogar as mágoas promiscuamente com mulheres fáceis de consumir, quando não pelo abuso dos mais variados tipos de drogas e mecanismos eficazes de autoalienação. Tudo isso, tendo em mente um objetivo muito simples, que seja: para se esquecer a qualquer custo de sua própria singularidade enquanto criatura (criadora), assim como para evadir-se da busca de significados mais honestos e profundos que podem ainda, de alguma forma, estar comprometidos com o desenvolvimento de um partícipe da universalidade humana!         

segunda-feira, 19 de março de 2012

O coração de uma mulher é inviolável

Não adianta lamentar: por mais que se empenhe, o homem jamais será capaz de se aproximar e tocar o coração de uma mulher... a menos que Ela assim o queira (permita).
Isso tende a ser um duro golpe na psicologia masculina, que em sua fantasia, comumente pensa que detém o poder de escolha sobre as mulheres. Doce ilusão... é óbvio que quem faz a escolha definitiva é sempre a mulher e o coração de uma mulher que já fez a sua escolha é inviolável ! Eu acho que no geral, os homens deveriam abandonar as suas fantasias infantis de onipotência e se preocupar menos em ter que escolher e mais em prestar atenção quando se é o escolhido. Afinal, já tenho dito isso faz um certo tempo: é muito mais divertido ser escolhido do que ser obrigado a ter que escolher!

domingo, 18 de março de 2012

Paixão II

Vamos combinar: não é possível viver uma paixão em doses homeopáticas, pois não existe uma paixão do tipo "light"; paixão que é PAIXÃO é sempre radical: é tudo ou nada!!
E, por favor, não me venham com churumelas... se não for na base da intensidade total, não é paixão; na melhor das hipóteses, estamos tratando de um passatempo mais ou menos barato. 

domingo, 11 de março de 2012

Uma verdade neurótica

      Tudo bem, eu concordo que afirmar que a maioria das pessoas são simplesmente idiotas é uma redução neurótica - porque isso é uma inverdade em gênero, número e grau.
      Mas o fato (igualmente triste), do qual eu não consigo mais escapar em função de minhas constatações empíricas é que um número muito pequeno de pessoas é realmente digno de interesse mais profundo...

Desapaixonar-se

      Ocasionalmente, apaixonar-se pode ser uma experiência terrível, pois com frequência, pode-se não ser correspondido; mas geralmente, ocorre que, desapaixonar-se, ou perder-se do encanto e da atração fantástica que nos impele em direção aquele outro ser humano em específico (não adianta ser outro, tem que ser aquele) é uma experiência de proporção esmagadoramente mais avassaladora - muito similar, inclusive, à experiência "secular religiosa" de cair em desgraça com relação ao divino.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Destino X Livre-arbítrio

      Não acredito na predominância absoluta nem do destino nem do livre-arbítrio. Eu penso, mais precisamente, que em nossas vidas existe uma tensão insolúvel entre o determinismo do destino e o livre-arbítrio individual.
      Talvez parte da confusão observada nos debates sobre este tema, derive da acepção adotada para a palavra destino, pois o mesmo pode se encarado ao menos sob duas perspectivas diferentes.
      Uma seria a mais comum, aquela que concebe o destino como uma necessidade básica resultante de uma inequívoca determinação causal. Ou seja, tudo deriva de um projeto prévio, com um sentido único e irrevogável e o que nos restaria então seria somente a resignação diante do inevitável plano criador. Esta representação pode ser banalmente utilizada para eximir-se da responsabilidade pessoal pela vida (mas ao contrário, tb pode exigir uma alta dose de coragem para aceita-la), projetando no cosmos toda a significação da existência.
      A outra, (que eu considero também interessante e que não obrigatoriamente exclui a primeira), define o destino simplesmente como a lei superior da contigência e do acidente. Neste caso, o que nos atormenta efetivamente não é impossibilidade de mudanças, mas sim a falta de racionalidade e de uma necessidade básica fundamental que oriente os desatinos do destino e da vida. Isto significa que geralmente damos o nome de destino para tudo aquilo que nos antecede e sucede, mas que não controlamos ou desconhecemos.
      Neste sentido, podemos considerar como uma obra do destino (em qualquer uma das duas acepções da palavra) eu ter simplesmente nascido aqui e não na China maoísta (ufa, graças a Deus!! rs). E isso me determina tanto ou mais quanto as escolhas que hoje faço aqui. Eu, por exemplo, se dependesse exclusivamente de meu livre-arbítrio, escolheria viver na Grécia Antiga ou até mesmo na Era Medieval; a desilusão moderna para com a vida me perturba profundamente... Mas aceito a fatalidade inexorável da falta de controle sobre o momento e lugar exato do meu nascimento!
      Conviver com a ansiedade diante das vicissitudes do destino é tão díficil quanto conviver com a ansiedade de ter que tomar decisões e efetuar escolhas, afinal estamos o tempo todo diante do abismo da escuridão, da morte, da insignificação da experiência e da culpa pela nossa imperfeição enquanto criatura. Acho que (seguindo a proposta ontológica de Tillich) só nos resta mesmo a coragem para enfrentar ambos estes fantasmas e seguir adiante de acordo com as nossas mais profundas convicções, crenças e apostas sobre o valor superior que uma vida humana pode efetivamente encarnar e realizar.        

segunda-feira, 5 de março de 2012

Certezas X Incertezas

Acho que sim: no plano espiritual (isto é, simbólico e fundamentalmente teológico) é muito melhor conviver interiormente com uma "certeza incerta" do que com uma "incerteza certa". No limite, uma certeza incerta significa esperança; enquanto uma incerteza certa, invariavelmente, nos conduz ao desespero.

