sexta-feira, 8 de março de 2013

Um alerta à comunidade "psi"

      Calma lá: um objeto só é efetivamente contingente (isto é, contingente de forma plena ou absoluta) no caso do bebê - que não tem escolha, é um todo de carências e se relaciona tão somente com objetos subjetivamente percebidos.
      Quando, somando-se a esta primeira noção, observamos que o desenvolvimento psíquico e afetivo envolve um processo de maturação e a criança passa a adquirir então a capacidade de discernir entre o que é realidade interna e o que é realidade externa, além de discernir no âmbito da realidade externa quais são os objetos específicos que são capazes de gerar concretamente algum nível de satisfação - em outras palavras, ela vai aprendendo a se relacionar agora com objetos objetivamente percebidos, uma vez que o ego sintetizador já é uma entidade concreta ao psiquismo -, a contingência vai gradativamente se tornando relativa, assim como também ocorre em relação à sua dependência total no início da vida. É só fazer o teste: de nada adianta dar para uma criança relativamente madura uma chupeta quando o que ela quer é uma mamadeira. Ou mesmo oferecer a mamadeira quando o que ela quer na verdade é um carrinho para brincar.
      Neste momento, a mentalidade sagaz (e geralmente muito orgulhosa de suas desilusões) deverá levantar o seguinte questionamento: mas ainda assim o objeto é contingente, pois se ele quer uma chupeta, vale qualquer chupeta ou se ele quer um carrinho, vale qualquer carrinho. Mas veja bem, quem afirma isso é justamente a mente sagaz que se apraz com a ilusão (cínica) de que sabe o que efetivamente satisfaz o desejo peculiar da criança; mas no entanto, tal criança a que a mente sagaz se refere, não é ainda um objeto concreto objetivamente percebido, e sim um objeto subjetivamente percebido fruto de sua imaginação desenfreada - tal como aqueles objetos subjetivos que o bebê se relaciona antes de adquirir sua capacidade de discernimento e reconhecimento sobre uma realidade externa e alheia a si mesmo.        
      Finalmente, quando observa-se muito crescimento emocional e o desenvolvimento da capacidade de estar só já é de fato uma conquista, os objetos do mundo exterior passam a ser constante e continuamente avaliados no sentido da demanda, do desejo e da vontade (observa-se que aí não podemos mais falar apropriadamente de necessidades da criança), e apenas aí, adentramos no terreno vasto das possibilidades e poderemos então começar a pensar em termos de liberdade ou escolha - e assim, apenas a partir deste momento, é também que a questão do conflito entre os aspectos inconscientes do desejo e a vontade consciente tende a ganhar corpo e veracidade.
      Afinal, por mais encantador que seja um bebê, não devemos nos iludir esquecendo-nos que a sua realidade única é a mesma de um escravo (!) - pois a precocidade de seu psiquismo não assimila ainda qualquer divisão entre mundo interno e externo. Como bem sabemos, o bebê não é senhor de si, pois não é capaz de manter-se de pé sozinho sem ajuda de um cuidador, e com o auxílio da psicologia teológica profunda de Kierkegaard, podemos ainda reconhecer que a distância que vai do bebê absurdamente dependente (aquele-que-ainda-não-é) ao ser maduro (relativamente independente, nos termos apropriados de Winnicott) que assume a gerência radical de sua própria singularidade existencial é infinita e que é, finalmente, apenas com a ajuda e a contribuição amorosa de outros seres amorosos que essa jornada de desenvolvimento poderá ser ao longo de uma vida humana satisfatoriamente percorrida.        

Nenhum comentário:

Postar um comentário