Para se compreender o nazismo e o marxismo é imperativo apreender antes a essência das ideologias.
Em primeiro lugar: as ideologias são um fenômeno moderno; são elas descendentes do processo histórico conhecido como Iluminismo. A rigor, ideologia é toda e qualquer "ciência de ideias" que renega e rejeita toda a espécie de religião ou metafísica, baseando-se no pressuposto de que existe um sistema de "leis naturais" (inclusive históricas ou sociológicas) que uma vez descobertos e devidamente aplicados, podem tornar-se o fundamento de um projeto para a harmonia geral e satisfação universal da humanidade.
Seguindo com Kenneth Minogue (em seu livro: Poderes Estrangeiros: A teoria pura da ideologia), o termo ideologia pode ser utilizado para "qualquer doutrina que apresente a verdade salvífica do mundo sob a forma de análise social. É característica de todas essas doutrinas a incorporação de uma teoria geral dos erros de todas as outras." Ressalta ainda que essa verdade salvífica e oculta é uma fraude - um complexo de mitos artificiais e falsos, disfarçados de história, sobre a sociedade por nós herdada.
Assim, o século XX correspondeu a culminação de uma série de ideologias nascidas entre meados do século XVIII e XIX e desde a segunda guerra mundial, o termo ideologia vem sendo consistentemente aplicado por estudiosos diversos, significando consisamente: qualquer teoria política dogmática que consista no esforça de substituir motivações, objetivos e doutrinas religiosas por motivações, objetivos e doutrinas seculares; e que prometa assim derrubar dominações presentes para que os oprimidos possam ser libertados (Russell Kirk). As promessas da ideologia são o que Jacob Talmon chama de "messianismo político". O ideólogo promete a salvação neste mundo, declarando, ardentemente, que não existe outro tipo de realidade. Entre as críticas conservadoras mais comuns em relação ao progressismo (muitas vezes inconsequente) dos ideólogos enfatiza-se que estes últimos "imanentizam os símbolos de trascendência" - ou seja, corrompem a visão da salvação pela graça após a morte, com falsas promessas de completa felicidade neste reino terreno.
Concluindo, Russell Kirk afirma que "a ideologia, em suma, é uma fórmula política que promete um paraíso terreno à humanidade; mas, de fato, o que a ideologia criou foi uma série de infernos na Terra".
E como poderia, depois de tanto estrago, a ideologia sobreviver às ruínas do "desencantamento com o mundo" (Weber) e ainda angariar tantos adeptos das revoluções sanguinolentas?
Raymond Aron nos dá aqui uma preciosa dica:
"Quando um intelectual não se sente mais ligado nem à comunidade nem à religião de seus antepassados, pede às ideologias progressivas tomarem conta da alma inteira. A diferença maior entre o progressismo do discípulo de Harold Laski (1893-1950) ou de Bertrand Russell (1872-1970) e o comunismo do discípulo de Vladimir Lênin (1870-1924) relaciona-se menos com o conteúdo do que com o estilo das ideologias e da adesão. São dogmatismos da doutrina e a adesão incondicional dos militantes que constituem a originalidade do comunismo, inferior, no plano intelectual, às versões abertas e liberais das ideologias progressistas e talvez superior para quem está à procura de uma fé. O intelectual, que não se sente mais ligado a nada, não se contenta com opiniões, quer uma certeza, um sistema. A revolução lhe traz seu ópio".
Kirk desfere então o golpe de fatal às ideologias remanescentes ainda no começo do século XXI: "A ideologia oferece uma imitação de religião e uma filosofia fraudulenta, confrontando, dessa forma, aqueles que perderam, ou nunca tiveram, uma fé religiosa genuína e aqueles que não possuem inteligência suficiente para aprender filosofia de verdade".
Com essa introdução à noção de ideologia, acho que torna-se possível compreender melhor os problemas (tanto quanto às semelhanças) do nazismo e do marxismo.