sábado, 3 de março de 2012

Eudaimonia

      Há poucos dias conheci uma pessoa maravilhosa, que me fez lembrar muito do livro do professor Clóvis de Barros Filho, em especial, de seu brilhante capítulo sobre Aristóteles.
      O fato é que ainda existem algumas poucas pessoas, ou alguns poucos encontros humanos, que funcionam como um verdadeiro bálsamo restaurador para a alma - principalmente quando esta se encontra em momentos de tormenta!
      Nestes casos, como diria Emerson, a "fusão das almas" parece nos elevar a um plano superior da existência, bem pertinho do céu, dos Deuses, para o universo suprasensível do amor e subitamente, o abismo desesperador que as vezes nos separam das outras belas almas desaperece de cena; a existência se torna um esplendor de realização e a miséria natural da condição humana se revela pífia diante da beleza da criação, do sorriso e do olhar humano!
      Mas um detalhe é crucial nesta aventura: o olhar humano, capaz verdadeiramente de revitalizar a alma, é fortuito; ele brota do "encontro desinteressado" - ou do "desencontro interessado", se é que assim se pode dizer - entre dois seres humanos distintos, mas que por um relâmpago de tempo, parecem um só. Erich Fromm, dizia que apenas "o amor honesto propicia o paradoxo em que duas pessoas separadas se tornam uma, mas continuam a manter suas distinções e individualidades intocadas".
      Retomando o cerne do pensamento, a ideia muito simples que hoje me veio a mente como um trovão, é que são apenas estes os momentos que fazem uma vida valer a pena!
      Aristóteles defendia como eudaimônica, uma vida que vale a pena ser vivida por ela mesma; não uma vida que simplesmente busca a felicidade como um prêmio e sim uma vida que a detém (na forma de alegria) e assim a experimenta em sua própria plenitude existencial. Todas aquelas atividades que geralmente nos desligam do mundo, que nos absorvem por completo e que não possuem o seu significado no futuro nem no passado, mas sim no presente, naquele momento único que não pode (e nem deve) ser repetido, são atividades que nos conduzem ao estado de eudaimonia, ou seja, de uma sensação de completude que jamais necessita de justificativa, uma vez que ela é um fim em si mesma; jamais um meio para outras conquistas...
      Para Aristóteles, a contemplação seria a atividade eudaimônica por excelência. Para mim, que sou muito menos inteligente que ele, e confio mais no meu coração do que na minha cabeça, uma boa conversa e a simples troca de olhares com um distinto ser humano já são suficientes para tornar a vida uma dádiva digna de mérito por sua própria Graça (para usar um termo caro ao gigante Santo Agostinho)!     
      É cada vez mais raro momentos como este, em especial em uma cultura decadente, empobrecida e mecanizada como a nossa, que robotiza o comportamento das pessoas ao mesmo tempo que esvazia a sensibilidade do espirito para os mais simples, pequenos e importantes momentos da vida - como as trocas humanas, neste caso. Não obstante, enquanto fazemos algo (só com o corpo e não com a alma em integração) e nos afastamos desta própria atividade pensando (ou seria propriamente fugindo?) no passado ou no futuro, estamos literalmente matando o que nos é mais valioso: o tempo finito que nos é concedido para experimentar esse - (geralmente) amargo, mas em contrapartida (muitas vezes) gratificante e magnífico - mundo que nos foi oferecido (e por que não também imposto) para viver.
     Ainda bem que existem pessoas belas e magnânimas, com suas nobres qualidades que apaziguam as dores do viver, pois sem elas, literalmente, eu sinto que estaria desesperadamente perdido na mais angustiante solidão... mas sejamos honestos, as virtudes cardiais do ser humano são aristocráticas, isto é, poucos as entendem e um número ainda menor é capaz de praticá-las; não adianta forçar a barra: coragem, honradez, compaixão, sabedoria, bondade, beleza, respeito, responsabilidade, fé, esperança, amor, cuidado, temperança, justeza e gentileza não podem ser banalmente democratizados (isto é, enfiados goela abaixo em cada indivíduo). Jamais a totalidade das criaturas humanas, condenados como estão às insanidades e o terror da condição humana, poderão ascender a esses mais elevados bens espirituais. Esse é o peso mais brutal da nossa tragédia: a maior parte do sangue derramado apenas serve de adubo para a imensa vala de corpos que é o planeta terra!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Escolhas

      Muitas vezes (e eu acho que essa é quase a maioria dos casos), é mais interessante e divertido ser escolhido do que ter que escolher.
      Ser sempre obrigado a ter que escolher é um fardo enorme, que é acompanhado automaticamente de ambivalência e amargura diante das possibilidades perdidas pela escolha "errada". Ao passo que ser um (ou o) escolhido, nos libera deste impasse, ao mesmo tempo em que nos enche o corpo e a alma de vitalidade para que possamos perseguir no caminho da escolha com toda a responsabilidade adquirida pela nossa magnificiente singularidade.
      É por isso que Philip Rieff está perfeitamente correto quando afirma que "escolher é um atributo dos deuses, enquanto aos homens, o que interessa é serem escolhidos". Não deveríamos brincar tanto de ser Deus, como fazem atualmente os cientistas e artistas modernos simplesmente por um único motivo: porque não vale a pena!    

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O significado da fé religiosa (em homenagem ao meu querido colega Luiz)

