quinta-feira, 24 de julho de 2014

Psicanálise e Moral

 Laerte de Paula, sua questão é riquíssima e igualmente a considero fundamental em termos de prática clínica. Demorei a responder pois acho que ela exige muita cautela para ser pensada e apreciada! Não tenho a intenção de respondê-las, mas sim de contribuir de alguma maneira para o exercício da resposta...

No sentido mais clássico de se pensar a questão, acho que a Instituição psicanalítica não pode ser considerada como possuidora de uma doutrina moral. Neste sentido, entendo a moral como uma doutrina que pressupõe invariavelmente uma hierarquia (específica e própria) de valores que orientam as ações de um sujeito no mundo. Em outras palavras, uma Moral afirma que inevitavelmente algumas coisas devem ser consideradas melhores do que outras, e assim toda e qualquer doutrina moral se ocupará de responder que comportamentos e ações podem de fato ser considerados bons em si mesmos, ou maus (ruins) em si mesmos. Estas ações e comportamentos devem ser absolutamente transcendentes, isto é, não podem sofrer desgaste e enferrujar em função da passagem do tempo. Uma ação moral deve então necessariamente ser válida para eu ou você independentemente de estarmos hoje aqui em São Paulo, há dois mil anos na Grécia Antiga ou na Alemanha do século XXV. Por isto, que todos os princípios morais Antigos se apoiavam e adquiriam sua dignidade de alguma ordem ou concepção metafísica. E por isto, o mais correto é pensar não em uma Moral única e absoluta, e sim em amplos sistemas de códigos, constituindo assim uma moral cristã, outra islâmica, hare-krishna, espírita, epicurista, platônica, estóica, iluminista, marxista, enfim, uma multidão infindável de concepções e princípios éticos e morais. (É claro que nem todas se dedicam igualmente em termos de esforço para elaborar sua doutrina, e parece que, como exemplo, só a o moral cristã demorou XVIII séculos para ser "finalizada" e finalmente apresentada em um concílio; imagine quantas vidas e reflexões não passaram por ali...) 

No entanto, "nós modernos" (essa é a característica específica da revolução científica moderna) mandamos a metafísica pra casa do carai...! Não nos apoiamos ou acreditamos nela e o mais frequentemente possível a rejeitamos. É neste contexto que devemos pensar no projeto Freudiano Iluminista de substituir a metafísica pela metapsicologia. Só isso já nos dá muito pano pra manga, mas acho que também nos oferece uma indicação do porque não acredito que a psicanálise ruma em direção a uma doutrinação moral única. 

Talvez, aqui caiba pensar quais são as alternativas à noção de moralidade. Acho que é simples: basicamente nós humanos podemos ser morais (e vivermos acreditando que existe valores absolutos que devem ser perseguidos por si mesmos, tais como a generosidade, justiça, beleza, verdade, liberdade etc), imorais (e vivermos transgredindo e reagindo aos vigentes valores considerados como "bons") ou amorais (e vivermos acreditando que nada pode ser considerado como bom em si mesmo, pois ao afinal, "tanto faz", sendo que o que se opõe à atribuição de valores em termos de sentimento é a indiferença e a descrença em relação a qualquer aposta segura). 

Este terceiro, que é o que nos interessa aqui, penso que constitui o núcleo da postura cética ou cínica (gregas) em relação à moral, e basicamente todo pensamento cientifico moderno (tal como o de Freud) se calca nesta indiferença, pois a neutralidade da pesquisa para um moderno pressupõe que "não se deve atribuir valores para fatos fatos empiricamente comprováveis, uma vez que fatos são os que são, e não devem ser jamais avaliados como louváveis, admiráveis e desejáveis ou condenáveis, repulsivos e evitáveis em si mesmos. 

E o que era a psicanálise instituída inicialmente por Freud se não um método científico de investigação e tratamento dos distúrbios neuróticos? 

