segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Esquerda X Direita

Não considero a cisão direita/esquerda tão esquizo assim. Na verdade, considero ela apenas uma síntese didática de uma divisão política bem complexa, de fato: de um lado, os que priorizam o espectro da "liberdade", e do outro, o da "igualdade" entre os agentes. Assim, trata-se de uma divisão pedagógica banal para delimitar os diferentes direcionamentos políticos. Não há necessidade alguma de criar uma rivalidade do tipo "fla-flu", mas deve-se convir que os partidos se mobilizam partindo desta ambivalência - pendendo mais para um ou outro lado; não há como incrementar fragmentações aí. 

Você tem razão: a esquerda também comporta divergências em seu interior. Eu simplifiquei demais a questão. Fiz isso, pois tenho comigo que essas tensões internas apenas são relevantes enquanto o projeto político de ascensão ao poder e controle social dos indivíduos (que se dá tanto pela via das regulamentações burocráticas quanto pela expropriação das riquezas materiais) pelo Estado não se concretiza. Na minha leitura, o objetivo do socialismo é justamente esse, eliminar a tensão da diferença. O totalitarismo não é um efeito colateral de um estado forte, e sim sua própria finalidade. 

Historicamente, a liberdade política sempre andou acompanhada da liberdade econômica (mais precisamente: a segunda é condição para a primeira). Todos os sistemas que procuraram reduzir as desigualdades econômicas reduziram concomitantemente as liberdades políticas. Tocqueville escreveu sobre isso antes mesmo do advento século XX. 

Neste sentido, fundir Estado e sociedade civil, tal como preconiza a agenda progressista, corresponde ao assassinato do indivíduo. Qualquer direita que se preste reconhece que o indivíduo é a "menor minoria" existente, e por isso luta pela sua preservação.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Freud: o enigma do conservadorismo revolucionário

Com relação a antipatia que Freud nutria em relação aos EUA, isso não impediu que a cultura americana incorporasse as suas premissas de maneira mais radical do que qualquer outro país da Europa. O individualismo e o ascetismo protestante ofereceram um ambiente altamente fértil para as "boas novas" freudianas - que por mais uma dessas ironias do destino, ele as equiparava a "peste".

Philip Rieff nos dá uma indicação curiosa sobre esse casamento tão "bem sucedido" - apesar de os neofreudianos recusarem seu filho, "o movimento da auto-ajuda", como se fosse um bastardo.

"Com Freud, o individualismo deu um grande passo, talvez o último: um passo na direção daquele sentimento maduro e calmo que provém de nada ter a esconder. O indivíduo não precisa mais manter uma distância segura da massa de seus camaradas. Na análise, desenvolvida como um processo social, ele será treinado de forma a minimizar a sua vulnerabilidade. O homem ocidental aprendeu com Freud a complexidade da técnica da externalização de sua internalidade, e foi finalmente capaz de fazer sair aquela multidão de sombras que insistia em que ele se voltasse para dentro, de modo a viver na luz brilhante e sóbria do presente onde, idealmente, o momento é sempre meio-dia. Isso não é isolamento, pois não mais restringe. Não é também mística da participação, pois a ação participativa nada tem de abnegada. Ao invés disso, a terapia social (da análise) e transforma todos os antigos objetos de compromisso em instrumentos a disposição do próprio processo terapêutico. [...} A ética de tolerância com as imperfeições (próprias e as dos outros) é a mais segura e apropriada para o uso na era do homem psicológico. No entanto, Freud sempre desconfiou dos estilos missionários, pois reconhecia que sua medicina não era salvadora; ele próprio jamais tentou vender sua doutrina, como fizeram muitos de seus sucessores, com ganho indubitável, com aquelas panacéias conhecidas como "auto-realização pessoal" ou "realização das próprias esperanças". Mas afinal, o que se adequaria melhor ao ideal analítico que a prevalecente devoção americana para com o Eu? Esse eu melhorado, é a preocupação última da cultura moderna".

Chegamos assim ao grande paradoxo, Freud, talvez o mais moderno entre os modernos, era um tradicionalista conservador; a psicanálise, no entanto, em termos de ação social prática, operou a verdadeira revolução do ocidente: aquela que separa e afrouxa definitivamente a relação do sujeito com o super-ego cultural, tornando-o livre das restrições pessoais que sustentavam a ética do mundo antigo.