      Colegas e amigos, advirto que neste esboço de ensaio, não tenho nenhum interesse em objetar ou muito menos combater a fé ou a crença pessoal de ninguém (acredito que tal atividade seria apenas uma manifestação gratuita de violência); sinceramente, acredito que cada ponto de vista singular (isto é, cada subjetividade) deve ser não apenas respeitado, como também integralmente preservado. Contudo, no plano do debate filosófico, ressalto que esse mesmo ponto de vista apenas tende a ganhar em termos de substância e coerência, quando o mesmo poder ser ainda subsequentemente integrado em um todo maior - caso contrário, ele automaticamente desembocaria num erro caracteristicamente moderno anulando-se em seu próprio solipicismo.
      Deste modo, proponho que o raciocínio que eu pretendo aqui desenvolver seja interpretado em um sentido mais sociológico, epistemológico e filosófico do que propriamente psicológico, ou mesmo  (psico)analítico.
         Sendo um pouco mais diretivo, defendo aqui (diria até com uma suspeita dose de segurança) a hipótese polêmica de que, qualquer processo subjetivo de refutação ou abandono de crenças anteriores (uma antiga fé de cunho religioso, por exemplo) atingida através de uma análise pessoal nada mais é do que um indicador objetivo do "sucesso" desta análise (entendida no sentido Freudiano ortodoxo do termo). Tentarei explicar isso um pouco melhor.
        No contexto psico-histórico de evolução cultural no ocidente, a psicanálise (dizer psicanálise freudiana é uma redundância, pois só existe psicanálise no sentido patente do termo, a partir método criado e preconizado por Freud) nada mais representa do que o ápice de um processo social e cultural de criticismo (de cunho positivista), que visa - e não podemos dizer visava, uma vez que trata-se de um processo ainda vigorosamente em curso - precisamente à subjugação da fé religiosa e a desconversão doutrinária de toda a cosmovisão produzida e organizada pelos grandes sistemas do pensamento Antigo (em especial o cristão). Por outro lado, avançando um pouco mais além e -  porque não? - utilizando-se dos dos mesmos instrumentos empregados pela análise para desmascarar e subjugar a fé religiosa como mero produto de nossa fantasia inconsciente, podemos perceber que tal processo colocado em curso pelo impulso moderno Iluminista gerou uma nova espécie de conversão e culto de caráter idólatra e puramente ideológico aos dogmas materialistas das ciências positivistas.
        Desse modo, defendo ainda que enganam-se redondamente aqueles que pensam que Nietzsche foi o responsável pela morte de Deus no mundo moderno, pois Nietzsche, na qualidade de um voraz crítico da cultura, apenas constatou a falsa devoção e a fraqueza espiritual da vida moderna (em verdade, Nietzsche já havia percebido em meados do século XIX, que os sujeitos produzidos pela modernidade não levavam muito a sério esse negócio de Deus e que, mesmo aqueles se definiam crentes,  no entanto, não se identificavam existencialmente de forma tão visceral com os princípios éticos do Cristianismo quanto seus predecessores da Idade Média, uma vez que as questões mais pragmáticas do cotidiano e da sociedade dos homens absorviam a maior parte de suas energias físicas, mentais e espirituais); não, tal reviravolta espiritual de proporções tão grandes no seio de uma sociedade humana dificilmente seria provocada por um filósofo ou livre pensador, se ele não estivesse engajado na utopia moderna de esclarecimento científico do mundo (processo resumido e condensado pelo sociólogo Max Weber através da feliz expressão "processo de desencantamento do mundo"). É por isso que me parece bem mais plausível reconhecer que, a figura humana que efetivamente exerceu grande responsabilidade pelo rebaixamento final (diríamos, talvez, o golpe de misericórdia) da dimensão do sagrado e do eterno no drama da condição humana, foi justamente o velho Sigismund, através da criação de seu movimento e método psicanalítico de investigação "científica". De fato, eu tendo a concordar que a crítica de Freud ao Teísmo judaico-cristão (afinal, Freud nunca se interessou muito em aprofundar seus estudos sobre as religiões em suas manifestações mais ricas e variadas; ele simplesmente associava religião ao cristianismo como que por uma espécie de relação mútua de equivalência simbólica) é extremamente dura e contundente e, portanto, à uma primeira observação, de nada fácil objeção.
      Mas o relevante aqui neste ensaio é, portanto, enfatizar que Freud foi um personagem decisivo nesse processo antidoutrinário de desconversão do cristianismo (que vale destacar, não se iniciou de forma alguma com Freud, mas encontrou em sua pessoa um de seus mais fortes aliados, uma vez que este judeu desgarrado considerava o judaico-cristianismo um constructo teórico precário); e que, ainda, tal processo amplo e ambicioso, se estende de uma forma geral a todas as outras grandes formas de expressão religiosa ou filosófica produzidas em conjunto pelas culturas pré-modernas. Logo, a questão aqui a ser seriamente considerada é que, em última análise, não é possível (pelo menos eu não consigo) evadir-se da constatação de que qualquer processo de desconversão para se tornar efetivo deve ser seguido de um novo processo de conversão (apesar de que Freud não tinha qualquer interesse neste sentido; ele simplesmente  negava ideologias consideradas infundadas ou simplesmente absurdas, mas sem se comprometer a defender qualquer outro tipo de doutrina salvadora) e que neste caso, tal processo assume como premissas fundamentais os dogmas materialistas das ciências naturais positivas em alto nível de expansão desde o século XVIII - geralmente tal apropriação ocorre de forma não intencional/consciente, é claro! Porém, não deixa ainda de ser  notável (e ao mesmo tempo espantoso) o fato de que  muitos destes dogmas são sustentados passiva e acriticamente por Freud em praticamente toda sua obra.
     Desta forma, mesmo que modestamente, Freud foi um dos maiores (senão, o maior) destruidores de ilusões caducas produtoras de neuroses, tais como, por exemplo, o ideal de Divindade, uma vez que reconheceu este apenas como uma reminiscência deformada de um temido e tirânico pai de uma suposta horda primitiva. No entanto, o ateísmo de Freud e consequentemente, de sua psicanálise, não possui um consistente embasamento filosófico, pois sendo de caráter eminentemente metodológico, ele nem sequer precisou recorrer à filosofia; o cerne de seu argumento também não pode ser considerado ontológico, porque ele é genuinamente psicológico. Como pressuposto dominante praticamente em toda a medicina oficial do século XIX e início do XX, o materialismo ateu (adotado por Freud já na universidade) não foi uma conclusão a qual ele chegou após uma observação laboriosa dos extensos dados recolhidos pela ciência psicanalítica, pois ele (o materialismo ateu), foi na realidade a sua premissa básica; logo, foi justamente a sua "descrença" a priori que possibilitou a construção de seu maravilhoso edifício psicanalítico a posteriori, ou, em outras palavras: o seu ateísmo não equivale a conclusão feita por um sábio, mas sim a premissa precoce que motiva um aprendiz.
      Quando afirmo isso, quero enfatizar que Freud, equivocadamente (em minha humilde concepção), pretendeu realizar uma façanha impossível, isto é: refutar premissas teológicas com argumentos extraídos da psicologia. É claro que ele nunca iria achar nada com isso, ou melhor que ele apenas iria achar o Nada.