É lógico que muita gente aí dissentiu de Freud e fundou sua própria escola (Adler, Jung, Reich, Férenzi, Klein, Winnicott, Lacan etc), mas como tomo aqui como referência a psicanálise Freudiana clássica, acredito que a moral a partir de Freud deve ser pensada nunca (ou menos) como "unidade qualitativa meritória do comportamento" - (a não ser entre os analistas é claro, pois aí sim incidem uma série de "mandamentos" sobre o que é bom ou ruim em termos de interpretação ou manejo clínico: por exemplo, ficar em silêncio, não responder pessoalmente as questões etc) - e sempre (ou mais) como "uma pluralidade fragmentária visando o maior nível de adequação possível diante da tirania da realidade externa". Se o mundo é injusto, caótico e desorganizado em si mesmo, não se deve esperar uma organização moral muito sólida do homem, que é pouco ou nada mais do que um animal transitório e insignificante do ponto de vista cósmico. Daí se segue que compreendo que a avaliação moral da instituição psicanalítica Freudiana seria algo do tipo: "nossa moral é não defender nenhuma moral absoluta, pois todas são relativas e o nosso desafio (o MELHOR a fazer) é conviver pacificamente com a maior infinidade possível de padrões morais reconhecendo que nenhum deles pode ser atestado como verdadeiro ou aceitar mesmo a indiferença radical que recai sobre a questão moral já que nada faz mesmo a menor diferença". Acho que, do ponto de vista epistemológico, a "moral psicanalítica" (não de Freud, que era um Judeu moralista) constitui uma revolução ética sem precedentes na história da nossa civilização ocidental.

É claro que muita água rolou após um século de psicanálise, e me parece que salvaguardo um núcleo inconsciente que atua como um eco do pensamento Freudiano, muitos analistas tem se preocupado com o tema da moral oferecendo-a um tratamento diferenciado, que passa pela criação de uma ética mais geral para o cuidado psicoterápico. Cada vez mais me parece que essa questão caminha mesmo em direção as filiações teóricas mais pessoais de cada analista, de modo que, quando estes pensam na psicanálise como uma "prática moral", eles pensam não no sentido moralizante e pedagógico da coisa, e sim num sentido existencial bem preciso: que é o reconhecimento da importância do(s) outro(s) para a vida do Eu; do impacto das ações deste Eu no mundo e sobre a dinâmica psico afetiva destes outros, agregando e incorporando assim progressivamente noções de alteridade, empatia, cuidado etc. É mais ou menos por aí que compreendo curiosa e interessante afirmação de Symington. 

Bom, prometo que parei... ;)))

domingo, 20 de julho de 2014

O silêncio

Penetrar no silêncio que habita outra pessoa é o que há de mais íntimo em termos de relações humanas: o silêncio é mais profundo do que uma vagina.

terça-feira, 15 de julho de 2014

O sentido e a perda de sentido na psicose

Fazer "todo sentido" é tão psicótico quanto não fazer "nenhum sentido".
Pretendo não repetir o que já disse anteriormente aqui mesmo neste post, e portanto, seguirei pensando com os seus comentários utilizando-me e estendendo-me sobre os meus pontos de vista:

Sergio Solis Checa, sim ,concordo contigo em seu primeiro ponto, mas com a seguinte ressalva: os recursos diferentes e as desigualdades em relação ao ponto de partida são evidências históricas datadas de milênios - isto é, muito antes da existência de um sistema propriamente capitalista. Este é o núcleo central da mensagem que eu gostaria de comunicar com este post: a mobilidade social é uma conquista da democracia política, já a mobilidade econômica uma conquista (até hoje) exclusiva do sistema capiltalista de produção. Nem o sistema feudal (anterior) ou o sistema socialista (posterior) possibilitaram esta façanha - até por que ambos possuem mais semelhança entre si do que de fato aparentam.

