Há poucos dias conheci uma pessoa maravilhosa, que me fez lembrar muito do livro do professor Clóvis de Barros Filho, em especial, de seu brilhante capítulo sobre Aristóteles.
O fato é que ainda existem algumas poucas pessoas, ou alguns poucos encontros humanos, que funcionam como um verdadeiro bálsamo restaurador para a alma - principalmente quando esta se encontra em momentos de tormenta!
Nestes casos, como diria Emerson, a "fusão das almas" parece nos elevar a um plano superior da existência, bem pertinho do céu, dos Deuses, para o universo suprasensível do amor e subitamente, o abismo desesperador que as vezes nos separam das outras belas almas desaperece de cena; a existência se torna um esplendor de realização e a miséria natural da condição humana se revela pífia diante da beleza da criação, do sorriso e do olhar humano!
Mas um detalhe é crucial nesta aventura: o olhar humano, capaz verdadeiramente de revitalizar a alma, é fortuito; ele brota do "encontro desinteressado" - ou do "desencontro interessado", se é que assim se pode dizer - entre dois seres humanos distintos, mas que por um relâmpago de tempo, parecem um só. Erich Fromm, dizia que apenas "o amor honesto propicia o paradoxo em que duas pessoas separadas se tornam uma, mas continuam a manter suas distinções e individualidades intocadas".
Retomando o cerne do pensamento, a ideia muito simples que hoje me veio a mente como um trovão, é que são apenas estes os momentos que fazem uma vida valer a pena!
Aristóteles defendia como eudaimônica, uma vida que vale a pena ser vivida por ela mesma; não uma vida que simplesmente busca a felicidade como um prêmio e sim uma vida que a detém (na forma de alegria) e assim a experimenta em sua própria plenitude existencial. Todas aquelas atividades que geralmente nos desligam do mundo, que nos absorvem por completo e que não possuem o seu significado no futuro nem no passado, mas sim no presente, naquele momento único que não pode (e nem deve) ser repetido, são atividades que nos conduzem ao estado de eudaimonia, ou seja, de uma sensação de completude que jamais necessita de justificativa, uma vez que ela é um fim em si mesma; jamais um meio para outras conquistas...
Para Aristóteles, a contemplação seria a atividade eudaimônica por excelência. Para mim, que sou muito menos inteligente que ele, e confio mais no meu coração do que na minha cabeça, uma boa conversa e a simples troca de olhares com um distinto ser humano já são suficientes para tornar a vida uma dádiva digna de mérito por sua própria Graça (para usar um termo caro ao gigante Santo Agostinho)!
É cada vez mais raro momentos como este, em especial em uma cultura decadente, empobrecida e mecanizada como a nossa, que robotiza o comportamento das pessoas ao mesmo tempo que esvazia a sensibilidade do espirito para os mais simples, pequenos e importantes momentos da vida - como as trocas humanas, neste caso. Não obstante, enquanto fazemos algo (só com o corpo e não com a alma em integração) e nos afastamos desta própria atividade pensando (ou seria propriamente fugindo?) no passado ou no futuro, estamos literalmente matando o que nos é mais valioso: o tempo finito que nos é concedido para experimentar esse - (geralmente) amargo, mas em contrapartida (muitas vezes) gratificante e magnífico - mundo que nos foi oferecido (e por que não também imposto) para viver.
Ainda bem que existem pessoas belas e magnânimas, com suas nobres qualidades que apaziguam as dores do viver, pois sem elas, literalmente, eu sinto que estaria desesperadamente perdido na mais angustiante solidão... mas sejamos honestos, as virtudes cardiais do ser humano são aristocráticas, isto é, poucos as entendem e um número ainda menor é capaz de praticá-las; não adianta forçar a barra: coragem, honradez, compaixão, sabedoria, bondade, beleza, respeito, responsabilidade, fé, esperança, amor, cuidado, temperança, justeza e gentileza não podem ser banalmente democratizados (isto é, enfiados goela abaixo em cada indivíduo). Jamais a totalidade das criaturas humanas, condenados como estão às insanidades e o terror da condição humana, poderão ascender a esses mais elevados bens espirituais. Esse é o peso mais brutal da nossa tragédia: a maior parte do sangue derramado apenas serve de adubo para a imensa vala de corpos que é o planeta terra!
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