      Vou tentar ilustrar tal situação com um exemplo bem factível: imaginemos que uma criança pequena seja separada de seu pai que, por motivos de guerra, foi convocado a integrar-se ao exército para defender seu país de uma invasão inimiga. Suponhamos agora que se passaram 30 anos e que este pai nunca retornara da linha de combate, mesmo após o fim da guerra; porém, em detrimento disso, constatamos que o filho continua aferroado à hipótese esperançosa de que seu pai ainda esteja vivo (mesmo que este pai jamais tenha entrado em contato ou dado qualquer espécie de notícia que validasse tal esperança). Pois bem, gostaria de ver quem, em tal situação, seria capaz de violentar tal garoto (agora um homem), afirmando que nada, a não ser a sua crença infantil, sustentaria a hipótese neurótica de que seu pai ainda esteja vivo. Contudo esta é justamente a linha de raciocínio que Freud emprega para definir em sua obra o significado de uma ilusão. Traduzindo livremente, então, no sentido Freudiano, ilusões seriam todas aquelas crenças fundamentadas não em uma avaliação e num exame ponderado que assimilem em si o princípio de realidade, mas sim aquelas que, ao negligenciarem tal princípio, satisfazem as moções de desejo arcaicas que residem na dimensão infantil e inconsciente de nosso psiquismo. Ok, isso é muito bonito!! Mas convenhamos, não diz absolutamente nada sobre a possibilidade de sobrevivência e existência real do pai. Isto é, independentemente do desejo do filho o pai pode ou não estar vivo e é por isso que, condenar desde o início tal hipótese como neurótica devido a sua possibilidade improvável seria um erro estúpido em termos de raciocínio lógico, uma vez que a dimensão psíquica da vida, em certos momentos, pode coincidir e confirmar certos aspectos da realidade, mas em outros não e o fato de isso não ocorrer não é de forma alguma um indício irrefutável da inexistência do fato real enquanto tal. Neste caso citado, ele não diz nada sobre o fenômeno real justamente porque não estabelece qualquer relação direta com o mesmo, trata-se de duas dimensões distintas de análise e é por isso que um argumento puramente psicológico será sempre manco e insuficiente para refutar um argumento de caráter estritamente filosófico, teológico ou mesmo ontológico. De uma certa maneira, toda a fenomenologia de Edmund Husserl foi erguida para tentar amenizar e corrigir o impacto dessa confusão gerada pela revolução cultural e filosófica produzida pela intelectualidade moderna.
      Conclusão trágica que podemos então retirar de tal "confusão de línguas" (para usar uma bonita expressão em homenagem ao gigante Sandor Ferenczi): o perfil de homem maduro que Freud vislumbrava (e que diga-se de passagem, o senhor Jacques Lacan encarnou com excelência), representa nada menos que o ideal do sujeito moderno desencantado com o mundo, que assume de maneira radical o seu desamparo frente aos dilemas da existência humana e que, por fim, teoricamente, não necessitaria mais das formas arcaicas de consolo empregadas pelas enferrujadas religiões, por sua vez, baseadas em suas crenças consideradas ora primitivas ora infantis. Trata-se sem dúvida de um ideal paradoxal, pois apesar de parecer modesto é e em si mesmo super ambicioso, e, no entanto, muito difícil de ser construído e sustentado existencialmente, pois tal ideal apresentado por Freud nada mais é do que uma espécie de "anti-ideal" por excelência! E como sempre, Freud é mais uma vez um gênio em captar a essência do espirito de sua época, a modernidade, pois de uma certa forma, ele concorda, reafirma e valida a maior parte de nossa literatura (moderna), na qual é notável perceber que a figura humana do herói foi desbancada e substituída pela imagem do anti-herói (uma espécie degenerada de homem estúpido e fracassado, quando não um completo idiota).     
      E finalmente, o problema epistemológico envolvido em todo esse processo decorre do fato de que Freud apenas conseguiu extirpar os fantásticos mitos de criação vinculados à fé religiosa (claro que essa máxima somente pode ser válida para aqueles que acataram a tal execração do mistério) à custa da imposição de suas crenças dogmáticas com relação aos mitos científicos (tais como: iluminismo, racionalismo científico, evolucionismo, empirismo, materialismo, positivismo, totemismo - mito este, inclusive por ele próprio criado). Neste ponto, eleva-se um paradoxo que sob o meu ponto de vista é altamente admirável: trata-se da proeza que Freud realizou ao articular em uma só e na mesma teoria correntes de pensamento essencialmente antagônicas, tais como racionalismo científico e idealismo romântico; é como se na expressão manifesta de sua atividade consciente ele assumisse o espirito do cientista moderno, mas nas entrelinhas e na expressão latente ao seu pensamento eclodisse a exaltação romântica da intuição, confirmando, sempre que possível, as verdades profundas que residem no interior de nosso inconsciente. Como um todo, sua obra e sua vida foram uma afirmação brilhante de suas próprias teses e assertivas, o que lhe confere, sem dúvida, o atributo de um gênio e, como é a sina de todos os homens geniais, ele teve que pagar um preço: o preço de viver, enxergar e escutar muito além da capacidade de viver, enxergar e escutar da maioria dos contemporâneos de sua época. Tal é o fardo e a tensão incomensurável que tendem a ser sustentadas pelo homem que, por sua genialidade, se elevou um pouco acima da trivialidade de vida do homem comum (sem dúvida, uma das coisas mais significativas que Freud enxergou, foi a de que o cristianismo não falava mais uma linguagem acessível ao sujeito moderno, assim como também ele não atendia às suas aspirações de conquista do mundo e de domínio progressivo sobre a natureza; uma vez perdido o sentido profundo de tais ensinamentos, apenas um fenômeno poderia ainda sustentá-los: a neurose, e esse é que foi justamente o preciso objeto de ataque de Freud com a psicanálise; sendo assim, o mais correto é compreender seu combate ideológico ao cristianismo como uma consequência inevitável de sua luta contra a patologia neurótica; se para isso Cristo tiver de cair, que caia!).        
    Contudo, no contexto aqui aplicado, julgo importante ainda realizar e apresentar uma última definição que possibilite um avanço do diálogo e dessa discussão no futuro. Trata-se da noção e do conceito de dogma - tal como eu o concebo. De uma maneira simplificada, defendo apenas que um dogma deve ser entendido  como uma certeza conceitual de base, que abre as portas para toda e qualquer discussão posterior, e, dessa maneira, possibilita o avanço de qualquer saber. Isso quer dizer que dogmas não são privilégios exclusivos das religiões; as ciências também possuem igualmente os seus, caso contrário, os cientistas teriam que retornar sempre ao início da discussão e qualquer progresso do saber seria uma ficção impossível. Dogma é um consenso comunitário sobre as bases que delimitam e circunscrevem os limites do conhecimento em um determinado campo do saber, e até eles mesmos podem ser reformulados por mentes capazes. É um erro primário conceber os dogmas, a fé e a crença de um lado, e as certezas empíricas e cientificamente comprovadas do outro. Até porque, para que as certezas científicas possam realmente ser provadas, é necessário anteriormente dos dogmas, da fé e da crença do pesquisador, pois no caso contrário, não seria possível provar nada. Neste sentido, é bem fácil apresentar um dogma irrefutável para toda e qualquer comunidade psicanalítica: a noção comum aos psicanalistas de que existe um inconsciente psíquico. Os psicanalistas podem e, de certa maneira, devem, discutir (e de fato discutem muito) sobre o que é e do que trata esse inconsciente; mas eles não podem questionar a sua validade prática e teórica sem colocar seus pés para fora da psicanálise, entendida enquanto campo delimitado de pesquisa clínica e até mesmo teórica. O conceito de inconsciente é um axioma da teoria psicanalítica e graças a sua aceitação enquanto dogma é que as discussões podem ser desenvolvidas no sentido de avanços, pois se a todo o momento aparecer um sujeito questionando se o inconsciente realmente existe, a produção do saber ficará estagnada e sem possibilidades concretas de evolução e progresso.   