Sobre isso recomendo a leitura (ao menos da introdução) de "A democracia na América", de Alexis de Tocqueville. Segundo minha linha de raciocínio, essas duas conquistam caminham juntas, lado a lado, pois Tocqueville percebeu (antes de Marx) que a liberdade politica acompanha radicalmente a liberdade econômica, ou melhor, a liberdade política é fruto da liberdade econômica, pois a ascensão econômica das sociedades invariavelmente tem se demonstrada associada a maior independência entre os poderes no seio dessa mesma sociedade. As pessoas, o povo ou a população em geral, ascendeu socialmente sobre o antigo regime feudal a partir do momento em que elas obtiveram maior acesso ao "dinheiro" ou aos bens materiais por consequência de trocas - obviamente não absolutamente - "livres" entre "iguais" (mas sim relativamente mais livres e iguais quando comparadas ao rígido e antigo estatuto de nobreza ou plebe, sendo que havia "razões culturais tidas como naturais" muito peculiares que garantiam uma pacifica coexistência entre essas, aí sim, classes radicalmente antagônicas).

Neste ponto Marx pode ter acertado: a economia não apenas interfere quanto mais propriamente define os rumos da política, porém, se ele detectou no capitalismo uma doença (diagnóstico errado, pois como defendi anteriormente, me parece que marx fala sobre capitalismo pensando em feudalismo), receitou um remédio que produziu efeitos colaterais piores que a doença, isto é, a ditadura do proletariado, ou "socialização forçada dos meios de produção mediada pelo Estado", o que dá no mesmo. (não considero que seja o caso aqui de aprofundar nos aspectos da psicologia do indivíduo, mas vale ressaltar que a princípio, o substrato psicológico dos "meios de produção" nunca é uma "ferramenta" e sim uma "ideia" - mais precisamente uma imaginação).

Quanto a taxação maior para os mais ricos, considero uma medida inoportuna, pois ela deve ser maior apenas em termos proporcionais ao seu ganho maior, caso contrário, puniríamos as pessoas simplesmente porque elas obtiveram melhores resultados comparadas as outras, o que é uma loucura!

Agora emendo com as questões do Tiago Montanher, e sigo aqui com uma convicção de base: estamos ambos em consenso em relação à ideia de que a meritocracia funciona melhor partindo de um menor grau de desigualdade de base, apenas discordamos, talvez, do modo como possamos alcançar isso, que eu chamo de "equidade" (pois pensar em "igualdade" aqui é maluquice!). 

Pois bem, defendo simplesmente que devemos aumentar o acesso das pessoas ao dinheiro, de preferência através do trabalho escolhido o mais livremente possível. Como fazer isso? Ronald Reagan nos dá uma preciosa dica: "Acredito que o melhor programa social é o emprego", e é claro!, "bolsas X" podem ser de fato muito bem-vindas para pessoas miseráveis, mas elas não irão leva-las muito adiante em relação a terrificante linha da miséria; já um emprego pode fazer isso. Além do que, a qualidade de qualquer serviço assistencialista prestado pelo Estado deveria ser medida pela quantidade de pessoas que o abandonam e não pelo maior número dentre eles que se torna progressivamente dependente... exatamente como se mede por aqui, quando se diz que o programa é um "sucesso". Assim, as mais variadas "bolsas" que o governo oferece, na verdade, não são mais que serviços que o Estado cobra caro e, em contrapartida, oferece pouco. Afinal, esta é uma das incumbências do Estado: servir a população com serviços custeados pelo recolhimento de impostos. Ele não dá nada, ele apenas cobra quanto quer e depois devolve quanto e como quer. 

Ao final, ele assume então uma função que qualquer empresa poderia oferecer, mas não se preocupa minimamente com a qualidade do que é oferecido. Em suma, o Estado no Brasil é uma empresa ruim e o funcionalismo público como um todo é uma tragédia! e para quem depois poderemos reclamar, se não somente ao Estado? quanto a uma empresa ainda poderíamos acionar o código de defesa do consumidor...

