Tenho a impressão de que identifiquei dois desejos da fantasia masculina que são, em essência, mutuamente exclusivos e de um modo geral, eu diria quase que absolutamente inconciliáveis: o primeiro é o desejo (basicamente comum a todo o gênero humano) de perseguir a verdade; o segundo (tipicamente masculino) é o de conquistar as mulheres; quando mais desenvolvido, este último se manifesta no desejo por uma única e específica mulher.
Porém, o conflito reside na baixíssima tolerância feminina em compreender os recônditos sombrios da perfídia masculina. Sempre que possível, elas preferem assim envolver os homens em um véu de ilusão que torna tudo belo, mesmo que o custo disso seja o relacionar-se mais intima e profundamente com as qualidades idealmente projetadas na figura do parceiro do que com aquela própria pessoa humana constituída de pele, carne e osso.
Localiza-se aqui então, um dos mais significativos fatores que contribuem para o "sucesso" do Donruanismo (se é que se pode chamar tal consequência de um comportamento compulsivo de sucesso): nunca contrariar a opinião da "presa" (que neste contexto específico, vale definir que é qualquer mulher que apenas temporariamente será utilizada como objeto para saciar uma necessidade orgânica e interna do corpo masculino); no limite, reconhecemos que o Don Juan não pode obter um verdadeiro sucesso com as mulheres, pois ele nem sequer se relaciona com uma mulher, mas apenas consigo mesmo; no entanto, sua atividade predatória vale-se de uma grande sabedoria: contrariar o pensamento, opinião ou a vaidade feminina é um erro fatal, que produz uma ferida narcísica incomensurável e por este motivo intolerável para o seu psiquismo. Neste ponto, temos de ser justos e honestos: a vaidade masculina existe e também dispõe igualmente de pouca tolerância à frustração; mas no entanto, tenho sérias duvidas se ela (a vaidade masculina) pode efetivamente ser equiparada em termos de proporção e peso com a vaidade feminina.
De fato, raras pessoas estão dispostas a percorrer o tenebroso e recôndito pântano da verdade ou das verdades (em seu sentido mais amplo) sobre a experiência humana e dentre estas, mais raras ainda são as mulheres que estão dispostas e descobrir elementos comuns e verdadeiros da experiência exclusivamente masculina.
E é neste sentido que me parece que na vida de um homem, em um momento ou outro, uma escolha deve ser feita e ela nunca é fácil: ou ele deve-se comprometer com a busca da verdade de sua interioridade e com todos os desdobramentos desta jornada e assim fracassar na arte da "conquista pela conquista" ou ele deve investir seu tempo e energia na tentativa de conquistar as mulheres agradando-as como for possível, nem que para isso tenha de realizar a prostituição de sua interioridade, ideias, e pensamentos abandonando a busca de sua própria verdade; tentar conciliar ambas essas demandas equivale a realizar o impossível!! Como bem disse (mas em outro contexto) Kierkegaard: "Ou isto ou aquilo..."
Concluindo o raciocínio, é claro que um homem é capaz de perseverar no caminho de sua verdade singular articulando-a com os elementos comum da experiência humana e ao mesmo tempo, compartilhar sua experiência e tempo com uma ou mais mulheres com interesses e desejos semelhantes ou recíprocos. Isso é o que eu chamo de um autêntico sucesso masculino, mas ele depende de muitos outros fatores (alguns passionais e outros fortuitos) que agora não vem ao caso refletir; mas uma coisa é certa, no arte da conquista Donruânica ele será um fracasso completo, pois se colocará totalmente fora de tal ideal de masculinidade.
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