     Da mesma maneira, voa completamente na direção oposta aos fatos, aquele que separa a fé crédula e a intuição inocente de um lado, e o conhecimento maduro e o empirismo científico do outro. Como eu acho que aprendi, depois de ler repetidas vezes "A vontade de crer"  de William James, a fé não é apenas aquilo que começa quando o conhecimento efetivo e materializado cessa; não, a fé, é na verdade aquela confiança básica que possibilita que qualquer conhecimento se produza. Todo o pensamento é de alguma forma orientado na direção da fé e da autonomia individual do pensador. Assim, torna-se absolutamente inconcebível pensar em qualquer coisa sem anteriormente concebê-la como da ordem das possibilidades, e aqui, a fé, há muito já iniciou o seu trabalho... mais ainda: a fé apenas completa este trabalho, quando o intelecto (no caso humano, de forma variável, mas imprescindivelmente limitado) não é mais capaz de atuar de uma maneira satisfatória para resolver toda a gama insolúvel de problemas existenciais que assolam o indivíduo - até porque, como um herdeiro de Pascal e Max Scheler, acredito que as grandes verdades do sujeito, aquelas que são capazes de tornar sua vida efetivamente vivível e suportável (dando-a um colorido todo especial) nunca são verdades abstratas do intelecto, mas sempre as verdades intuitivas de seu próprio coração! A partir daí, o sujeito fica impelido a depositar sua confiança, sua intuição e sua disposição interior à crença e a ação baseando-se na credibilidade de suas fontes (mesmo quando estas se  apresentam parcas ou enxutas), selecionadas geralmente de acordo com seus próprios critérios pessoais de razoabilidade, mas que lhe oferecem enfim, a melhor explicação acessível para os mais misteriosos fenômenos que o envolvem.
     Neste sentido, a certeza e a convicção absolutas devem ser consideradas como privilégios dos Deuses (ou dos lunáticos e paranóicos), uma vez que os homens (neuróticos e miseráveis como muitos de nós), condenados como estão às incertezas e as amarguras da vida, invariavelmente devem recorrer e apelar para alguma forma de fé, que deve ser entendida agora em seu sentido religioso mais profundo: “uma inclinação interior de adesão e crença a algum sistema simbólico de pensamento, que ofereça, por um lado, um ponto de orientação no passado, e por outro, um objeto de devoção no futuro”, segundo a precisa observação de Erich Fromm. Sem estas âncoras, o sujeito fatalmente se encontrará perdido em sua existência - tal como o niilista ou um cachorro do mato.
     Tomando ainda um segundo significado possível para o conceito de fé, eu me arrisco a dizer  que ter fé nada mais é do que assumir a insuficiência do Eu diante da tempestade da vida e, de uma maneira resignada, deixar-se absorver e entregar-se a algum sistema simbólico de pensamento que transcende a existência individual temporária do sujeito e, desse modo, o escreve no plano infinito e, portanto, imutável das essências eternas. De fato, o ideal que apresento remonta às raízes clássicas do Platonismo primitivo; não ofereço nada de novo! Mas trata-se sim, de algo que é também muito difícil de ser praticado  e apreciado com serenidade diante dos horrores impostos pela nossa realidade natural. Agora, simplesmente conceber a fé como uma “crença patologicamente infundada no absurdo” é um erro cretino! Nas brilhantes palavras do teólogo Kierkegaardiano, Paul Tillich: “Fé é a experiência de autoafirmação incondicional da potência de um ser, que se manifesta de forma efetiva através de suas próprias escolhas e atos de coragem”; no estado de fé, que Tillich também descreve como "a coragem do desespero" o ser individual apodera-se da potência fundamental que orienta o mundo, ou seja, do "ser-em-si" - aquele que determina o curso infinito da essência transcendente.  
     Em síntese: me parece que Freud, por mais genial que ele realmente foi,  ele ainda não conseguiu refutar satisfatoriamente a premissa básica da fé religiosa; ele apenas retirou sua cota de investimento libidinal em Deus e o depositou na Ciência (que rapidamente se tornou o seu novo e adorado deus).
     No entanto, quanto mais observo, mais ressalta aos meus olhos que o principal problema da concepção puramente materialista do mundo, não decorre do fato de que as pessoas que se julgam "materialistas" acreditam apenas naquilo que elas são capazes de ver (através de seus próprios órgãos de sentidos); o mais grave defeito deste tipo de análise e concepção cosmológica é que essas pessoas acreditam que são realmente capazes de ver tudo. Trata-se de uma espécie de extravio da fé, ou de uma "fé neurótica", pois ela assume a dúvida de tal forma radical, que duvida de coisas que estão praticamente acima (ou abaixo) da capacidade de duvidar, ao passo que assume uma certeza inconveniente em questões que a duvida seria uma conduta bem mais apropriada.
      Para piorar um pouco o cenário, reconheço também que o ateísmo de Freud era de caráter altamente especulativo e metafísico, porque para se afirmar tanto que Deus existe como que Ele não existe, é preciso ter a estranha e anormal capacidade de colocar a cabeça para fora do mundo e ver aquilo que se oculta por detrás de seu fundamento último. Em suma, a afirmação metafísica de que Deus não existe também não pode cientificamente ser comprovada e, além disso, ela simplesmente equivale a depositar basicamente toda, ou pelo menos uma boa parte da própria cota de fé em um Nada transcendente. É justamente aí, nesta aposta, que se encontra o núcleo da posição de Freud, quando o mesmo pretende substituir a metafísica pela metapsicologia - uma posição demasiado infundada e arriscada em minha singela opinião... Ah, só mais um detalhe: muitas pessoas ainda não perceberam, mas o ateísmo é a mais nova religião moderna, afinal, ele cumpre todos os requisitos para uma orientação e devoção de propósitos no mundo (ou seja, aquela função que qualquer religião se compromete a fazer) - no entanto, a natureza e as características específicas de tais propósitos merecem uma atenção e dedicação especial, que devem ser apreciadas em outro trabalho.
      Contudo, procuro ao final deste ensaio ressaltar tão somente que a diferença crucial que separa a mentalidade moderna da antiga, é que do ponto de vista metafísico, a religião moderna não confia em um Deus (como todas as antigas religiões Teístas ou Politeístas); ela confia em um Nada. 
      Prefiro agora, com isso, encerrar minha reflexão. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Minha aposta