Defendo portanto uma política econômica mais liberal não no sentido de um anarco-capitalismo, mas no sentido da menor intervenção e controle Estatal possível sobre a economia, assim como uma redução significativa na carga tributária das empresas de médio e pequeno porte, de modo a incentivar uma maior proliferação da iniciativa privada autônoma, que em nossa sociedade é enormemente sufocada pelas concessões e trocas de privilégios entre governos e grandes empresas que juntas constituem os mais diversos monopólios. Destaco ainda que uma sociedade liberal opera necessariamente na base do tripé: Constituição Democrática, Estado e Mercado, sendo que o Mercado deve (assim como o Estado) estar submetido a uma ordem constitucional maior, e jamais o contrário, como acontece no socialismo, onde Estado, Mercado e Constituição se fundem (e se confundem) em uma coisa só. O exemplo da Zara deve ser inclusive investigado, pois qualquer forma de trabalho escravo já foi abolida no Brasil desde 1888. Nesse sentido, como é de praxe nas inversões peculiares da cultura brasileira: um liberal (do ponto de vista econômico) está mais para um revolucionário (liberal em pleno sentido) do que para um conservador, pois aqui no Brasil a tradição verdadeiramente conservadora é a tradição do pensamento Estadista ou do Estado "salvador da pátria" - seja pela via dos militares, seja pelas vias tecnocratas de esquerda. 
Ao fim, separei aqui três links interessantes que apreciei recentemente, pois acho que eles refletem e ilustram bem os meus pontos de vista aqui apresentados:

quarta-feira, 2 de julho de 2014

É oito ou oitenta!

Algumas pessoas dizem que não devemos falar sobre política... outras acham que devemos falar somente sobre política... alguns só querem assistir futebol, outros jamais entendem o futebol... alguns não consideram estimulante pensar sobre filosofia , teologia ou religião, sociologia, antropologia ou psicologia e psicanálise... outros se entusiasmam exclusivamente pelas criações artísticas... mas se todos aderirmos radicalmente a qualquer um desses pressupostos (seduz-me dizer restritivos!), correremos um sério risco: o de incorrer no silêncio sepulcral de uma prisão que não comunica mais nada. Pois falar, pensar ou calar sobre a política (gerenciamento das questões públicas que compõe o espaço comum) equivale a pensar, falar ou calar sobre futebol  (atividade que consiste em um conjunto de regras em torno de uma bola) filosofia (que comporta a premissa ou a negação de uma ascese em direção à verdade através de operações do pensamento), teologia ou religião (que reporta sempre a origem primordial que fundamenta e orienta todas as coisas), sociologia (resultante da observação do comportamento individual nas dinâmicas coletivas), antropologia (que oferece uma noção sobre o que é característico e universal no humano), psicologia (que remete a uma percepção do desenvolvimento e organização afetiva e sexual singular entre esses humanos) ou psicanálise (acrescentando à última definição a hipótese de algumas determinações e elementos inconscientes) e artes (um conjunto ilimitado e riquíssimo de retratos externos que moldam um universo interno em erupção). Todas essas coisas estão visceralmente impregnadas umas nas outras e versam umas sobre as outras, de tal maneira que, se abandonarmos uma, abandonaremos todas as outras... assim, ou falamos abertamente e tentamos entender um pouco sobre todas elas, que em conjunto formam o cerne da experiência humana - essa amálgama insolúvel de mistérios que compõe a vida - ou nos calaremos e não falaremos mais sobre nada! É claro que no momento que se fala, se fala em separado de cada uma delas; no entanto, isso de forma alguma significa que as outras não estão todas onipresentes ali... nesse ponto é oito ou oitenta: ou se aceita falar sobre como se enxerga a totalidade da vida ou nos calemos cegos sobre ela.