Não importa! O tempo passa, e eu apenas reforço a minha concepção trágica do mundo e a minha visão miserável sobre a vida humana (a representação cômica, infelizmente, irrompe somente de modo irregular e mais esporádico ainda do que eu desejo); é por isso que eu aposto todas as minhas fichas no reino espiritual e inalcançavel - como muito bem sabia Platão - do Bem, da Verdade, do Belo, da Justiça e do Amor.

Aristóteles e a Metafísica

      Gostaria de registrar aqui um fato notável: quando Aristóteles (nada mais nada menos que o pai e fundador da Lógica no pensamento ocidental) concebeu seus escritos sobre a metafísica, ele dizia, traduzindo livremente, simplesmente o seguinte: a nossa razão (intelecto) apenas nos permite compreender os componentes simples à respeito da realidade de nossa experiência no universo. Ou seja, Aristóteles entendia como entidade simples, nada muito além da ideia abstrata de um motor primário; a causa sui de todas coisas criadas pela dimensão do eterno e portanto, do infinito. Em linguagem cristã: diríamos Deus. 
      Por outro lado, todos os elementos materias que nos circundam e desse modo compõe o todo do universo, isto é, aquilo que costumamos chamar de natureza, são tidas por Aristóteles como entidades complexas; estas últimas, por sua vez, são muito mais complicadas e, portanto, não poderiam por nós jamais serem perfeitamente desvendadas e conhecidas. 
     O fato notável (macabro) que tenta se explicitar aqui, é que a Modernidade inverteu quase que ao seu exato oposto, a tão laboriosa representação aristotélica do mundo. Ao contrário de Aristóteles, que afirmava então que Deus era a única e derradeira certeza acessível ao nosso intelecto (que se alcançava apenas através da correta utilização de nossa capacidade de conhecimento racional), o "intelectual lógico" moderno (ou seja, o vulgar profissional do pensamento que se crê um cientista) afirma com a mesma convicção que Deus é a única coisa que de fato não podemos conhecer (isso quando ele não conta com aquele obstinado dom premonitório que assegura que "Ele" nem sequer existe). Pior ainda: o cientista moderno acredita ainda que com o progresso e o emprego das técnicas corretas, as ciências poderão - ou já podem - desmembrar e conhecer plenamente o mundo da phisys, isto é, a realidade mundana dos elementos materias que compõem a natureza. 
      Penso que agora fica mais claro porque a modernidade elevou a loucura ao status da normalidade - ou foi justamente o contrário? 
      Me parece que é por isso também que hoje em dia, o lunático, com muita habilidade e perspicácia, faz tranquilamente o papel de um homem "são"; enquanto ao homem autenticamente "são" (Freud diria mais ou nenos normal; por mais inimaginável que nos pareça hoje esta idealização), só resta representar o papel de um "maluco de pedra"! 
Será que este é o maldito significado velado contido no livro A humilhação de Philip Roth? Será que finalmente entendi alguma coisa sobre a história do miserável Axler?              

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Ateísmo? E aí, dá pra engulir esta?

Essa semana eu assisti o filme fascinante sobre São Francisco de Assis. Ele me fez pensar um pouco mais sobre as grandes questões religiosas e, neste momento, tenho apenas uma coisa a dizer:
Qualquer uma das grandes religiões que sobreviveram durante pelo menos 1000 anos de evolução histórica (judaísmo, cristianismo, budismo, islamismo, etc) deve ser profundamente respeitada! Existe sabedoria demais ali condensada e aconselho que, caso voce (alguém qualquer) não entenda o que ali está se passando, por favor, faça o favor de ficar quieto... Como diria Pascal, "melhor respeitar o silêncio!" 
Agora, o tal do Ateísmo tão exaltado nos dias de hoje, não passa de uma moda intelectual moderna. Até mesmo o materialismo grego de Demócrito e Epicuro são cosmologias um pouco mais refinadas, mas mesmo assim, (neste ponto)  eu acho que não se deve dar muito crédito para eles... Por outro lado, o materialismo científico do século XX para cá, reflete apenas a ausência de atividade filosófica séria (isto é, a reflexão mais elaborada no âmbito do espaço público cessou e agora qualquer papagaio falante sai por aí dandos suas tagareladas inconsistentes!). 
Em outras palavras: a essência vigorosa do pensamento religioso que é comum a todas essas doutrinas milenares é coisa pra gente grande, pois requer um certo tipo de maturidade muito especial; já o pensamento juvenil, infelizmente, na maioria das vezes fica totalmente atordoado e perdido! Nestes casos, para propósitos mais lúdicos ou divertidos, aí sim, esse negócio de Ateísmo, sem dúvida é o mais indicado... 
Inclusive, eu ainda não consegui me livrar de um preconceito empírico: no geral, os ateus que eu conheço, ou que eu conheci, são extremamente preguiçosos do ponto de vista mental. Não é a toa que São Tomás de Aquino "elegeu" a preguiça como um pecado capital.
Ainda bem que a maravilhosa Hanna Arendt nos alertou que, viver sem nenhum tipo de preconceito é uma ficção impossível!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Fobia


Eu preciso confessar: entre todos os meus medos e aversões, um dos mais acentuados e que se manifesta em maior intensidade, é a fobia que possuo de grupos humanos... em especial, todos eles!
Geralmente, quando os seres humanos se juntam em bandos e formam aquelas espécies de "agrupamentos tribais primitivos", eles são capazes de fazer coisas absolutamente terríveis e tenebrosas...
 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Tem coisas que só na imaginação mesmo

      Sinceramente, admiro muito o poder imaginativo dessas pessoas que conseguem articular os opostos inconciliáveis, tipo: cristianismo e uma vida feliz; psicanálise e otimismo; capitalismo e equidade; ou ainda, comunismo e democracia.
      Em primeiro lugar, a imagem que faço de Jesus Cristo é de um homem crucificado, sangrando, cuspido, torturado e pregado em uma cruz, com o objetivo nada modesto de absorver os pecados do homem no mundo. Não existe cristianismo "light" para ser comprado no supermercado e, um grande (ou o maior) motivador de seu autosacrificio, foi, a meu ver, o combate ao hedonismo e a idolatria pagã que tentam até hoje vender a falsa imagem do mundo como um parque de diversões.          
      Em segundo, Sigmund Freud foi um cientista obstinado, que se viu diante do mal no espelho do mundo, e constatou, com uma intuição muito clara e direta, o impulso compulsivo demoníaco que impele a própria vida à destruição; não é nada fácil olhar no âmago da psique humana e observar o desejo de morte como o núcleo real e mais profundo da vida anímica. Não existe espaço para o otimismo e o sucesso material ou metafísico na cosmovisão projetada por esse bom senhor, que foi capaz de enfrentar nada menos do que duas guerras mundiais (com a perda de pelo menos um filho em uma delas), um câncer maligno e uma perseguição acadêmica e intelectual incessante com uma dignidade de cunho similar ao do estóico e, assim sendo, pode manter ainda um espaço para aberto para gentileza em seu amargurado coração.
      Em terceiro lugar, bem, penso simplesmente que o abismo salarial que observamos não apenas em nosso país mas em todo o mundo, reflete justamente a importância e o valor atribuído a cada trabalhador de acordo com as necessidades de funcionamento do sistema capitalista. Não existe qualquer embasamento moral para isso e nem adianta procurar, pois o capitalismo em seu estágio mais atual se desvencilhou totalmente de qualquer entrave ético. Por este motivo, o assustador e terrível grau de diferença salarial com o qual convivemos atualmente, pode corretamente ser considerado como desigual e até perverso (eu mesmo acho isso), mas não o é igualmente injusto. O fato é que, um Neymar da vida, é muito mais importante para o movimento do mercado do que um gari (em detrimento da importância imensamente maior, efetiva e real do gari para todos nós, humildes mortais; eu, por exemplo, detesto lixo!). Logo, a injustiça é evidente, mas ela somente aparece para aqueles que desconfiam e se posicionam de uma maneira crítica com relação ao sistema econômico dominante. Porém, para todos aqueles que confiam na prosperidade do sistema capitalista essas distinções praticamente inexistem. E pior, no íntimo, eles ainda acreditam na possibilidade de um dia ganhar tão bem quanto Neymar... ufff! Tudo isso seria até cômico, se não fosse tão trágico!
      Em quarto, pensar que comunismo é compassivo com a democracia é um erro cabal; estilo débil mental! Não adianta, não existe o menor suporte para a utopia marxista depois do banho de sangue que foi o século XX. Eu até respeito Karl Marx, pois, ao contrário de muitos opositores, reconheço o caráter humanista de seu pensamento, mas o fato é que os fins não justificam os meios como propõe a vanguarda revolucionária (é um contrasenso brutal e estúpido querer impor a justiça moral pela força do facão); e sem um forte embasamento ético ou moral (que é da alçada ou da filosofia ou da religião), a verdade é que o sujeito se deleita com a destruição do seu vizinho em nome de seu próprio e abstrato ideal... Com efeito Marx foi muito melhor historiador e economista do que filósofo e psicólogo. Ele não compreendeu as profundezas do terror e do desespero que fundamentam a psique humana (afinal, o homem é o único animal que traz a cicatriz macabra da foice negra marcado no seio de seu coração); igualmente, não entendia patavinas sobre a psicodinâmica da culpa na formação do caráter humano (em linguagem mais filosófica, diríamos na ontologia da criatura); em suma, ele cometeu o imperdoável erro de confiar demasiadamente na neutralidade e nas potencialidades do homem, e esse erro, custou muito caro para todos os radicais fanáticos que o leram e o seguiram com um nível muito baixo de posicionamento crítico. Uma vergonha de poucos precedentes na história da civilização européia!    
      É, eu até adimiro mesmo o alto teor imaginativo desses indivíduos que são capazes de harmonizar os impossíveis, mas infelizmente, esses tipos de confabulações ideativas não se sustentam após um minimo teste de confrontação de forças imposto pela dura realidade da experiência e, desse modo, penso honestamente que seria melhor (ou eu prefiriria) que, em vez de ficarem tagarelando e atormentando o mundo com seus devaneios carnavalescos ou alucinações fantasmagóricas, a maioria deles (não precisava nem ser todos) ficassem mais tempo quietos dentro de casa - quem sabe refletindo, meditando, estudando ou até dormindo? - e deixassem o pouquito restante de nossa sanidade, em paz!

sábado, 28 de janeiro de 2012

????

Sabadão, madrugada maravilhosa. Acabo de assitir a divina estória de Moisés em "Os 10 mandamentos".
Estou intrigado: como pode o meu bom senhor Deus, me conceder uma cabeça de 50 anos, num corpinho de 28?
Oh céus, mas que crueldade!

O poder do olhar

Eu ainda não me conformo, mas existe um número nada pequeno de pessoas que, por manterem-se quase completamente absorvidas pelas bobagens do dia-a-dia, tornaram-se tão obtusas (tapadas), que agora já estão totalmente incapazes de reconhecer o poder inebriante e a mais exuberante beleza e magnificência de um simples olhar humano.
Podem me chamar de romântico, que eu não me incomodo...  Honestamente, acredito no poder curativo e restaurador do olhar humano até mesmo para as mais profundas dores da alma!
Porém, se, como atesta o sábio provérbio, “os olhos é que costituem a verdadeira janela da alma”, então nada será mais automático e mecânico para o ser desalmado, do que fechar seus próprios olhos para todos os milagres; inclusive ou principalmente, para os desta magnífica sutileza.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A vaidade

A vaidade agrilhoa a alma do sonhador na prisão do corpo que se degenera e assim, corrói também por completo a entrada para o paraíso do infinito representado (no planeta Terra) pelas verdades eternas do espírito!


     

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Shakespeare sempre estará certo

Há um certo tempo, já ficou muito claro para mim que a vida nada mais é do que uma alucinante peça de teatro (como muito bem sabia Shakespeare), mas que, no entanto, ela apresenta ainda uma pequena e extraordinária diferença: nela (na vida) não existe qualquer diretor que possa nos auxiliar a representar o nosso papel. Estamos desesperadamente condenados ao isolamento e a incerteza (e, portanto, à angústia) em absolutamente todas as nossas ações...

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Afinal, uma mulher pode ser um objeto do desejo de um homem?

      É até um pouco óbvio demais, afirmar que o que um homem deseja em uma mulher é aquilo que apenas ela, e mais ninguém pode lhe oferecer.
      Atualmente, no entanto, a simples ideia de que um homem aspire a uma mulher como um puro objeto de seu desejo causa repugnância para muitas mentes, pois a mulher não pode mais ser reduzida a um mero objeto do desejo masculino. Se antes mesmo da revolução feminina, já não se podia fazer qualquer tipo de generalização com relação ao enigma do universo feminino, o que já era uma confusão total, virou agora, de vez, totalmente de cabeça para baixo.
      Mas como sou um pouco abusado, acho que ainda é possível arriscar alguma opinião: O fato de um homem conceber e desejar uma mulher como um mero objeto erótico não representa de forma alguma a decadência das relações conjugais (e, portanto, também sexuais) entre homem e mulher. Muito pelo contrário, é isso que abre as portas para a construção de qualquer relação amorosa tal como a concebemos em nosso modelo padrão de relacionamento matrimonial e monogâmico (o que vale igualmente para qualquer namoro ou relacionamento sério deste tipo).
      Se o elemento "objeto" for excluído deste tipo de relacionamento, na melhor das hipóteses, teremos uma bela de uma amizade, que segundo Freud, nada mais simboliza do que uma relação também de tipo sexual, mas com um potente grau de inibição em seu alvo final.
      Por este motivo, se voce é uma mulher "casada" e o seu marido é capaz de te ver como um objeto sexual, agradeça, por que no caso contrário sim, voce deverá enfrentar sérios problemas...
      Pode ser que outra questão não menos problemática se torne manifesta quando não se é mais nada do que um objeto sexual e isso, eu tendo a concordar que reflete apenas o empobrecimento do espírito humano. Mas condenar o homem que se sente atraído por uma mulher predominantemente em função de seus atributos físicos (na linguagem popular, basicamente porque ela possui "peitos" e "bunda" interessantes) é coisa de quem não entende patavinas de relações eróticas entre homem e mulher (geralmente, me parece mais que este, ou é um indicador indireto de histeria, ou é o pensamento dominante nas mulheres que não são capazes de despertar nenhum interesse nos homens - mesmo em detrimento de suas características físicas, emocionais ou intelectuais).
       Talvez, se invertermos o racíocinio inicial, possamos deixar mais claro o drama que se apresenta na situação que estou tentando descrever: do ponto de vista erótico, uma das piores experiências pelas quais uma mulher pode passar não tende a ser o fato de ela ser reduzida a um objeto sexual para o homem; me parece, que neste sentido, o horror total se instala justamente quando ela não é mais considerada um objeto sexual para ninguém. É aí que a dor da paixão revela a sua mais desagradável morada! 
      Em síntese, o fato é que, no plano do erótico (sexual), prevalece como traço psíquico masculino distintivo o desejo de desejar; e como traço psíquico feminino o desejo de ser desejada. Logo, eu sou mesmo um desses que considera o desacordo entre os caracteres psicológicos masculinos e femininos como estrutural. Não existe possibilidade de um acordo pleno, integral e duradouro entre os gêneros; isto é, o abismo sempre prevalece e o desentedimento é a norma! E é por isso que mulheres fisicamente bem dotadas frequentemente deixam os homens embaraçados; sempre haverá espaço para desejá-las mais. Enquanto, no caso das mulheres, a recíproca não é verdadeira, pois em primeiro lugar, importa mais para elas, "ser desejada(s) por aquele(s) que ela(s) deseja(m)", e todo o restante dos homens ficam então para segundo plano.
      Tudo isto significa que, no caso dos homens heterosexuais manifestos, ser capaz de se sentir atraído pelos dotes específicos do corpo de uma mulher é a premissa básica da relação erógena. Por este motivo então, penso eu, que as mulheres na realidade teriam muito mais motivos para se indignarem quando é este o fenômeno que está ausente: o desejo erótico do homem que faz da mulher seu objeto sexual;  Em outras palavras: quando nenhum homem mais puder eleger uma mulher como o seu objeto sexual preferencial, a amargura feminina será quase fatal e a insatisfação sexual tanto do homem quanto da mulher, se tornará geral.    

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Quando eu escuto Mozart

Quando eu escuto Mozart, eu fico tão emocionado, mas tão feliz, que eu acho que vou morrer!
Até parece mesmo que a obra deste homem apenas poderia ser explicada como um presente divino... ou será que, mais precisamente, trata-se tão somente de mais uma oferenda humana ao elemento divino?

domingo, 22 de janeiro de 2012

O último dançarino de Mao

Para todos aqueles que tiverem uma oportunidade, recomendo muito assistirem ao filme "O último dançarino de Mao". É lindo e duro do começo ao fim! E ainda mais: o filme é capaz de apresentar com extrema sutileza a brutal diferença entre um sistema político de cunho mais democrático e outro de tendência mais totalitária (penso que ele é capaz de habilmente exterminar qualquer uma das distorções e delírios geralmente evocadas pela alucinada ortodoxia marxista, demonstrando de forma paradigmática os efeitos altamente degradantes produzidos pela revolução proletária no caso da China maoísta).
Sobre este ponto, eu concordo que em alguns casos a ignorância pode ser uma benção, mas ocorre que em muitos outros, ela ( a ignorância), denota nada menos que uma grave falha de caráter; uma injustificável subserviência ao mal; ou na melhor das hipóteses, um disfarce socialmente aceitável para a misantropia (ódio pela humanidade).
O importante mesmo é que cada um que se interesse por estas questões de natureza sociopolítica assista ao longa e possa então, a partir da experiência, expressar suas próprias opiniões.
No entanto, ressalto que o filme vai muito além do plano político e oferece ainda um incrível deleite do ponto de vista estético.
Realmente acho muito díficil alguém que assistiu dizer depois que não valeu a pena!